A busca do novo | Fábio Campana

A busca do novo

Merval Pereira em O Globo

O chamado Triângulo das Bermudas da política brasileira, formado pelos estados de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, reúne 42% do eleitorado nacional e, diante das mudanças na geografia política do Norte e do Nordeste, deve ser o centro das batalhas decisivas da eleição presidencial de 2014.

Minas e São Paulo têm forte predominância do PSDB estadual, mas o PT vem ganhando força em São Paulo, com a recente vitória para a prefeitura da capital que, paradoxalmente, pode mostrar-se uma fragilidade para a candidatura de Alexandre Padilha, com a administração criticada de Fernando Haddad até o momento.

No Rio e em São Paulo, a ex-senadora Marina Silva teve grandes votações em 2010, e pode atuar como ativa apoiadora de Eduardo Campos, no caso de vir a ser confirmada como sua candidata a vice.

Se em 2010 a presidente Dilma elegeu-se com uma votação espetacular no Norte e no Nordeste, onde tirou mais de 11 milhões de votos de diferença para o candidato tucano no segundo turno, este ano há alterações importantes que indicam que a votação naquelas regiões pode ser diluída entre os três principais adversários, mesmo que ela continue com vantagens.

Com a candidatura de Eduardo Campos pelo PSB, a oposição está mais forte no Nordeste, além de Pernambuco, enquanto o PSDB deve ter melhor desempenho na Bahia, devido à aliança com o DEM do prefeito de Salvador ACM Neto em aliança com o PMDB local, e no Amazonas, devido à liderança do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio.

Nesses estados, Dilma teve quase seis milhões de votos de diferença a seu favor, o que não deve acontecer este ano. Em Minas e em Pernambuco, o PSB e o PSDB já acertaram alianças com palanques duplos nos dois estados, o que retira a força da candidatura Dilma.

O Rio, onde a presidente teve uma vitória com 3,7 milhões (43,8%) no 1º turno, e 4,9 milhões (60,5%) no 2º, a situação continua sendo amplamente favorável ao governo federal, mesmo que o governador Sérgio Cabral esteja enfraquecido politicamente.

A reeleição de Dilma tende a ter o apoio não apenas do PMDB local como dos possíveis candidatos Garotinho, do PR, Marcelo Crivella do PRB, e do PT com o senador Lindbergh Farias. PSB e PSDB estão à procura de um candidato que represente o novo na política, na tentativa de explorar a grande rejeição que atinge todos os favoritos. O ex-prefeito Cesar Maia deve ser, como candidato do DEM, o único oposicionista com algum peso.

O senador Aécio Neves articula a candidatura do treinador da seleção brasileira de vôlei Bernardinho, dentro dessa tentativa de apresentar ao eleitor carioca uma alternativa nova. Ao mesmo tempo, coloca em sua balança a possibilidade de que um racha entre o PT e o PMDB de Cabral possa provocar uma dissidência informal que leve parte da máquina partidária a trabalhar em favor de sua candidatura.

O PSB tem em Marina Silva seu principal trunfo no Rio, onde ela obteve uma grande votação em 2010. Por isso, a candidatura própria é a alternativa, podendo optar pelo deputado federal Alfredo Sirkis, ex-PV que se filiou ao PSB, ou o ex-ministro da Cultura de Lula, Gilberto Gil.

O deputado federal Miro Teixeira, que esteve com Marina na formação do Rede Sustentabilidade e se filiou ao PROS, é uma alternativa tanto para o PSB quanto para o PSDB, mas ambos os partidos temem que compromissos do PROS com o governo federal impeçam uma aliança oposicionista. Miro Teixeira tem conseguido autonomia no estado para fazer alianças e se mantém como uma peça importante no xadrez político do Rio, com a simpatia de Marina.

Uma eventual candidatura do ministro Joaquim Barbosa a uma vaga para o Senado pode ser fator novo na disputa, influenciando a corrida pelo governo do Rio. Há pequenos partidos oferecendo legenda para o presidente do Supremo disputar o governo estadual, mas nada indica que esteja inclinado a mais essa aventura, como classificou o ex-presidente Fernando Henrique a possibilidade de Barbosa vir a ser candidato à Presidência da República.


Um comentário

  1. Vigilante do Portão
    domingo, 5 de janeiro de 2014 – 10:21 hs

    Não deixem de ler a coluna do Demétrio Magnoli, Folha, 04/01/14:

    1. As denúncias de Edward Snowden sobre a espionagem em massa das comunicações de cidadãos comuns deflagraram uma investigação oficial, que gerou um relatório de propostas de mudanças nos procedimentos da NSA. Faz sentido criminalizar o personagem que apontou as distorções, reconhecidas pelo próprio governo, de uma agência estatal descontrolada? Desejo que Obama anistie incondicionalmente o delator. Seria um sinal de vitalidade da democracia americana -e, de passagem, resgataria Snowden do abraço de urso de Putin.

    2. A “maior Copa de todos os tempos”, na frase de Dilma, é a Copa mais cara da história. A festa macabra da Fifa, bancada com dinheiro público, simboliza a inigualável soberba do lulismo. Que as pessoas voltem às ruas desde a hora do apito inicial e, no entorno das arenas bilionárias, até a cerimônia de encerramento, exponham ao mundo a desfaçatez dessa aliança profana entre os donos do negócio do futebol e os gerentes dos “negócios do Brasil”. Que a polícia trate com urbanidade os manifestantes -e com a dureza da lei os vândalos mascarados.

    3. Serra colou sua foto à de Lula na campanha presidencial de 2010 e tentou colar em todo o PT o rótulo infamante de quadrilha de corruptos nas eleições municipais de 2012. Que Aécio aprenda com tais precedentes a lição do que não se deve fazer. Oposição se faz com o bisturi afiado da crítica e com a bússola apontada para um rumo de mudança. Que o tucano combine radicalidade (de fundo) e civilidade (de forma).

    4. “Vemos as filhas do Bolsa Família serem mães do Bolsa Família. Vamos assistir a elas serem avós do Bolsa Família?” Eduardo Campos revela a ousadia dos estadistas quando, desafiando a geleia geral brasileira, indica os limites dos programas de transferência de renda. Que ele desenvolva esse tema difícil sob o fogo da propaganda eleitoral. Que estraçalhe o véu atrás do qual se esconde o deplorável conservadorismo de um governo devotado à reprodução infinita do círculo de ferro da pobreza e da dependência.

    5. Franklin Roosevelt governou por 12 anos, entre 1933 e 1945. Depois, para reforçar o princípio da alternância no poder, uma emenda constitucional impôs a regra de uma reeleição única. O provável triunfo de Dilma estenderia a presidência lulista a 16 anos, um intervalo longo o suficiente para converter um governo num regime. A eternização no poder de uma corrente política que tende a borrar as fronteiras entre Estado, governo e partido envenena as instituições democráticas. Nossa democracia não precisa de um Partido com inicial maiúscula. Que as urnas de outubro cortem o caminho do quarto mandato consecutivo do lulismo.

    6. Suzana Singer qualificou Reinaldo Azevedo como “um rottweiler”, dois dias depois da publicação do primeiro texto do novo colunista, que não continha nenhuma impropriedade, e revelou sua insatisfação com a chegada de outro colunista (este aqui), acusado do crime hediondo de ser um “crítico entusiasmado do PT”. Há algo de muito errado no cenário do debate público quando a ombudsman do maior jornal do país faz tabelinha com as correntes difamatórias da internet financiadas pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Que Suzana recupere o prumo e a compostura.

    7. Um relatório judicial entregue ao STF revelou que 59 presos foram assassinados na cadeia de Pedrinhas (MA), onde a tortura e o abuso sexual entre prisioneiros fazem parte do cotidiano. Nas cadeias do país, 500 mil presos amontoam-se em 300 mil vagas. Durante o julgamento do “mensalão”, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo crismou o sistema carcerário brasileiro como “medieval”, uma incrível descoberta propiciada pelo espectro da condenação definitiva de seus companheiros petistas. Que, 12 anos depois da ascensão de seu partido ao poder, Cardozo supere o hiato entre a palavra e a ação.

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