A crise bateu no consumo | Fábio Campana

A crise bateu no consumo

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Editorial, Estadão

Demorou, mas a estagnação da economia brasileira atingiu com força o consumo e as vendas do varejo. Com a inflação disparada, os juros em alta e o emprego rateando, os consumidores se tornaram mais moderados no segundo semestre. As vendas de lojas e supermercados, apesar das festas, diminuíram no fim do ano. Em dezembro, o comércio varejista “ampliado” ­ incluídas as lojas de veículos e componentes e as de material para construção ­ vendeu 3,7% menos que em novembro. No comércio restrito, a queda de um mês para outro foi de 2,6%, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os novos números completam um cenário de crise só atenuado pelo desempenho ainda razoável do agronegócio, o setor mais competitivo da economia nacional.

O consumo foi muito mais vigoroso que a atividade industrial nos últimos quatro anos. Essa demanda, sempre excessiva no período, foi sustentada pelo crédito em expansão, pela criação de empregos (embora de baixa qualidade), pelo aumento da massa de salários, pela gastança federal e pelos estímulos bancados pelo Tesouro.

Uma das consequências da forte demanda de consumo foi a inflação sempre bem acima da meta de 4,5% ao ano.
Apesar de alguma oscilação, a produção industrial tendeu sempre para baixo, durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. No ano passado, a indústria produziu 3,2% menos que no ano anterior. O comércio varejista “ampliado” ­ denominação usada pelo IBGE ­ vendeu 1,7% menos que em 2013. O resultado é explicável basicamente pelo recuo de 9,4% das vendas de veículos e componentes.

Em 2014, o esquema de benefícios especiais para a indústria automobilística perdeu eficácia. Além disso, o crescimento foi nulo para o comércio de materiais de construção, apesar do programa habitacional e das promessas de maior investimento em infraestrutura. São mais elementos para o grande painel dos fiascos federais.

O comércio varejista restrito ­ sem veículos e componentes e sem material de construção ­ ainda vendeu durante o ano 2,2% mais que em 2013, mas a maior parte dos oito segmentos pesquisados teve desempenho modesto. A média foi puxada para cima pelo setor de artigos farmacêuticos, ortopédicos e de perfumaria, com aumento de vendas de 9%, e pelo de “outros artigos de uso pessoal e doméstico”, com avanço de 7,9%. Cultura e informação foram os segmentos mais sacrificados. As vendas de livros, jornais, revistas e papelaria foram 7,7% inferiores às do ano anterior.

Apesar de tudo, manteve-­se o desequilíbrio geral do mercado e a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 6,41%, muito perto do limite de tolerância, de 6,5%. O resultado final foi muito parecido com aqueles observados a partir de 2010. É a inflação descrita como “persistente” nos documentos do Banco Central e explicável basicamente por um erro de política econômica ­ o estímulo muito maior ao consumo do que à produção.

O desajuste aparece também nas contas externas. O superávit comercial encolheu seguidamente nos últimos quatro anos e em 2014 foi substituído por um déficit de US$ 3,96 bilhões. Pela primeira vez em muito tempo o bom resultado obtido pelo agronegócio foi insuficiente para compensar o rombo no comércio da maior parte da indústria.

A exportação de manufaturados, no valor de US$ 80,21 bilhões, foi 13,7% menor que a de um ano antes, pela média dos dias úteis. A de industrializados, no valor de US$ 109,27 bilhões, foi 11,5% inferior à de 2013. Estes números incluem uma fatia das vendas do agronegócio (contabilizadas, na maior parte, como produtos básicos). Sem alimentos processados, como açúcar demerara e café solúvel, o saldo comercial dos industrializados seria pior.

Em 2014, o descompasso entre o consumo e a oferta interna de bens e serviços ficou um pouco menor, mas o equilíbrio ainda está distante. O arrocho fiscal e monetário é inevitável, mas a solução de longo prazo só virá com mais investimentos produtivos. Isso dependerá de confiança na economia.


6 comentários

  1. Parreiras Rodrigues
    terça-feira, 17 de fevereiro de 2015 – 14:06 hs

    Sempre disse que a popularidade de Lula e Dilma se estribavam nas políticas sociais – Bolsa Família, cotas, mais o arreganhamento do crédito e o incentivo ao consumo.
    Como não existe almoço de graça, eis que se cobra a conta,

  2. terça-feira, 17 de fevereiro de 2015 – 14:07 hs

    PELA PRIMEIRAVEZ NA HISTÓRIA….EU E MEUS FAMILIARES SOMOS EM 22 PESSOAS AQUI…DEIXAMOS DE FAZER COMPRAS PARA O NATAL E ANO NOVO..FICAMOS QUIETINHOS EM CASA,,COM MEDO DA RECESSÃO..E DESEMPREGO….E PASSAMOS ESTAMOS AQUIOI BEM GRAÇAS Á DEUS SEM DIVIDAS FOI UM ATO CRUÉL..POREM NECESSÁRIO…..

  3. Marcos
    terça-feira, 17 de fevereiro de 2015 – 14:09 hs

    O modelo “PTista” de governar focou tudo no “consumo”, ao invés de investir na infra-estrutura, agora o barraco desabou e não temos para onde correr, e para piorar, os poucos investimentos que tivemos foi tudo via BNDS, ou vão me dizer que as empresas que investiram no Brasil nos últimos anos aplicaram dinheiro “próprio” no nosso país ? Ví da boca de muito eleitores do PT que votaram em Lula e Dilma porque nunca puderam ter nada na vida antes, mas e agora, nem isso vão poder ter mais, o credito encurtou, o dinheiro está ficando cada vez mais caro, cada vez mais pessoas estão perdendo seus empregos, pena a mídia comprada não divulgar ao pé da letra o que está acontecendo com a nossa economia, e ao que tudo indica, poderemos ter uma inflação oficial batendo na casa dos 15% ao ano, o que indica descontrole total da economia e falta de credibilidade deste governo imoral.

  4. FUI !!!
    terça-feira, 17 de fevereiro de 2015 – 14:35 hs

    O Lula produziu no seu segundo mandato uma avalanche de consu-
    mo nunca visto em nosso país. Maquiagem pura apesar dos desvios
    de várias estatais já estarem em curso, porem para o povão o Presi-
    dente era o Deus (de mentira mas era). Nunca se consumiu tanto nes-
    te país e todos viajavam, andavam de carro zero e tudo estava às mil
    maravilhas. De repente meia noite chegou e a abóbora virou…
    Hoje quem não apertar o cinto vai falir as finanças porque anos difí-
    ceis virão pela frente. Este governo não vai conseguir estancar as san-
    grias provocadas independente dos ajustes e quem vai pagar as con-
    tas !? Novamente o povão burro !!!

  5. VISIONÁRIO
    terça-feira, 17 de fevereiro de 2015 – 16:42 hs

    É… estamos no começo do fim. Do jeito que tudo tem subido como rojão
    vamos atingir o céu logo… Ou o brasileiro poupa ou morre de fome, sede
    e sem eletricidade !!!

  6. VISIONÁRIO
    quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 – 6:57 hs

    Os brasileiros começaram a cair na real depois que começou 2015.
    Promessas de campanha da Dilma foi pro brejo e os ajustes de contas
    para “tentar” equilibrar as finanças e encobrir os rombos da Petrobras
    já começaram a chegar. Pagaremos todas as contas negativas deste
    governo maldito sem termos margem de contestação. Infelizmente o
    país vai viver anos de inferno sem ter para onde correr. A época de
    gastança desenfreada incentivada pelo PT já era. Os pouquíssimos
    brasileiros que pouparam dinheiro e sempre praticaram o ato de economizar até água vão sobreviver e os restantes precisarão pedir
    socorro para o PT…

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