Transmarina e a "zelite" | Fábio Campana

Transmarina e a “zelite”

Ruth de Aquino, ÉPOCA

Marina considera a “luta de classes” velha e ruim. Sua ideia de elite é outra. É quem inspira e lidera

“O problema do Brasil não é sua elite, mas a falta de elite. Não tenho preconceito contra a condição econômica e social de quem quer que seja. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de combater a elite. Essa visão tacanha de combater as pessoas com rótulo. Precisamos fazer o debate envolvendo ideias, empresários, trabalhadores, juventudes, empreendedores sociais. Com pessoas de bem de todos os setores, honestas e competentes.”

Essa resposta desconcertante de Marina Silva no debate da Band entre os candidatos à Presidência mostra que Dilma Rousseff e Aécio Neves terão de dar um duro danado para dinamitar – ou “desconstruir” – a rival.

O Brasil do PT tem reforçado o maniqueísmo entre pobres e ricos, ou “proletariado” e “burguesia”, expressões caras da esquerda caviar-champanhe. Como se os pobres fossem todos bons, puros, generosos e vítimas – e os ricos fossem todos safados, cruéis, desnaturados e bandidos. Em nosso país, quem ganha mais de seis salários mínimos é rico.

Nos últimos tempos, sobrou fel até para a classe média. Vimos com espanto o vídeo com o discurso histérico da filósofa da USP Marilena Chauí no ano passado. Era uma festa do PT para lançar o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. “Odeio a classe média”, afirmou Chauí, sob aplausos, risos e “u-hus” da plateia. “A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante. Petulante, arrogante, terrorista.” Presente no palco, Lula ria e aplaudia a companheira radical petista, embora dificilmente concordasse. “A classe média é uma abominação política porque é fascista. É uma abominação ética porque é violenta”, afirmou Chauí, fundadora do PT e adepta da luta de classes.

É uma luta que Marina considera antiquada e ruim para o país. Sua ideia de elite é outra: quem se sobressai no que faz, quem inspira e lidera. Neca Setubal, socióloga, educadora, autora de mais de dez livros, defensora do desenvolvimento sustentável e herdeira do banco Itaú, é o braço direito de Marina. Com seu discurso de união e um plano de governo de 244 páginas, costurado com Eduardo Campos, Marina ameaça tornar-se presidente do Brasil, segundo as pesquisas de intenção de voto.

Ela não passa de uma amadora, diz Aécio Neves. Marina responde: “Melhor ser amador do sonho que profissional das escolhas erradas”. Ela faz uma campanha da mentira, afirma Dilma. “Mentira”, responde Marina, “é dizer que os adversários não estão comprometidos com políticas sociais”.

Marina virou o sujeito da mudança. Colhe em sua rede indecisos, revoltados, idealistas, anarquistas e também aecistas e dilmistas. Isso não é elogio, só a constatação de um fato provado em pesquisas. Os “marineiros” são um caldeirão de eleitores de diversas ideologias, ou avessos a pregações ideológicas. Quando Marina diz que “a polarização PT-PSDB já deu o que tinha que dar”, ou que “o Brasil não precisa de um gerente, mas de um presidente com visão estratégica”, isso bate forte em milhões de brasileiros de todas as idades.

Marina não tem resposta para uma enormidade de questões – entre elas, como a “nova política” poderá ser diferente da “velha política”, se concessões e alianças são essenciais para aprovar reformas, governar o país e transformar em realidade seus sonhos. Marina tem convicções pessoais que precisará reavaliar ou abandonar se quiser mesmo colocar o país nos trilhos do futuro, abraçar as novas famílias e os estudos de células-tronco.

Mas seu discurso de grandes linhas, abstrato e utópico, empolga e atrai. Os adversários a ajudam. De um lado, temos o desfile chato, emburrado e claudicante de percentagens e estatísticas infladas. Do outro, um rosário sorridente de êxitos discutíveis em Minas Gerais.

Nos Estados Unidos, Barack Obama ganhou uma eleição no discurso, na oratória, no simbolismo – não no preparo ou na experiência administrativa. Guardadas as proporções, Marina busca o mesmo.

Nas redes sociais, a ascensão de Marina provocou uma campanha de ódio e ironias. Ela foi chamada de “segunda via do PSDB” – porque defendeu a estabilidade iniciada por Fernando Henrique Cardoso e porque os tucanos votariam nela, jamais em Dilma, num confronto direto. Chamaram Marina de “segunda via do PT” – porque defendeu a política de inclusão social de Lula. Traíra, oportunista e coisas piores. Fizeram uma montagem de seu rosto com o corpo nu da mulata Globeleza. Disseram que ela tem “cara de macaco”. Um show de racismo e de pânico.

Os arautos à esquerda e à direita a chamam de “novo Collor” ou de “Jânio de saias”. A Transmarina, ao acolher a “zelite” do bem, veio para confundir. E incendiar uma eleição antes morna, entediante e previsível.


4 comentários

  1. Vigilante do Portão
    domingo, 31 de agosto de 2014 – 15:46 hs

    Significa que a Marina vai defenestrar da campanha os MENTORES da negociata do Jatinho?

    Qual foi a PUNIÇÃO para os membros do Partido que NÃO VERIFICARAM A ORIGEM DO AVIÃO?
    E para os que não declararam a despesa na Prestação do TRE?

    Vai EXIGIR a prisão dos empresários que usaram LARANJAS para comprar o avião?

    Ela disse que só quer GENTE HONESTA.

    Quem usa LARANJA em negociata, não é honesto.

  2. domingo, 31 de agosto de 2014 – 16:19 hs

    Oi. Ameei seu post. Uma bela resposta para um outro do Rodrigo Constantino da Veja.
    Em matéria de ataques os “aecistas” se parecem muito com os petistas .Rudes, inventam qualquer coisa, desde que agridam.
    Costumo copiar alguns posts seus, mas coloco sempre o endereço do seu blog. Espero que não se importe. Obrigada

  3. Beatrix Kiddo
    domingo, 31 de agosto de 2014 – 21:34 hs

    Enquanto a candidata do “proletariado” condena a classe média, a candidata saída lá dos confins do Acre faz um agrado à classe espezinhada pela candidata do “proletariado”. Como pouquíssima gente gosta de ser mal tratada e ser chamada de estúpida, reacionária, ignorante, petulante, arrogante e terrorista, opta por quem não diz isto dela. Se a candidata está sendo sincera ou não, só o tempo dirá, até lá só nos resta aguardar.

  4. Doutor Prolegômeno
    segunda-feira, 1 de setembro de 2014 – 10:38 hs

    Das poucas coisas novas que ouvi nesta eleição. Pelo menos ela foge deste papo furado da esquerdopatia latrino-americana da “lutia de craçe”, da “esproração capitalista internacional” e outras imbecilidades, forjadas ao longo de 150 anos de besteirol socialista. É um tapa na cara e um chute no saco dos lulopetistas e dos tucanos de bico cor-de-rosa choque.

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