'A presidente estará atenta ao tamanho do PMDB', diz Michel Temer | Fábio Campana

‘A presidente estará atenta ao tamanho do PMDB’, diz Michel Temer

Foto: Igo Estrela / Época
temer igo8882

Da Época:

O vice-presidente Michel Temer está rouco. Fato normal para quem deixou há poucos dias uma rotina de dois meses de campanha eleitoral. Na semana passada, usou seu outro chapéu, presidente do PMDB, e isso o obrigou a gastar ainda mais a voz. Num jantar, ele reuniu 202 integrantes do partido no Palácio do Jaburu. No dia seguinte, Temer se reuniu com o conselho do PMDB e novamente não poupou a garganta. Conversou longamente com o deputado Eduardo Cunha, que se lançou candidato à presidência da Câmara. Adversário do governo, Cunha é uma tarefa para Temer. “O partido é muito inquieto”, diz Temer. “O importante é dialogar. É o que mais faço.”

ÉPOCA – A aliança do PMDB com o PT vive dias difíceis. Parlamentares do PMDB reclamam de um desejo de hegemonia do PT. Como lidar com isso?
Michel Temer – Há um dado numérico. Fizemos sete governadores, e quase fizemos 11 – as vitórias dos adversários foram apertadas. O eleitorado brasileiro apoiou muito o PMDB. Temos a segunda maior bancada da Câmara, a maior do Senado, a presidência de ambas as casas, a Vice-Presidência da República. Não entendo esse discurso da hegemonia, acho que é uma disputa de funções no governo. Neste mandato, o PMDB teve cinco ministérios, vários cargos e atividades. Muitos criticam o PMDB, dizem que o partido só quer cargo. Mas nós somos governo, não somos aliados. Para o segundo mandato, as conversas com o PMDB, a partir das conversas comigo mesmo, têm se amiudado. O PMDB e os aliados terão um protagonismo grande.

ÉPOCA – Esse maior protagonismo se traduzirá em mais ministérios?
Temer – Não tratamos desse assunto ainda. Já estive duas vezes com a presidente Dilma desde a eleição, hoje (quinta-feira) inclusive, mas deixamos isso para o começo de dezembro. Claro que essa é uma tarefa da presidente. Ela naturalmente conversará com os partidos. A questão não são cargos, mas espaço político.

ÉPOCA – O PMDB precisa de mais espaço?
Temer – Não sei, dependerá do que conversarmos mais adiante. A presidente estará muito atenta ao tamanho do PMDB.

ÉPOCA – O PMDB não se comporta em alguns momentos mais como oposição que como situação?
Temer – É que o partido é muito inquieto. Mas não há um projeto do governo que tenha sido derrotado, até a eleição, pelo PMDB. A derrota na questão dos conselhos populares (a Câmara aprovou um projeto que susta os efeitos de um decreto de Dilma, que criava novas instâncias de participação popular) foi depois da eleição. É um tema muito polêmico desde seu nascimento. Mas não é um projeto que afete a institucionalidade governamental. No mais, o importante é dialogar. É o que mais faço. Há queixas, mas não são dos 72 deputados. É de um grupo. Isso não me assusta e não assusta o governo.

ÉPOCA – O senhor tem o comando do PMDB? Alguns colocam isso em dúvida.
Temer – Se não tivesse nenhuma presença no PMDB, convenhamos, no instante em que fizesse um jantar, não reuniria 202 lideranças no Palácio do Jaburu. Não sou um “coronel” do partido, até repudio essa espécie de denominação. Tenho uma liderança construída ao longo do tempo. Fui três vezes presidente da Câmara. Devo isso ao PMDB. Sou presidente do partido. Devo isso ao PMDB. Sou vice-presidente da República. Devo isso ao PMDB.

ÉPOCA – O líder do PMDB, Eduardo Cunha, está em campanha pela presidência da Câmara, com uma postura que incomoda o governo. Como o senhor avalia a conduta dele?
Temer – Nas três vezes em que fui candidato à presidência da Câmara, uma ou duas semanas antes aparecia uma outra candidatura que tumultuava o ambiente eleitoral. Muitas vezes, lançar a candidatura muito antes não é útil. Cada um tem seu estilo. Ele está no direito dele, legítimo, de se lançar candidato. Ele diz que ainda não se lançou, que está sondando. Mas tem o direito de trabalhar.

ÉPOCA – Há um bloco de parlamentares em formação para apoiá-lo.
Temer – É o que me dizem também. Falando como presidente do PMDB, ele tem de ser um candidato que revele a independência do Poder Legislativo; mas, ao mesmo tempo, que não seja de oposição prévia ao governo federal. A Constituição, embora as pessoas falem muito em independência, determina que os poderes sejam independentes e harmônicos entre si. Essa harmonia, temos de recuperar.

ÉPOCA – O senhor considera o deputado Eduardo Cunha capaz dessa harmonia?
Temer – Acho que ela será obtida seja quem for o presidente.

ÉPOCA – O senhor conversou com o deputado Eduardo Cunha. O que combinaram?
Temer – Ele disse que não será oposição, que trabalhará conosco. Disse a ele que, ao longo do tempo, ele revelou certa dissonância, certa discordância, especialmente durante a campanha eleitoral. Ele fez uma declaração que me destituía da presidência do partido. Atribuo isso à inabilidade política, simplesmente isso. Ou, então, achou que eu estava derrotado de uma vez e resolveu ver se me expulsava do partido desde já! (risos) Tive de dar uma resposta dura. Ele disse que a intenção não foi essa, justificou-se.

ÉPOCA – O Blocão, o grupo de parlamentares da base do governo e da oposição, formado no ano passado, foi algo normal?
Temer – Que derrota o Blocão impôs ao governo? Afora essa história do conselho?

ÉPOCA – Ajudou a criar as duas CPIs da Petrobras.
Temer – Há coisas inevitáveis. Isso revela a faceta democrática do governo. Se fosse um governo autoritário, atropelaria.

ÉPOCA – O senador Aécio Neves (PSDB) disse em seu discurso de volta ao Congresso que o diálogo com o governo dependerá da investigação do caso Petrobras. Como o senhor avalia essa imposição?
Temer – Essa investigação está em andamento. Já dissemos que isso irá até o fim, usando a expressão clássica, “doa a quem doer”. Uma coisa curiosa é que quem faz a investigação é a Polícia Federal, há uma CPI instalada, todos os instrumentos de fiscalização operam tranquilamente. E, embora o governo tenha maioria, ninguém impede essas investigações, as coisas caminham.

ÉPOCA – O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa disse em depoimento à Justiça que o PMDB levava recursos dos negócios fechados na Diretoria Internacional. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Temer – Institucionalmente, não veio nada para o PMDB. Não há essa coisa de verbas para o PMDB. As pessoas mencionadas querem que a investigação vá até o fim, precisamente para revelar sua inocência. A delação premiada é um elemento de acusação, é um indício, você precisa comprovar a delação. Temos de esperar o processo. Aí, novamente, doa a quem doer.

ÉPOCA – Isso inclui o presidente da Transpetro, Sérgio Machado, filiado ao PMDB, que se afastou do cargo?
Temer – Não quero falar dele, porque ele é uma bela figura, sempre tive a melhor impressão pessoal dele. Ele já tomou uma medida muito adequada, afastar-se do cargo, para permitir a investigação (depois que Paulo Roberto Costa o acusou de receber R$ 500 mil em propinas).

ÉPOCA – O senhor conhece Paulo Roberto Costa?
Temer – Encontrei-o uma vez em Brasília, mas só fui apresentado. Nunca tive nenhum contato pessoal com ele, nenhuma relação. Aliás, com nenhum diretor da Petrobras, com toda a franqueza. Minha atividade política, quando era deputado, não era conseguir emendas para municípios, valores não sei para quem. Sempre tive um voto mais ou menos de opinião.

ÉPOCA – O que o senhor pensa da regulação da imprensa, defendida novamente na plenária do PT na semana passada?
Temer – Eu sou, e o PMDB também é, pela mais absoluta liberdade da imprensa. Qualquer tipo de regulação que resvale para uma censura precisa ser repudiada e será repudiada pelo PMDB como partido. Sobre a regulação econômica, é preciso ver os termos. Confesso que não conheço o projeto. De qualquer forma, há um preceito constitucional que garante a iniciativa privada, a liberdade de iniciativa. Não sei como compatibilizar a regulação econômica das empresas com a liberdade constitucional da iniciativa privada. É preciso conhecer o projeto.


6 comentários

  1. Beatrix Kiddo
    sábado, 8 de novembro de 2014 – 17:28 hs

    O pragmatismo deste homem é realmente notável, ele não vai com tana sede ao pote quanto outros vão, aí derrubam o pote e ficam sem beber. Este cara não, ele sabe a hora certa de morder e a de assoprar, agora a hora é só de assoprar, a de morder começa antes do Natal e termina antes do Ano Novo.

  2. Johan
    sábado, 8 de novembro de 2014 – 18:10 hs

    Caro FÁBIO, pelas palavras afirmativas do Vice Temer, os pmdbistas que antes tinham a cor dos petistas, agora, estou convicto de que os pmdbistas estão também com o odor dos petistas. Isso para o BRASIL é temerário, pois os 02 partidos praticamente assumiram o executivo, o legislativo e o independente judiciário que já está no bolso dos petistas. O BRASIL está refém dos petistas e pmdbistas, na condução e regulação da política econômica. No tocante a regulação da liberdade de imprensa ele afirma que repudia e não REJEITA a regulação da liberdade de imprensa. A sociedade brasileira deve ficar atenta as interferências que serão promovidas nas esferas estaduais e nos comandos estaduais da Polícia Federal, impondo restrições a liberdade de ação nas investigações praticadas pelos mesmos. Essa afirmação ” doa a quem doer” foi muito dita pelo COLLOR. Atenção para os pmdbistas com odor. Defendo a liberdade de opinião e liberdade de imprensa. Apoio a proposta ” o sul é o meu país”, e proponho o IMPEACHMENT JÁ da DILMA, antes da posse. Atenciosamente.

  3. Parreiras Rodrigues
    sábado, 8 de novembro de 2014 – 21:04 hs

    A estatura do PMDB hoje, é a de um anão mas há que se considera o nanismo humano como resultante de um processo genético, ao passo que o nanismo peemedebista é consequência da sua descaracterização como herdeiro de um partido que era motivo de orgulho para todos os que nele militavam, e que a gente carinhosamente chamava de Manda Brasa!
    O PMDB de Temmer é semelhante a feira do trem em Maceió.
    Quem conhece, sabe como funciona.

  4. FUI !!!
    domingo, 9 de novembro de 2014 – 4:53 hs

    O que é ser vice !? É ser igual ao Temer… Aspone (auxiliar de porra
    nenhuma).

  5. GAUCHO
    domingo, 9 de novembro de 2014 – 10:32 hs

    Pobre Presidente Dilma. As ameaças e chantagens já começam do seu vice presidente.

  6. domingo, 9 de novembro de 2014 – 17:23 hs

    Esse cidadão não passa de um ordinário certo ? Ganha pra não fazer nada correto?

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