Os casamentos no zoo partidário | Fábio Campana

Os casamentos no
zoo partidário

Por Gaudêncio Torquato

Quem poderia imaginar uma serpente tornando-se amiga de um hamster, depois de recusar a comê-lo como refeição? Vivem juntos em um zoológico do Japão. E o bebê hipopótamo Owen, que vive ao lado de uma tartaruga de 130 anos, depois de emparelhados por um terremoto no Oceano Índico?

Situações fantásticas no mundo animal chamam a atenção pelo inusitado, a realidade inimaginável que junta, lado a lado, orangotangos com cachorros, estes com galinhas, estas com tigres, culminando com a curiosa história do tigrinho Dema, de 26 dias de idade, que só dorme ao lado de Irma, macaquinha de 5 meses, num hospital de bichos da Indonésia.

No mundo dos humanos, então, a fenomenologia no campo dos relacionamentos não fica atrás, plena que é de histórias bonitas e feias, trágicas e felizes ou, simplesmente, risíveis. Mas o que chama a atenção, em nosso clima lúdico de Copa do Mundo, é o casamento, mesmo provisório, dos bichos que povoam o território da política.

A expressão (bichos) do reino animal, usada de forma coloquial no mundo dos humanos, particularmente no tratamento entre amigos, cai bem nos partidos políticos tupiniquins. Descaracterizado de sua identidade, apartado de sua índole, identificado como o habitat de seres inodoros e insossos, o zoológico partidário brasileiro abre as portas para deixar ver a liturgia dos casamentos mais exóticos de sua população: cobra d’água com jacaré, elefante com zebra, chipanzé com urubu.

A verdade factual, para usar a expressão de Hannah Arendt, impõe-se sobre a verdade racional. Desnaturada de sua essência, a política ajusta-se ao figurino de alcançar “o poder pelo poder”, rompendo os eixos que a edificam como um empreendimento do bem comum, identificando-a como mero instrumento de preservação de forças entre parceiros. Nunca se viu uma colcha eleitoral com tantos retalhos como os de hoje, unindo nos Estados opostos no plano federal, formando alianças entre adversários que se fustigam mutuamente.


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