Até o pescoço, pela liberdade | Fábio Campana

Até o pescoço,
pela liberdade

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O “totalitarismo religioso”, para usar as palavras do escritor Salman Rusdhie, não pode achar que o mundo está se curvando a ele

Sandro Vaia

“Estamos em guerra. Até o pescoço. O Exército Islâmico é o novo nazismo. Quer dominar o mundo, como quando eu era pequeno e vivia sob bombardeio”.

Umberto Eco, autor da frase, é escritor (“O nome da Rosa”) e semiólogo- aquele que estuda a palavra e suas significações.

Ele não se preocupou em bordar ou suavizar as palavras com que definiu o massacre de Paris, aquele em que dois psicopatas invadiram a redação do Charlie Hebdo, um jornal satírico, e mataram doze pessoas-entre as quais quatro cartunistas tidos como geniais- a rajadas de suas kalishnikovs e aos gritos de que o profeta Maomé estava vingado.

Milhares de pessoas foram às ruas, em Paris e em outras cidades europeias, em solidariedade aos jornalistas mortos e empunhando cartazes que diziam “Je suis Charlie” – todo mundo virou Charlie, e as praças se encheram em defesa da liberdade-porque é disso que se trata.

Mas atrás da poça de sangue que restou da reunião de pauta do Charlie Hebdo, os antropófagos da democracia começaram a roer os ossos dos mortos e a relativizar o ataque dos fanáticos islâmicos e a colocar, como colchão entre a civilização e a barbárie, as suas ponderações recheadas da habitual vigarice ideológica.

“Sou contra ataques terroristas, mas…”.

Mas o que? Ao o jornal era muito agressivo e não respeitava a fé islâmica; ah, o ataque vai aumentar a escalada xenofóbica na Europa e vai fortalecer a extrema direita; ah, a liberdade de imprensa tem que ter limites; ah, um jornal satírico não pode ser desrespeitoso com as crenças do outro… e muitos outros mas.

Eles matam, mas a frágil consciência do Ocidente a respeito da riqueza de seus próprios valores civilizatórios, como a democracia, a liberdade e o pluralismo, deixa espaço para que aflore a dúvida: quem sabe a culpa não seja nossa? Ampliar esse espaço de dúvida e plantar o medo dentro das fissuras que eles abrem a golpes de kalishnikov, esse é o objetivo tático dos terroristas.

A melhor resposta é ir à rua e proclamar que a estratégia de cercear as liberdades através do medo não funciona. O “totalitarismo religioso”, para usar as palavras do escritor Salman Rusdhie, que já foi vítima de uma fatwa que o condenou à morte, não pode achar que o mundo está se curvando a ele. Se ele perceber que a tática do medo é eficaz, continuará avançando e destruindo as liberdades que encontrar pela frente. Pelas frestas da covardia, a intolerância se instala, se impõe e domina.

É muito simbólico que o ataque tenha sido contra a redação de um jornal, porque é através da liberdade de imprensa que a liberdade de expressão se torna um valor irremovível e inegociável de uma determinada forma de ver e viver o mundo. Mais simbólico ainda que tenha sido contra um jornal humorístico, satírico, desbocado, anárquico, insolente e desrespeitoso contra todas as convenções políticas, sociais e religiosas, mesmo as mais caras às tradições francesas.

Como disse Daniel Cohn Bendit, o revolucionário de 68, o Charlie exagerava nas piadas, sim, mas “essa era a concepção deles, de um jornal satírico onde o exagero era justamente parte da concepção; se você diz que eles exageraram, diz que eles não têm razão de ser. Uma sociedade livre é justamente aquela que suporta o excesso”.

A guerra de Umberto Eco, aquela em que estamos metidos até o pescoço, é a guerra pela liberdade.


6 comentários

  1. Sergio Silvestre
    sábado, 10 de janeiro de 2015 – 15:45 hs

    Então,o policial morto por causa da provocação dos (jornalistas?) não tem faixas dizendo “je sui policial”nem quase noticia de como está sua família.
    Acho que cutucaram a onça com vara curta,mas um cartunista que ponha o PAI ,FILHO E ESPIRITO SANTO FAZENDO SEXO,merece um corretivo enão merece ser lido ou visto.

  2. Loop
    sábado, 10 de janeiro de 2015 – 15:45 hs

    Religião ou 2 psicopatas?
    Dominam os chineses …
    Religião? Uns comem o churrasco outros adoram os bois …
    ELE deixou religião ou MINHA Igreja?
    Ponto de vista ao tons de branco …

  3. Contagem
    sábado, 10 de janeiro de 2015 – 21:31 hs

    Tudo certo. Mas, e de que lado REALMENTE está a nossa ‘república’ que mata mais de 50 mil pessoas todos os anos, segundo dados oficiais? Sejamos honestos. Não sejamos hipócritas. Nossa ‘república’ tornou-se ou não tornou-se o QUARTO REICH NAZISTA? Morreram 12 na França em 12 anos. Isto dá 1 por ano, o que é lamentável, triste, bárbaro. Ora, 50.000 menos 1 restam 49.999 em 1 só ano. Ora, em 12 anos, temos um contingente de 600 MIL assassinatos não elucidados em nossa ‘república’, quase 1 MILHÃO de mortos. Onde está a ‘indignação’ dos brasileiros? Onde está?

  4. paty
    domingo, 11 de janeiro de 2015 – 3:21 hs

    Concordo com todas as manifestações em apoio às vítimas , concordo também em valores como liberdade de expressão. Sei também que a França possui um contexto cultural bem diferente do Brasil, lá a Liberdade foi um direito adquirido com muito suor e é extremamente valorizada e respeitada, ou seja, a liberdade lá realmente existe.
    O que penso sobre tudo isso é que a liberdade (inclusive de expressão) requer o exercício do RESPEITO e da responsabilidade e me pergunto até onde é humor e até onde é falta de respeito ao diferente?

    “A piada é boa quando a graça está na desgraça do contador e não no infortúnio do desgraçado”

  5. fiscal de realeza
    segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 – 8:12 hs

    a imprensa sempre teve papel importante mas quando fais politica e com lado certo fica perigoso o jornal freançeis pagou por nao ter limite nas criticas e no brasil a maioria dos jornais estao desenvolvendo uma politica perigosa que nao mede a febre do povo e para fazer protesto convocam bandidos da pior especie e aconteçe os quebras quebras e destruiçao

    isso nao é papel da impensa

  6. Hary
    segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 – 9:55 hs

    A falta de respeito aos deuses ser punido com morte por humanos seguidores acaba só por provar que esses deuses não existem, pois se fosse necessário os assassinatos seriam feitos pelos próprios deuses, como sempre fizeram nas escrituras antigas.

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