A corrupção cheira mal | Fábio Campana

A corrupção cheira mal

artido de Dom Odilo P. Scherer

Há meses os noticiários estão recheados de fatos de corrupção. De tal modo nós já nos habituamos que as enormes somas em jogo nem mais impressionam, como se fossem fatos corriqueiros. Infelizmente, tinha razão quem vinha alertando, há vários anos, que um dos maiores males do Brasil era a corrupção. Assim se manifestou o cardeal Geraldo Majella Agnelo em 2005, arcebispo de Salvador e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) naquele ano. Suas palavras causaram protestos indignados, por levantarem suspeitas contra a honradez da vida política nacional… E hoje?!

Como em tudo, podemos ver também aqui um lado ruim e outro, bom. Ruins são o tamanho e a ramificação da corrupção em vários setores da vida pública, como vai sendo revelado. O lado bom é que os problemas começam a ser enfrentados seriamente, em vez de serem varridos para debaixo do tapete. Somente admitindo os fatos e indo às consequências é que se pode mudar certa cultura de tolerância em relação à corrupção. Para debelar a corrupção, são fundamentais a independência dos Poderes do Estado e a autonomia das instituições, para cumprirem seu papel sem ingerências interesseiras e corruptoras.

Mas ninguém se engane: a corrupção não ronda apenas a administração pública nem se refere apenas ao desvio de bens do Estado aos bilhões e milhões. Também são atos de corrupção os pequenos desvios, a sonegação de impostos ou as propinas para obter ou aceitar benefícios por meio do descumprimento dos deveres cívicos. E a pequena corrupção, quando não é corrigida em tempo, abre caminho para as grandes falcatruas.

A corrupção primeira e mais grave é a da consciência moral. Toda pessoa traz em si as noções básicas de bem e de mal e a capacidade de perceber o que é correto ou detestável na conduta. Vários fatores podem ajudar a aprimorar ou a deteriorar a sensibilidade da consciência, como a educação, o convívio social e a cultura circunstante. Mas é, sobretudo, a prática repetida de ações desonestas que leva à insensibilidade e à corrupção da consciência moral, abrindo caminho para ações desonestas maiores. Os atos e fatos de corrupção estão relacionados com um grave problema ético e moral. São fruto de um desvio de conduta caracterizado pela desonestidade e a falta de senso de justiça. Além disso, decorrem da falta de solidariedade e da insensibilidade em relação aos direitos e necessidades alheios. Será, ainda, necessário dizer que a corrupção não combina com o bom caráter, a confiabilidade e a honradez?

Em sua visita a Nápoles, em 21 de março deste ano, o papa Francisco usou palavras severas contra a corrupção e destacou a necessidade da vigilância constante, para ninguém se corromper: “Todos nós temos a possibilidade de ser corruptos e ninguém pode achar que está isento da tentação de enveredar por negócios fáceis, por caminhos de delinquência e da exploração de pessoas”. E observou que o conceito “corrupção” se refere a algo deteriorado, que perdeu a sua genuinidade e deixou de ser bom e prestável: “A corrupção cheira mal; a sociedade corrupta cheira mal”, concluiu o pontífice.

A corrupção, talvez, nos faz pensar logo em desvios de dinheiro e de bens, mas também existe a corrupção política, que é uma grave deterioração do sistema democrático, pois desvirtua e trai os princípios da ética e as normas da justiça social. Ela compromete gravemente a relação entre governantes e governados e introduz uma crescente desconfiança em relação à própria política e aos seus representantes, com o consequente enfraquecimento das instituições.

A corrupção política distorce a origem e a razão de ser das instituições representativas porque as usa como terreno para a barganha política de solicitações clientelistas e favores dos governantes. Assim, as opções políticas favorecem os objetivos restritos daqueles que possuem os meios para influenciá­-las e impedem a realização do bem comum de todos os cidadãos. A política acaba transformada num pragmático balcão de negócios, ou num instrumento de benemerências personalistas.

Ao se unirem as duas formas de corrupção, a política e a econômica, surge um combinado extremamente devastador da vida social. Não será por isso que tantos cidadãos preferem, de maneira equivocada, a distância em relação à participação na vida política? “Meter-­se em política” significa, para muitas pessoas, o mesmo que participar de negócios desonestos…

Existe remédio para a corrupção? Certamente sim. É indispensável, desde a mais tenra infância, a educação para a honestidade e o senso de justiça e solidariedade, como também o discernimento crítico diante dos fatos públicos de corrupção e desonestidade: estes não são bons exemplos a serem seguidos por crianças, jovens e adultos. Mas também é necessário que a Justiça realize o seu curso e chame às contas os agentes da corrupção. O maior estímulo para a corrupção seria a convicção de que a desonestidade compensa e a honestidade é uma tolice.

Na bula de proclamação do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia de Deus, de abril de 2015, o papa Francisco conclama os culpados de corrupção ao arrependimento e ao pedido de perdão: “Esta praga apodrecida da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança porque, com sua prepotência e avidez, ela destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres”. Para erradicá-­la da vida pessoal e social, são necessárias a prudência, a vigilância constante aliada à fortaleza do caráter, a lealdade, transparência e a coragem da denúncia. “Se não se combate abertamente (a corrupção), mais cedo ou mais tarde ela nos faz seus cúmplices e nos destrói” (n. 19).

Dom Odilo P. Scherer é cardeal­arcebispo de São Paulo


5 comentários

  1. MANOELBOCUDO
    sábado, 8 de agosto de 2015 – 14:44 hs

    PORQUE O ZÉ DIRCEU NÃO TÁ TOMANDO BANHO ??????????

  2. Sergio Silvestre
    sábado, 8 de agosto de 2015 – 17:42 hs

    Então,para quem não se da conta olha só a conta da corrupção em apenas um ano a nível federal,estadual e municipal,170 bilhões de reais,mas quando chega na sociedade civil a coisa engrossa e junto chega aos 300 bilhões que são propinas dadas a fiscais,policiais etc.
    Ai vamos chegar nas igrejas,que também tem sua parcela de corruptos quando apoiam políticos sujos e lhes dão sustentação.
    No Parana de acordo com dados foi dado fim a um PIB inteirinho do estado em quatro anos de governo Richa,ali perto de 30 bilhões foram pro ralo ou paraísos fiscais como PUNTE DE LESTE,PANAMA,ILHAS VIRGENS e para tudo que é lado inclusive o LIBANO.
    O montante que o Juiz Moro esta descobrindo é uma quantia irrisória ,quando em 20 anos foram roubados entre riquezas e dinheiro 6 trilhões de reais,isso mesmo 6 trilhões de reais que a vagabundagem,sicários e delinquentes políticos levaram do Brasil.
    Que pena né,imaginem isso investido no Pais,seriamos uma Suécia ou já estaríamos na ponta da economia mundial

  3. Paolo
    sábado, 8 de agosto de 2015 – 20:36 hs

    Não foi muito feliz a menção ao papa Francisco, que teria se manifestado veementemente contra a corrupção!! Ora, esse papa argentino puxa diuturnamente o saco dos governos bolivarianos da América Latina, sabidamente os MAIS CORRUPTOS DO PLANETA!!! Que moral tem esse cara para se posicionar como paladino da moralidade, se é amigo dos maiores corruptos do mundo?!!! Ou ele é mais um estúpido esquerdista, daqueles que acham que “tudo é relativo”?!!!

  4. Da Vinci
    domingo, 9 de agosto de 2015 – 7:58 hs

    No Paraná cheira mal e tem nome, Beto Richa. Vai Gaeco.

  5. Edson
    domingo, 9 de agosto de 2015 – 10:25 hs

    Só que temos que voltar um pouco no passado e lembrar que o PT, maior partido envolvido em corrupção em nossos dias, é cria da Igreja Católica (nasceu nas bases da Igreja, com o apoio de padres e bispos). Hoje, penso eu, a Igreja devia fazer mea-culpa e pelo menos levantar a sua voz para defender as Instituições que estão atuando no combate à corrupção (PF, Ministério Público e Justiça) as quais as “forças ocultas” estão tentando desacreditar. Também deveria dar apoio moral aos envolvidos na tarefa de tal combate (Juízes, Procuradores/Promotores, Delegados, Agentes e outros) e, em especial ao Juiz Sérgio Moro, o qual vem sofrendo enorme pressão sobre seus ombros. Nada como a Igreja para aliviar um pouco o peso de sua cruz. Um apoio moral em público já ajudaria bastante.

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