Anos de retrocesso | Fábio Campana

Anos de retrocesso

Miriam Leitão

Os jornais, diariamente, dão comparações com tempos pretéritos. Estamos em marcha a ré. Se o Banco Central elevar os juros na próxima reunião, como sugeriu na Ata desta semana, a Selic voltará ao nível de 2006. A inflação está no maior patamar desde 2003. O comércio externo é o mais fraco desde 2010, a produção de caminhões voltou a 1999, o déficit público é o mais alto desde 2002.

Em Bruxelas, a presidente Dilma disse que a inflação alta é consequência da seca e do cenário internacional. Na economia, como na medicina, o erro de diagnóstico leva ao tratamento inadequado, que não cura o paciente. Se fosse só a seca, era um problema momentâneo. Se é a crise internacional, fica cômodo para a governante, porque ela pode terceirizar a culpa.

Na verdade, a inflação está em inacreditáveis 8,5% porque, no primeiro mandato, a presidente cometeu erros sequenciais. Um deles foi ser tolerante com a inflação alta, achando que era causada por um fator eventual, e aceitou que ela ficasse em torno do teto. Eventos inesperados sempre acontecerão, uma seca, chuva excessiva, uma quebra de safra, a alta de um preço ou desvalorização cambial. É por isso que a taxa tem que ficar na meta, para que o espaço de flutuação possa absorver o choque.

Agora Dilma diz que uma onda nos abateu. Que era marolinha, mas depois se transformou em onda. A verdade é que foi um grande impacto desde o começo. O país crescia a 6% e foi para a recessão. O governo Lula subestimou a crise, apertou o acelerador em 2010, elegeu a sucessora, que, por sua vez, não teve a sabedoria de fazer o ajuste naquela época. Pelo contrário, preferiu acreditar nos alquimistas.

O primeiro governo Dilma não fez esforços para manter a inflação em 4,5%. Havia comemoração quando o IPCA terminava o ano pouco abaixo do teto de 6,5%, como se estivesse cumprido a meta. Tão próximo do limite, a inflação rompe o patamar máximo com muita facilidade.

Houve outros erros que explicam o momento atual. Um deles é o de energia. Capixabas e curitibanos estão pagando hoje um preço da energia mais de 80% maior do que há um ano. Os paulistanos, mais de 70%. E assim por diante. Quem provocou esse eletrochoque foi o governo Dilma, quando achou que poderia fazer demagogia com o preço da luz. Provocou uma grande desorganização no setor que ainda não está resolvida. Despachou para 2015 aumentos que deveriam ter acontecido antes. Tudo terminou no tarifaço, que tem provocado encolhimento da renda disponível e perda de competitividade das empresas.

Enquanto o mundo vive um período de queda de preços, puxada pelas baixas cotações do petróleo, o brasileiro paga uma conta que já subiu em média 41% de janeiro a maio e 58% em 12 meses. Não é o mundo nem a seca que explicam esses reajustes.

E ela continua errando, quando afirma que está preocupada com a inflação, mas quer que as pessoas aumentem o consumo. Houve um forte endividamento nos últimos 10 anos, o custo dos empréstimos subiu, a renda das famílias encolheu com a elevação dos preços e há o medo do desemprego. Essa é a armadilha na qual estamos agora: o país indo para a recessão, o Copom dá sinais na sua Ata desta semana de que os juros continuarão subindo, porque a inflação está em um patamar perigoso.

Uma taxa neste ponto induz à indexação e cria uma rigidez que torna mais difícil derrubar a inflação. Empresários preferem diminuir a produção a reduzir os preços. A esperança é que a briga que se instala dentro da cadeia produtiva seja vencida pelos que não aceitam os repasses de custos, nem validem qualquer preço.

As projeções dos economistas são de que a inflação cairá ao menos três pontos percentuais no ano que vem. Tomara que aconteça, mas há risco de que, no primeiro momento de recuperação, as empresas queiram recompor margem e, assim, a taxa de inflação permaneceria alta. É por isso que o Banco Central fala em ser persistente na política monetária.

O cenário da inflação é muito mais complexo do que a presidente demonstrou, em suas declarações, ter entendido. Uma taxa de 8,5%, quase chegando a dois dígitos, exigirá que se atue em várias frentes para vencer a velha inimiga. Há retrocessos que não são aceitáveis.


4 comentários

  1. antonio carlos
    domingo, 14 de junho de 2015 – 15:25 hs

    O problema dos nossos chefes de governo é sempre o mesmo, não conseguem enxergar os próprios erros. A culpa invariavelmente é de “causa externa”, que independe da nossa vontade. E a coisa não veio do 51 não, ela sempre fez parte do nosso folclore, vamos demonizar algum inimigo, e nel descarregar toda a culpa pelas desgraças que estão nos assolando. Quando os Estados Unidos e a Europa estavam indo para o buraco por causa da tal “marolinha” o 51 debochou deles. E hoje a tal “marolinha” tomou ares de tsunami que, nos ameaça destruir. E a culpa é da “conjuntura”. Adoro demagogia barata e conversa fiada para o Jô ouvir.

  2. Jair Pedro
    domingo, 14 de junho de 2015 – 20:03 hs

    Dilma tem uma grande qualidade: achar culpados.
    Em alguns momentos os culpados são “eles” em outros são “azelites” repentinamente os “brancos de zolhos azuis” ou então os “a turma do quanto pior melhor” ou ainda os “raivosos”
    e todos esses culpados identificados pela madame são igualmente culpados, pelo cachaceiro e pelo partido dos trapaceiros. Agora ainda vem com essa da seca ou do cenário internacional.
    Só que nesse embalo de enganar a si próprio para enganar os outros, o número de trouxas vem diminuindo drasticamente pois pouquíssimas as pessoas que ainda lhes dão algum crédito.

  3. JÁ ERA ...
    segunda-feira, 15 de junho de 2015 – 6:23 hs

    O maior erro deste governo do PT é mentir para a nação. O clima de des-
    confiança que tomou conta de A a Z no início do segundo mandato já trans-
    formou em certeza de que votou errado. Para a parcela de idiotas que vota-
    ram nesta anta acreditando nos discursos eleitorais viram que as sujeiras
    debaixo do tapete eram imensas e que a roubalheira é a real situação do
    desgoverno do PT. A Dilma dificilmente renunciará e assim sendo o mais
    coerente seria pedir desculpas para a nação pelos seus erros e convocar
    a população para tentar recuperar o que perdeu, porem com a mania de
    colocar a culpa nas núvens não dá mais para ninguem !!!!!!!

  4. Do Interior....
    segunda-feira, 15 de junho de 2015 – 10:00 hs

    É o que eu digo: em TUDO que o PT põe a mão, dá merd*!. NADA que este partido põe a mão dá certo!. É uma incompetência sem limites. Não entende de nada a não ser de greve.
    A comparação com o diagnóstico médico errado e o tratamento é feliz, mas me parece mais grave: O PT sabe do tratamento correto mas não aplica pois pensa somente nos VOTOS e na popularidade. É um partido ideológico e, com isso, vive numa UTOPIA que não existe nem será alcançada (Marx).
    Muitos comerciantes que conheço estão comprando menos para o NATAL acreditando que haverá recessão. Não querem ficar com o prejuízo dos estoques. Com isso, haverá menos emprego. Está aí o efeito PT, comum nos países autoritários, totalitários e comunistas como Venezuela, China comunista, Cuba, Alemanha de Hitler e por aí vai….
    Fora PT
    Fora esquerda vermelha

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*