A responsável pelo fiasco | Fábio Campana

A responsável pelo fiasco

Editorial, Estadão

Elaborar um Orçamento é questão complexa, que envolve ampla variedade de minúcias técnicas e legais e, principalmente, pressupostos políticos que têm a ver – ou deveriam ter – com as prioridades de uma proposta de governo consagrada nas urnas. Para bom entendimento, porém, a ideia de orçamento pode ser resumida a uma equação mais simples: receita e despesa. O governo avalia o quanto precisa e quer gastar e prevê os recursos de que disporá para tanto, partindo do princípio de que terá capacidade gerencial para fechar a conta. Essa é a teoria. Na prática, a presidente Dilma Rousseff, que não teve competência para propor ao País um Orçamento equilibrado para 2016, decidiu, pela primeira vez na história da República, encaminhar ao Congresso uma peça deficitária, que prevê um rombo de mais de R$ 30 bilhões. Lei de Responsabilidade Fiscal, nem pensar.

Passando ao largo de maiores considerações a respeito das razões por detrás da crise política, econômica, social e moral que o País enfrenta e se reflete, também, nesse lamentável episódio do orçamento deficitário, basta dizer que tudo isso é o resultado da conjugação de sectarismo ideológico com incompetência gerencial. Do estatismo populista com o aparelhamento partidário do governo. Principalmente quando a ideia é “passar o País a limpo”, como continua cinicamente pregando o lulopetismo, o desafio de governar exige duas qualidades fundamentais do governante: coragem e habilidade política. Coragem não falta a Dilma Rousseff. Ela o demonstrou na juventude, quando colocou a própria vida em risco na luta armada para substituir um regime autocrático de direita por um regime autocrático de esquerda. A habilidade política da presidente da República, no entanto, é zero. Ela parece acreditar ainda hoje que essa coisa de “habilidade política” não é mais do que uma desprezível enganação “burguesa” a serviço da exploração do povo. A presidente é a voz do povo e isso basta. O resto é “terceiro turno”.

Por força da convivência com o poder, Dilma certamente percebeu que não poderia deixar de conversar e até mesmo de delegar responsabilidades. Mas como ela tem absoluta certeza do que o País precisa, só ouve seu marqueteiro eleitoral. Delegação de poderes, por sua vez, não combina com sua natureza autoritária, e qualquer coisa parecida com isso jamais passou de simples coincidência. O que explica o relacionamento dela com Joaquim Levy e Michel Temer, para citar os exemplos mais notórios que nos remetem, também, ao lamentável episódio do orçamento deficitário.

Diante da necessidade – mas não totalmente convencida disso – de colocar as contas do governo em ordem, depois da gastança desenfreada do ano eleitoral, Dilma contrariou sua natureza e suas convicções e foi atrás de alguém habilitado para a missão, um economista “liberal”, alto executivo do Bradesco, e a ele “delegou” o comando da equipe encarregada do reajuste fiscal. É óbvio que só o fez para causar boa impressão aos agentes econômicos no País e lá fora. A maior “vitória” de Joaquim Levy até o momento é permanecer no cargo. Calejou-se de tanto bater cabeça com o núcleo duro da assessoria presidencial e perder a parada. A série de derrotas culminou com a do Orçamento, mas isso não o abalou da posição ministerial.

Com Michel Temer deu-se quase o mesmo, com a diferença de que, neste caso, Dilma estava lidando com um político experiente. E lá foi o vice-presidente da República, com os poderes “delegados” pela presidente que fingia apoiá-lo, realizar o que os petistas não sabem e não gostam de fazer: recompor alianças. Mas é claro que como a tal delegação não era para valer, Temer foi sabotado por todos os lados. Afastou-se educadamente e acabou faltando ao governo, consequentemente, apoio e sabedoria política para apresentar uma peça orçamentária decente.

Esse fiasco tem muitos pais, mas a maior responsável por ele é a presidente Dilma, que se recusou a aceitar cortes que equilibrariam o orçamento e não tem apoio político, e muito menos popular, para sair da crise.


8 comentários

  1. Sergio Silvestre
    quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – 13:56 hs

    Então,esse jornal é quase centenário se não o for,conviveu com políticos desde o começo do seculo passado e me parece que agora ele se tornou a doutrina dos homens sábios.
    Não é pra rir,então Campana,os políticos que ai estão são os mesmos,quando o muito passou de pai para filho.
    Será que o jornalão descobriu a formula da perfeição????

  2. Doutor Prolegômeno
    quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – 14:31 hs

    O Estadão, jornal da melhor cepa paulista, continua porta-voz da consciência cívica nacional (se é que o Brasil tem ou já teve uma). Apesar da reportagem estar repleta de sabujos do lulopetismo e narizes marrons, seus editoriais continuam primorosos.

  3. toninho
    quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – 14:55 hs

    O problema é mais sério do que se imagina. Os outros 3 poderes, Judiciário, Legislativo e Ministério Público, que se julga o 4º Poder da República, recebem percentual da arrecadação, em valores muitos superiores as suas reais necessidades de orçamento. Estes tem dinheiro em caixa sobrando e não participam de qualquer programa de ajuste. Já se falou em alteração da constituição mexendo nisso, mas não tem políticos com culhão para toparem mudar isso em benefício do País. Aqui no Paraná, a Assembléia Legislativa, em meio a foguetório, devolveu parte do seu excedente, mediante a alegação de que houve economia. Não é esta a verdade, mas menos mal, pelo menos devolveram. Já os outros poderes estão a construir mais unidades de trabalho, sem qualquer problema de orçamento, pois têm dinheiro sobrando. O país está dividido por poderes e salve-se quem puder.

  4. toninho
    quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – 14:59 hs

    E complementando, para esses outros poderes não é apenas uma questão de receita e despesa, como faz crer o editorial. O único poder que realmente tem que adequar as suas contas é o executivo.

  5. MANOEL BOCUDO.
    quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – 15:15 hs

    JOGA NA MÃO DOS TATU DO CONGRESSO, ELES VÃO TER QUE
    DESFIAR O FRANGO, O LEVY JOGOU A BATATA QUENTE NA MÃO
    DOS PARLAMENTARES DA BASE DO GOVERNO, AGORA ELES TEM
    QUE CONSEGUIR FAZER A CABEÇA DOS OTÁRIOS, PARA LIVRAR
    OS MATEMÁTICOS DO GOVERNO.

  6. Vigilante do Portão
    quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – 16:28 hs

    Enquanto o governo negava, até o último instante (ler declarações do tal de Edinho), o Orçamento já estava PRONTO, CONTANDO com a “nova CPMF”. A ideia era jogar a bomba no colo do Congresso, dizendo: Caso não aprovem, o Brasil fica ingovernável… Não deu certo, as raposas velhas e até a novas, não caíram no golpe. Nem o Temer, chamado às pressas, concordou em apoiar a recriação do Tributo. Governadores, quando souberam da “merreca” que ficaria com os Estados (5% do total), também não aceitaram a medida.

  7. Freddy Kruger
    quarta-feira, 2 de setembro de 2015 – 17:14 hs

    Eu acho muito estranho a PresiDANTA enviar esta batata quente para o Legislativo. Como dito, se houverem despesas, o próprio governo tem de apontar de onde sairão estes recursos. Se não houverem recursos, é obrigatório o corte de despesas. A Mulher Sapiens, nova espécie de mulher pseudo inteligente, não foi capaz de exercer suas funções como poder Executivo. É prova de muita incompetência. Até quando vamos aturar isto ? O Legislativo não tem a obrigação e efetuar estes ajustes, não é sua função. Está me parecendo um acordão para botar no …. do povo novamente.

  8. BRINCADEIRA
    quinta-feira, 3 de setembro de 2015 – 9:29 hs

    sr. Fabio sugestão de materia pro seu blog. Como anda as familias dos reus da Lava-Jato ,com o mesmo padrão de vida ,praias.hoteis.carrão .cade a receita federal o MPF o imposto de renda ,cade a malha fina.Para os ladroes da Republica não tem Leis só para os trabalhadores de dão o suor para poder sobreviver.

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