Londrina foi 'laboratório' de Janene e Youssef | Fábio Campana

Londrina foi ‘laboratório’ de Janene e Youssef

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Antes de se tornar nacionalmente conhecido por ser um dos pivôs do escândalo do Mensalão no governo do ex-presidente Lula (PT), em 2005, o ex-deputado José Janene, falecido em 2010, alcançava fama em Londrina – sua base eleitoral – como uma das figuras centrais do esquema AMA/Comurb, escândalo de corrupção e desvio de dinheiro da terceira administração do ex-prefeito Antonio Belinati, cassado pela Câmara há 15 anos, conforme reportagens publicadas pela Folha de Londrina nas edições de domingo e de ontem.

Responsável pela indicação de pelo menos metade das diretorias da AMA e da Comurb e de vários assessores de segundo escalão, Janene era “meeiro” de Belinati na administração desses órgãos, conforme expressão do MP. Assim, o deputado foi beneficiário direto – conforme várias ações ajuizadas contra ele – dos desvios. O dinheiro era usado para pagar dívidas de sua campanha de 1998.

Em uma das licitações fraudadas, o MP demonstrou que Janene, possivelmente confiante na impunidade, depositou cheque de R$ 36,9 mil em sua própria conta bancária. O cheque foi emitido para uma empresa participante do esquema, que “venceu” a licitação na modalidade carta-convite, mas, de fato jamais prestou serviços à AMA ou a à Comurb.

De acordo com as ações e depoimento do próprio Antonio Belinati ao MP, o então pepebista indicou Mauro Maggi, Nelson Kohatsu e Julio Bittencourt com presidente, diretor administrativo-financeiro e diretor operacional da AMA, respectivamente. Na Comurb, coube ao deputado escolher o diretor administrativo-financeiro, Eduardo Alonso, e indicar os ocupantes de cargos de assessoria e gerência. A presidência, exercida primeiramente por Cleber Toffoli e, em seguida, por Kakunen Kyosen partiu de um acordo entre o deputado e o prefeito.

O advogado de Belinati, Antonio Carlos de Andrade Vianna, disse que Janene manteve um relacionamento muito próximo ao ex-prefeito de Londrina até os seus últimos dias. Conforme o advogado, “o Janene ajudou muito nas administrações do Belinati, foram parceiros nas primeiras eleições e amigos até o fim”. “Se viam quase que semanalmente.” Questionado sobre o envolvimento de Janene no escândalo Ama/Comurb e suposta canalização de recursos para a campanha dele à época, Vianna evitou a polêmica. “Isso fica por conta da Justiça.”

Outra figura notável no esquema AMA/Comurb, que também viria a ganhar notoriedade nacional especialmente em 2014, com a operação Lava Jato, é o doleiro Alberto Youssef. Conhecido das autoridades federais desde o início da década de 1990 por operações de lavagem de dinheiro, Youssef acabou preso em 5 de dezembro de 2000 em decorrência das investigações do AMA/Comurb. Os promotores de Londrina descobriram que ele operava mais de 30 contas de empresas fantasmas abertas na agência centro do então Banestado. Por meio de quebras de sigilo bancário, o MP rastreou o depósito de R$ 120 mil na conta da empresa fantasma Freitas & Dutra. O dinheiro vinha de uma licitação fraudada na AMA.

A Freitas e Dutra, conforme denúncia que tramita na 4ª Vara Criminal de Londrina, foi aberta pela suposta quadrilha de Youssef com dados de duas pessoas que haviam perdido seus documentos e com foto de um ‘‘laranja’’, um lavrador de Florestópolis. Toda a diretoria do Banestado foi acusada pela fraude, uma vez que, segundo o MP, conhecia o propósito criminoso de Youssef. Na esfera civil, o doleiro responde a uma ação por improbidade administrativa por ter recebido cheque de R$ 50 mil também de dinheiro desviado da prefeitura Londrina em maio de 1999.

Para a promotora Leila Shimiti, “Londrina foi o grande laboratório para técnica desenvolvida depois pelos hoje ainda protagonistas desses grandes escândalos nacionais”, referindo-se à participação de Janene e de Youssef nos esquemas do Mensalão e dos desvios da Petrobras apurados pela Lava Jato. “O primeiro caso concreto, de repercussão, que nós tivemos com o envolvimento dessas duas figuras foi em Londrina. José Janene trazendo esse modo de operação das empresas de fora, das concorrências fraudadas e o Youssef com o know-how da lavagem de dinheiro”, historiou. “Naquela época, Youssef já estava colocando em prática um mecanismo de lavagem de dinheiro antes da própria lei ou concomitante à própria lei que viria a tratar especificamente da ocultação de bens, em 1998”, acrescentou.


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