O PT matou o petismo | Fábio Campana

O PT matou o petismo

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Por Aldo Fornazieri

O risco imediato do impeachment foi afastado, embora a inoperância do governo e a ação de alguns conspiradores – notadamente Aécio Neves e Gilmar Mendes – sempre ameacem recolocá-lo na ordem do dia. Não foram as raquíticas manifestações da última quinta-feira que barraram o impeachment, mas a constatação, por parte de setores da elite e setores da oposição, de que seu custo político, econômico e social seria alto demais e de que o país poderia mergulhar num cenário de conseqüências imprevisíveis. Assim, foram as notas das Federações de indústrias, o editorial de O Globo, as manifestações de presidentes dos grandes bancos nacionais pedindo estabilidade, que barraram, ao menos temporariamente, o agravamento da crise política. Lula e o governo negociaram pelo alto, procuraram Sarney e outros setores, para construir um arranjo de concessões e garantias. Mesmo assim, a situação está tão frágil e existem tantos fios desencapados que a lerdeza do governo ou uma fagulha política qualquer podem precipitar o incêndio.

A observação dos acontecimentos políticos recentes permite concluir que nem o PT e nem o governo tiveram força política suficiente para manterem suas posições de poder. Essas forças faltaram no Congresso, no sistema político como um todo, e também nas ruas. Somente no entardecer do desfecho da crise, quando a chancela das elites para a continuidade de Dilma já tinha sido lavrada, é que as forças contra o impeachment saíram as ruas e, mesmo assim, com críticas variadas à condução da política econômica do governo.

Esta situação demonstra o quanto o PT se enfraqueceu; o quanto não organizou os movimentos sociais de forma autônoma; o quanto não mudou a cultura política dos beneficiários dos programas sociais; o quanto não tensionou as suas alianças políticas; o quanto não apostou na realização de reformas estruturantes; o quanto desmoralizou a própria militância de esquerda e o quanto matou as virtudes da militância antiga, que tinha orgulho em freqüentar as portas de fábrica, as periferias, as universidades, os movimentos sociais para distribuir panfletos, sustentando ideias e sonhos, enfrentando repressões e rejeições.

Tudo isto acabou. As virtudes do ativismo e a coragem dos enfrentamentos se transformaram em escombros morais, em desmoralização e vergonha por um partido que se corrompeu, em ressentimentos e impotência pelas transformações não realizadas pelos governos petistas e em nostalgias por sonhos generosos que se desfizeram nas brumas dos enganos.

Sim, foi legítimo sonhar. Foi legítimo sonhar porque o PT e o petismo de outrora representaram o ideal da justiça social e da igualdade, os valores da ética na política, a força da organização autônoma dos trabalhadores, a perspectiva da participação cívica e política da sociedade organizada. Ocorreram conquistas, não se pode negar. Os programas sociais são evidentes; a fome e a desigualdade foram reduzidas; o ensino foi ampliado; pobres e negros tiveram acesso à universidade; as condições de vida melhoraram de forma geral.

Mas tudo isto foi pouco porque as condições estruturais da desigualdade e da injustiça não foram removidas; tudo isto foi pouco porque essas conquistas ameaçam retroceder por conta da crise econômica; tudo isto foi pouco porque o andar de cima ganhou muito mais do que ganharam os pobres; tudo isto foi pouco porque os que foram incluídos não se reconhecem num conteúdo político e organizativo da inclusão; tudo isto foi pouco porque a corrupção do PT e do governo derreteram o conteúdo e o sentido simbólicos dos avanços e tudo isto foi pouco porque foi pouco de fato.

Para mostrar que foi pouco, não se fale aqui dos bilionários ganhos dos bancos, das suas isenções tributárias ou dos R$ 500 bilhões de sonegação de impostos por ano. Fale-se apenas de algumas extravagâncias dos governos petistas. O Bolsa Família custa cerca de R$ 25 bilhões anuais. Nos últimos três anos, o Banco Central acumula perdas de R$ 86 bilhões apenas para tentar conter a alta do dólar. Cálculos do próprio Ministério da Fazenda mostram que, nos próximos anos, os empréstimos do BNDES feitos desde 2009, a juros subsidiados, custarão R$ 184 bilhões aos cofres públicos. Desse custo total, R$ 97,5 bilhões recairão no período de 2015 a 2018. A lista e os valores das extravagâncias são enormes.

As muralhas de Jerusalém do PT ruíram

O processo de formação do PT acabou precocemente com a chegada do partido ao poder. O partido ainda não havia elaborada uma consistência programática estratégica, uma sólida base de valores e princípios e ainda não contava com uma militância bem formada politicamente quando venceu as eleições em 2002. Tanto os líderes, quanto os militantes tinham uma frágil formação republicana. A jeremiada política, o discurso da advertência e dos riscos que as diversas formas e práticas da corrupção poderiam trazer ao partido e ao Brasil, nunca foi algo forte na retórica dos líderes petistas.

A chegada ao poder sempre representa um momento de apogeu a qualquer forma de organização política. Neste momento a questão é: a forma perdura no poder pelo seu exemplo virtuoso, pela sua renovação política e moral e pela sua permanente retificação mediante a retórica da advertência (jeremiada), ou ela se corrompe e declina. Como já foi enfatizado muitas vezes, ao não possuir a ideologia republicana da virtude e da frugalidade, o PT se corrompeu. A ideologia dos palácios e dos gabinetes se sobrepôs à ideologia das ruas e das praças. A ideologia dos hotéis de luxo e dos restaurantes caros afogou a ideologia da militância combativa e do ativismo cívico. O PT dependente do Estado e do financiamento privado derrotou o PT-movimento da militância ativa. Os líderes do partido passaram a conviver com os endinheirados, não mais com os trabalhadores, com os humildes, com os intelectuais, com os estudantes. Estes só foram procurados nas campanhas eleitorais.

A semente da erva daninha foi sendo cultivada pelo dinheiro fácil, pelas benesses dos ambientes luxuosos, pelos grandes interesses dos negócios inescrupulosos. A ambição e a cobiça dominaram corações e mentes de muitos petistas. Sequer as prisões do mensalão foram suficientes para estabelecer um freio. Os dirigentes e militantes honestos se sentiram inibidos e foram incapazes de assumir o discurso da advertência. Neste ambiente de dissolução política e moral, nenhum Jeremias surgiu para que a voz do correto e do honesto se fizesse ouvir com força. O escândalo da Petrobrás e as novas prisões de petistas já indicavam um realidade de devastação na cidadela petista. E, finalmente, a segunda prisão de José Dirceu, o homem que, junto com Lula, havia construído a fortaleza partidária, representou a ruína das muralhas da Jerusalém petista e do seu templo.

Simbolicamente, a essa destruição da Jerusalém petista não se assemelha àquela promovida por Nabucodonosor em 586 a. C. Se assemelha mais àquela promovida pelo imperador romano Tito, em 70 depois de Cristo. O que sobreveio à destruição foi a diáspora dos hebreus. O claro-escuro com que hoje a crítica pinta o PT significa que sua forma antiga envelheceu e que está acabada. Não pode mais rejuvenescer. Não significa que o PT desaparecerá, mas que é outra coisa do que era outrora. A virtude política, o ativismo cívico e o partido-movimento terão que nascer em uma nova forma.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.


7 comentários

  1. Solavanco
    terça-feira, 25 de agosto de 2015 – 9:02 hs

    Quem decide tudo no BR são os banqueiros. Faz só 515 anos..Pouco tempo..

  2. Juca
    terça-feira, 25 de agosto de 2015 – 10:18 hs

    Perderam a oportunidade de meter uma rajada de metralhadora nesses quadrilheiros quando estavam reunidos para a foto!

  3. MANOEL BOCUDO.
    terça-feira, 25 de agosto de 2015 – 10:24 hs

    OLHA A CARA DO CANALHA NA FOTO, MANDA FAZER GRAÇA AGORA EM CURITIBA, COM O FRIO QUE ESTÁ, VAMOS MANDAR UM CORTA FEBRE PARA O VADIO

  4. OLHO VIVO.
    terça-feira, 25 de agosto de 2015 – 10:32 hs

    PILHARAM,ROUBARAM,ACABARAM COM O PAÍS DEVERIA TER A PENA DE MORTE PRA ESSA PTRALHADA NOJENTA.

  5. Alguém Revoltado
    terça-feira, 25 de agosto de 2015 – 11:10 hs

    Queria ver agora a cara do Zé Dirceu… será que vai estar fazendo careta????

  6. QUESTIONADOR
    terça-feira, 25 de agosto de 2015 – 12:29 hs

    -Em determinado trecho da reportagem lemos o seguinte: “….Não foram as raquíticas manifestações da última quinta-feira que barraram o impeachment, mas a constatação, por parte de setores da elite e setores da oposição, de que seu custo político, econômico e social seria alto demais e de que o país poderia mergulhar num cenário de conseqüências imprevisíveis. Assim, foram as notas das Federações de indústrias, o editorial de O Globo, as manifestações de presidentes dos grandes bancos nacionais pedindo estabilidade, que barraram, ao menos temporariamente, o agravamento da crise política.”
    -Ora vamos e convenhamos, o “custo político” recai sempre no bolso e nas costas do povo..sempre!!!
    -Os setores mencionados não querem mudança alguma, pois o estado em que se encontra, ganham bilhões de reais com a anuência política!!!
    -Óbvio que o impeachment é um mal necessário e urgente!!!
    -Gostaria muito que as manifestações populares avolumassem em cada protesto agendado e ganhando força política para “virar a mesa” deste cenário desolador em que atravessa o País!

  7. Paulo
    terça-feira, 25 de agosto de 2015 – 12:54 hs

    Não sou petista, mas vi o partido nascer nos anos 70 pelos jornais no ABC paulista quando Lula fez um discurso que reuniu milhares de trabalhadores das indústrias local em favor de melhorias salárias e benefícios para os operários destas fábricas. Se passou pelo menos umas quatro décadas e hoje vejo um partido em frangalhos, destroçado pela ambição, pela individualidade e objetivos de seus atuais integrantes, pela perda do norte que os dirigia, pela ruptura com a sociedade trabalhadora, pela integração de pessoas que não foram leais aos seus princípios que nos anos 70 para mim era a proteção dos trabalhadores e a busca de uma vida digna e tranquila para todos. Tanto que muitos jovens na época atraiam-se pelos salários de operário das montadoras e queria trabalhar nas multinacionais após terminarem cursos técnicos. E hoje eu pergunto, cade os ideais que originaram a fundação do PT. Será que os que foram se agregando ao movimento destes trabalhadores o distorceram ou utilizaram este movimento que nasceu da base operária, aliás o único partido no Brasil que nasceu da base e não da cúpula da sociedade está hoje sendo destroçado, agredido e humilhado. Vamos respeitar a história deste movimento que hoje é o PT, que foi utilizados por muitos mal intencionados, mas que lá ainda existe gente que acredita que pode mudar o Brasil e segue os ideais que o criaram no passado.
    A história não mente e não pode ser apagada ou ignorada, o que ocorre hoje é um assalto ao que muitos operários nos anos 70 criaram, talvez nem um partido, mas um sindicato que protegesse os trabalhadores.

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