Sinto muito, mas este não é um país sério | Fábio Campana

Sinto muito, mas este não é um país sério

Por Ricardo Noblat

Se tratássemos a política com seriedade não haveria espaço para que partidos empenhados em eleger o mesmo candidato a presidente da República pudessem ser adversários na hora de eleger governadores, deputados federais e estaduais.

O presidente interino do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), informou à direção nacional do PT que seu partido apoiará Eduardo Campos contra Dilma em Pernambuco e no Piauí. E que em nove estados o PMDB será adversário do PT nas eleições para os governos estaduais.

Dos nove, três fazem parte da lista dos maiores colégios eleitores do país – São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O provável candidato do PMDB ao governo baiano é Geddel Vieira Lima, atual diretor da Caixa Econômica Federal, nomeado por Dilma.

Tudo muito coerente – não lhe parece?

A história das eleições entre nós é a história das mudanças nas regras eleitores. Rara a vez que houve eleição sem que antes se mudasse as regras – ou alguma regra. Beneficia-se o partido ou coligação de partidos com mais força na ocasião.

Jamais esteve entre os costumes nacionais, por exemplo, a reeleição de presidente, governador e prefeito. Em época alguma da História. E se desconhece qualquer corrente de opinião que tenha batalhado pela reeleição.

Uma vez no poder, o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) quis ficar mais quatro anos. Como os partidos que o sustentavam tinham maioria no Congresso, sua vontade foi feita.

O que está na raiz das alianças partidárias nada tem a ver com ideologia, princípios, valores, o bem estar da população – nada. Monta-se alianças pensando acima de tudo no tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Partidos com gordas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado dispõem de tempo de propaganda maior. São os mais ambicionados parceiros.

Mas deu-se também um jeito na lei para que eles possam negociar seu tempo de propaganda na eleição presidencial sem comprometer seu tempo de propaganda na eleição estadual.

Assim, parlamentares de diversos partidos confraternizam no palanque presidencial, fazem juras de amor eterno, prometem o impossível ao distinto público. Para no dia seguinte se exibirem em palanques diferentes, com candidatos diferentes aos governos, dizendo o diabo dos aliados da véspera.


5 comentários

  1. Irineu
    quarta-feira, 16 de outubro de 2013 – 19:34 hs

    Literalmente o político nato em prol de sua ambição, na maioria das vezes cospe no prato e morde a mão de quem o alimenta.

  2. Jake
    quarta-feira, 16 de outubro de 2013 – 20:11 hs

    O país não é sério, por conta e obra de nossos queridos e eficientes políticos. Vide a política local. Portanto, ao votar, esqueça os partidos e tente encontrar uma pessoa que valha a pena. Vamos aposentar, nas urnas, esses políticos com essa velha prática.

  3. antonio carlos
    quarta-feira, 16 de outubro de 2013 – 20:13 hs

    Para entender a politica brasileira o cara precisa ser meio místico, acreditar nas forças do além, em ETs, em duendes e em fadas. Como é que eu posso apoiar a companheira presidenta, por exemplo, aqui na província e em Santa Catarina não? É deste jeito que o velho de guerra diz que vai fazer, apoia em um estado e no estado vizinho não. Se isto não é coisa de louco, então não sei mais o que é loucura.

  4. Parreiras Rodrigues
    quinta-feira, 17 de outubro de 2013 – 10:43 hs

    O Brasil não é um país sério, é frase do embaixador brasileiro em França, Carlos Alves de Souza Filho, que a disse em 1962, durante a guerra da lagosta. Li isso na GP. Atribuiram-na ao então presidente, o general De Gaulle: Le Brazil n´est pas un paiz serieux.

  5. sandra arendt
    quinta-feira, 17 de outubro de 2013 – 11:57 hs

    Artigo de excelente e verdadeiro conteúdo! Como mudar este quadro, se uma grande maioria de eleitores ainda etá condicionado a conquista de benefícios individuais e temporários como as “ad eternas bolsas paternalistas”só para dar exemplo? A população “normal”, que é a maioria, está tão focada nas lutas do dia-a-dia, em prover as necessidades básicas de sua família, passando grande parte do dia no expediente laboral e outra parte tentando repousar o corpo das lidas diárias, administrando ainda tempo entre a supervisão da própria vida familiar e o pouco tempo de lazer que resta. Assim, para conseguir se atualizar, se envolver, opinar e fazer valer sua presença, vontade e necessidade como deveria nas “questões públicas” é obrigado a se abdicar do pouco tempo que tem para o descanso e lazer. Resultado: com tantas responsabilidades, a maioria envolvendo a administração do orçamento para custear estudo, saúde e moradia, enfim uma vida mais digna para sua família, deixa o barco correr, até onde suporta! O desafio entâo, é justamente encontrar os meios para uma participação efetiva visando uma mudança no estado da situação atual. Como é um sujeito “normal” (não é do meio político), isso demanda um conhecimento, no mínimo básico, de como as coisas funcionam, o que por sua vez demanda um tempo que o sujeito não tem. Neste contexto, não é difícil entender como atingimos esse lamentável patamar no tocante a política brasileira, que hoje limita seu foco a acertos, conchavos, manutenção de um poder arassador do interesse público, enfim, um “Inferno de Dante” em pleno solo brasileiro, cercado de vaidades e interesses individuais por todos os lados.

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