Morengueira no Planalto | Fábio Campana

Morengueira no Planalto

De Elio Gaspari, no O Globo

Em ano de campanha acontecem coisas estranhas. No lusco-fusco das festas de fim de ano acontecem coisas ainda mais estranhas. O repórter André Borges revelou que o Ministério dos Transportes alterou o edital do leilão de 2,1 mil linhas de ônibus interestaduais.

Na sua versão inicial, cada consórcio deveria ser liderado por empresas experimentadas no setor, podendo agregar fundos de investimento ou mesmo empresas estrangeiras. A mudança, permitida pelo Planalto, mudou a canção. Nela entrou o “Piston de Gafieira”, canção imortalizada pelo velho Moreira da Silva:

“Quem está fora não entra. Quem está dentro não sai.”

Engessaram o leilão, cristalizando o oligopólio do sistema de transportes interestaduais. Bloquearam a entrada de estrangeiros e impediram que o setor seja oxigenado por capitalizações do mercado financeiro (com suas auditorias).

Os transportecas justificam a mudança dizendo que ela privilegia as empresas com experiência. Nada mais verdadeiro. Em matéria de experiência, a crônica desse setor confunde-se com as trevas das concessões de serviços públicos. Em 1994, o deputado Camilo Cola, dono da Itapemirim, tinha um patrimônio de US$ 154 milhões e declarava R$ 10 mil de renda mensal.

Desde 1993, o governo promete leiloar as concessões de linhas de transportes interestaduais. Passaram-se 21 anos e nada. As empresas, felizes, rodam com autorizações especiais do governo. Vale lembrar que os concessionários de transportes públicos lidam com grandes pacotes de dinheiro vivo.


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