Luz amarela | Fábio Campana

Luz amarela

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As manifestações do general Mourão mudam o cenário. Podem ser sintoma do surgimento do único perigo para nossas instituições, o envolvimento político das Forças Armadas

José Murilo de Carvalho, em O Globo

Era consenso entre os analistas que a crise política brasileira atual trazia uma característica positiva: o silêncio das Forças Armadas. De fato, a ausência de manifestações de chefes militares da ativa era garantia de que não haveria abalos constitucionais. Poderia haver até impeachment da presidente, mas não golpe.

Impeachment, como o de Collor, é, por definição, medida legal prevista na Constituição. Para haver golpe, seria necessário que interviesse força extraconstitucional que só poderia vir da Forças Armadas.

A marca positiva já não existe desde 25 de agosto deste ano, Dia do Soldado. Nesse dia, o general de exército Mourão, comandante do Comando Militar do Sul, complementou o texto da ordem do dia do comandante do Exército, general Enzo Peri, declarando, diante da tropa, em Porto Alegre, que ainda tínhamos muitos inimigos internos, mas que eles se enganavam achando que os militares estavam desprevenidos. E desafiou: “Eles que venham!”.

O general Mourão, um gaúcho de 61 anos, comanda, desde 28 de abril de 2014, 54 mil soldados, um quarto das forças do Exército brasileiro. Falante, o general expressa com frequência suas opiniões políticas, encontráveis na internet.

De um lado, admite abertamente ter havido tortura e mortes durante o período autoritário (em sua terminologia) e que os documentos da época devem ser abertos à consulta pública por serem parte da história. De outro, parece ainda muito marcado pelos acontecimentos de 1964, embora tivesse à época 11 anos e só viesse a se tornar aspirante em 1975.

Longe de serem história, os acontecimentos de 50 anos atrás parecem ser para ele memória viva, talvez graças à influência do pai, um general muito ativo no golpe civil-militar. Ele ainda vê, em pleno século XXI, como real a ameaça comunista no país.

Nas celebrações deste ano do 31 de março de 1964, diante de oficiais da reserva, celebrou os que impediram que o país caísse “nas mãos da escória moral que, anos depois, o povo brasileiro resolveu por bem colocar no poder”.

Que eu saiba, não houve até agora qualquer reação de seus superiores militares, do ministro da Defesa ou da chefe suprema das Forças Armadas (artigo 142 da Constituição), a presidente da República. A repercussão na mídia não fez justiça à importância do tema.

O comportamento das Forças Armadas após 1985 em relação à vida política do país, à exceção da recusa em abrir a documentação do período militar, tinha sido até agora quase modelar. Minha impressão pessoal, derivada de contatos com oficiais-alunos da Escola de Guerra Naval, era a de que estavam todos convictamente voltados para suas atividades profissionais, vendo 1964, de fato, como história.

As manifestações públicas do general Mourão mudam o cenário. Podem ser sintoma do surgimento do único perigo real para nossas instituições, o envolvimento político das Forças Armadas, um retrocesso de 30 anos.

E o general ainda tinha que ter o mesmo nome daquele outro que, em 31 de março de 1964, colocou sua tropas nas ruas, em Juiz de Fora, deslanchando o golpe civil-militar de 1964. Está acesa a luz amarela.


15 comentários

  1. Marcelo.
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 18:33 hs

    – Há poucos dias externei esta preocupação, e disse que, tudo estaria relacionado com a fragilidade de nossos poderes e instituições, pois que, um país que, todo dia, joga no lixo sua constituição não pode esperar outra coisa a não ser a linha dura dos militares. Inaceitável que isto ocorra novamente, porém, do jeito que as coisas caminham, se nossas autoridades constituídas (Executivo, Legislativo e Judiciário), bem como, outros órgãos de vital importância ao Regime Democrático, como o Ministério Público, não tomarem tenência, fatalmente, o caminho será, infelizmente, a ditadura militar. Diariamente, Direitos e Garantias Fundamentais dos cidadão são desrespeitados, este, é o primeiro presságio.

  2. wagner
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 18:55 hs

    Os poderes executivo e legislativo estão sob o domínio de bandidos que junto a empresários poderosíssimos saquearam o País e comprometeram o nosso futuro isto é fato. Agora se o STF continuar agindo em favor destes desmandos ae…. foi tudo pro ralo… Alguém vai ter que agir pra salvar o povo.

  3. RR
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 18:56 hs

    GOLPE ? GOLPE FOI O QUE ESSA PÁRIA COMUNISTA DEU NO BRASIL EM 2002/2003,ATÉ QUE ENFIM TEMOS UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL,OS MILITARES DEMORARAM À SE MANIFESTAR,TOMARA DEUS QUE TOMEM DE NOVO AS RÉDEAS DESSE PAÍS E TERMINEM O QUE COMEÇARAM LÁ ATRÁS E DESSA VEZ QUE FAÇAM A COISA CERTA,SERVIÇO COMPLETO,SÓ QUEM DEVE TEMER SÃO OS FORAS DA LEI.

  4. Palpiteiro
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 19:40 hs

    Com o respeito que merece este historiador, parece exagerada sua análise, bem de acordo com os tempos que vivemos, de revanchismo às Forças Armadas. Extraconstitucional? Aos militares cabe a manutenção da ordem constitucional. Por certo, o general se referia ao “exército” convocado pelo presidente da CUT, pelo chefete do MST e por Lula, em discursos ao longo deste ano. É evidente que os militares só interviriam se os tais “exércitos”, milícias, falanges ou outro nome que se dê a estes vagabundos que ameaçaram – dentro do palácio do Planalto – a ordem constitucional. O resto é balela e falação demagógica de quem pretende aterrorizar o país.

  5. andre
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 19:54 hs

    Vcs estão falando do contragolpe q salvou o país do comunismo????? E q teve uma “Ditadura” em q o cidadão podia comprar arma de fogo na Mesbla?????????
    Ou vcs são mto ingênuos ou mal intencionados mesmo.
    O exercito poderia a intervir em caso de impeachment para manter a ordem. Mas nos dias atuais ja não conto mais com isso. Tendo em vista que o GOLPE ja foi dado com o decreto 8515.
    Burros

  6. celso
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 20:25 hs

    tomara q volte o militar

  7. valdir
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 20:52 hs

    E que venha só assim para endireitar esse meu BRASIL varonil,AVANTE EXERCITO BRASILEIRO HURRA! HURRA!HURRA!.

  8. Rock
    quinta-feira, 29 de outubro de 2015 – 22:02 hs

    Esse José Murilo e suas previsões idiotas os brasileiros não aceitam mais derrubada de poder a não ser pelas urnas pois sabem que é muito traumático, não sei como ainda tem gente para reproduzir essa bobagens

  9. CLOVIS PENA - o custo
    sexta-feira, 30 de outubro de 2015 – 7:11 hs

    A Pátria livre não tem preço !

    O perigo é a falta de opção, de perspectiva que começa a tomar conta da cabeça do povo ! Todos os poderes estão contaminados além da conta.

    Viram o caso de altos mandatários condenados e presos recentemente e que CONTINUARAM, de dentro da prisão, cometendo crimes de corrupção contra o povo ?

  10. Jair Pedro
    sexta-feira, 30 de outubro de 2015 – 7:51 hs

    Tenho 65 anos, sou caminhoneiro, trabalho e trabalho muito. Pago uma carga de impostos sufocante que quase me impedem de sobreviver com meu trabalho.
    Tinha 14 anos quando foi implantado o regime militar.
    Hoje, baseado no passado, tenho certeza que as pessoas de bem (não de bens) aceitariam a volta dos militares (os de carreira, não os indicados à lá Jacques Wagner)) para colocar o Brasil em ordem.
    Só não querem os militares governando, aqueles que estão mamando nas tetas do governo sem nada produzirem para esse país.
    Basta de corrupção, dessa podridão que se implantou com esse maldito partido.

    Só não querem

  11. Doutor Prolegômeno
    sexta-feira, 30 de outubro de 2015 – 10:26 hs

    Se inúmeros brucutus civis, idiotas semiletrados, podem vir a público falar em mobilizar um exército para manter Dilma no poder a qualquer custo, porque os comandantes militares não podem pronunciar-se pela defesa da ordem e do respeito à Constituição e às leis. Isso é paranoia ou simples má fé cívica.

  12. VISIONÁRIO
    sexta-feira, 30 de outubro de 2015 – 10:35 hs

    Claro que é uma utopia, porem se existisse meia ditadura eu
    optaria por esta porque é necessário uma força suprema para
    exterminar esta tigrada de políticos que habitam o nosso planeta.
    Acho que não tem jeito mesmo…

  13. sisi
    sexta-feira, 30 de outubro de 2015 – 11:12 hs

    Prefiro os militares patrióticos à roubalheira institucionalizada. Uns lutam pela pátria, enquanto outros pelos seus bolsos. Está mais do que na hora de dar um basta!

  14. sexta-feira, 30 de outubro de 2015 – 12:25 hs

    Jair Pedro;
    Parabéns pela descrição lúcida e inteligente.
    Caminhoneiro sofre no dia a dia e na carne tudo que acontece neste país de norte a sul e pode falar com conhecimento de causa.
    Vivemos hoje a ditadura de uma quadrilha que visa só e unicamente seu próprio bem e em se manter no poder e que nunca se preocupou com o Brasil e sua gente.

  15. Eleitor
    sexta-feira, 30 de outubro de 2015 – 12:40 hs

    Este País abençoado por Deus, caminha assim: o Legislativo e o Executivo deitam e rolam em falcatruas, sob a complacência do Judiciário, em troca de aumentos salarias diferenciados, auxílios de toda ordem que, por um tal princípio chamado “simetria” se estende ao Ministério Público. E povo deve se manifestar contra este estado de coisas. As forças armadas que nos proteja.

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