Nós, um país de otários, por J. R. Guzzo | Fábio Campana

Nós, um país de otários, por J. R. Guzzo

J. R. Guzzo publicou artigo na edição impressa de VEJA que merece ser lido para renovar a reflexão sobre um país em que somos todos ludibriados, ingênuos, trapaceados, levados na conversa por palavrório de palanque e por aí vai. É o que segue:

CLIENTELA IDEAL

O Brasil, como bem sabem os estudiosos da língua portuguesa tal como ela é falada por aqui, é o maior importador mundial de palavras argentinas. Não espanholas, como a conhecida caramba, por exemplo – argentinas mesmo, ou, mais precisamente, portenhas, vindas diretamente das calçadas mais pobres de Buenos Aires para o cais do Porto de Santos e a Praça Mauá, no Rio de Janeiro, de onde transbordaram para o Brasil todo ao longo dos anos.

Essas palavras e expressões vêm do lunfardo, ou “lunfa”, linguajar obscuro, enigmático e com vocabulário descolado do castelhano oficial da Real Academia Española; a maior parte dele pouco ou nada significa na Espanha, no México ou no Peru. Não chega a ser um idioma, mas é bem mais que uma gíria; aparentemente surgiu no fim do século XIX como meio de comunicação entre presidiários, criminosos em geral, proxenetas, vigaristas, batedores de carteira, vadios e outros malvivientes do submundo de Buenos Aires.

Dali se incorporou ao falar da rua, nos bairros pobres dos quais La Boca é o símbolo mais conhecido dos brasileiros, e logo em seguida às letras de tango – das quais, enfim, passou para o mundo.

Ou melhor: para o Brasil. O resto do mundo pode repetir palavras cantadas por Gardel, mas não as utiliza na sua linguagem corrente. Aqui, porém, entraram com todo o gás, e há décadas fazem parte do dia a dia do português falado pelos brasileiros.

A lista não acaba mais: otário, afanar, engrupir, embromar, cambalacho, bacana, bronca, fajuto, punguista, fuleiro, grana, gaita, escracho, cana, tira, lábia, patota, cabreiro, pirado, campana, mina (não no sentido geo­lógico), barra-pesada, e por aí se vai.

Haveria, na preferência nacional pela importação de palavras com esse tipo de significado, entre tantas outras que o lunfardo oferece, alguma atração especial da alma brasileira pela linguagem da marginalidade?

É coisa para os profissionais do ramo responderem, mas certas realidades não se podem negar: feitas todas as contas, a palavra argentina que teve mais sucesso no Brasil, do seu desembarque até o dia de hoje, é “otário”. Amamos essa palavra. Quer dizer: amamos essa palavra quando ela é aplicada aos outros ou, mais exatamente, quando não é aplicada a nós. Vale, então, como uma espécie de certidão negativa, que nos absolve de tudo aquilo que não queremos ser – bobos, enganados, passados para trás.

No Rio de Janeiro, especialmente, é coisa muito séria, do milionário ao engraxate, manter durante a vida uma reputação de não otário. Vale para o Brasil todo, é claro – ser chamado de otário, em qualquer ponto do território nacional, é ofensa grave. Mas no Rio, por alguma razão que é melhor deixar para a apreciação dos mestres em psicologia social, é insulto maior ainda – assim como é um orgulho, assumido ou disfarçado, considerar-se portador da imagem oposta, a do “malandro”.

Depende, naturalmente, da circunstância e do jeito com que a palavra é usada, mas é frequente que o indivíduo classificado como malandro sinta que recebeu um elogio. Vale como um genérico para todo tipo de avaliação positiva: ser tido como malandro é ser tido como inteligente, esperto, habilidoso, experiente, prático, capaz de cuidar de si mesmo, vacinado contra a suprema humilhação de “ficar no prejuízo”.

É comum, no Rio, o sujeito trabalhar de sol a sol, cozinhando no meio de um calor de 40 graus na operação de uma britadeira de rua ou na direção de um ônibus urbano, ganhando uma mixaria e sendo barrado na entrada de tudo aquilo que se considera “vantagens da vida”.

Ao mesmo tempo, sabe que é roubado todos os dias, que o governador do Estado usa helicópteros oficiais, mantidos à sua custa, para transportar seu cachorrinho de estimação entre o Rio e Mangaratiba, e que a casa onde mora pode vir abaixo nas próximas chuvas de verão. Não importa: ele vai morrer achando que foi um grande malandro, e que otários são os outros.

É uma situação de sonho para governantes, vendedores de ilusões e vigaristas de todas as especialidades; têm à sua disposição, sempre, uma clientela que é tola o suficiente para achar que não é tola nunca. O Brasil da esperteza, onde se cultua a “malandragem” em tudo, é, na verdade, um dos países mais crédulos do mundo.

Há poucos, do seu porte, com tantos ludibriados, ingênuos, trapaceados, compradores de mercadoria falsa vendida pela marquetagem política, levados na conversa por palavrório de palanque, prontos a acreditar em farsantes notórios – enfim, e com o perdão da palavra, com tantos otários.


15 comentários

  1. domingo, 20 de outubro de 2013 – 16:08 hs

    Guzzo,o otario-mor,pois se achando tao inteligente,porque nunca fez nada para que o Brasil mudasse?

  2. Sergio Silvestre
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 16:13 hs

    Que somos Otários estou careca de saber,pois aqui todo mundo se acha o maximo ,mas na verdade somos os bobos da corte do mundo.
    Lia de vez em quando artigos de um destes otários que era o Diogo Mainard.
    Seria ele um destes tipos de loque que habita o Brasil mas gosta dos franceses ,ingleses e americanos.
    Os otários do Brasil são aqueles que são levados na conversa por blogueiros,jornais ,revistas e redes de tvs que aliena os pseudos burros que proliferam abundantemente em nosso pais.
    Olha só a coincidencia da burrice das nossas elites.
    Foi preciso um semi analfabeto ser o presidente do Pais para concertar tudo de ruim que fizeram.
    Veja o caso do clube curitibano onde curraram uma moça e ela aceitando por 40 rapazes.
    Se fosse no funk do Arlindão dava camburão e muito falatório dos operadores de microfone,que cá entre nós fazem parte desta casta de otários uteis.
    Somos o Pais dos otários onde 27 deputados escolhem por meio de maracutaia um conselheiro que vai fiscalizar seus beneplácitos e que seu pai trocou por favores com o governo.
    Somos otários sim,porque se fosse no Irã ou qualquer outro pais serio,o que ia ter de conselheiro,deputado e megistrado maneta ia ser uma festa.

  3. matahari
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 17:13 hs

    O Lobão disse que o leilão de Libra, sai de qualquer jeito. Tentarão fazê-lo antes do julgamento da Ação Popular. O que fazer com esses canalhas? Onde estão as Forças Armadas? Ela não tem a missão de proteger a ” Pátria Amada”? Então isso não é um atentado contra essa Pátria? Deveriam meter os tanques nas ruas e acabar com essa bandalheira, já que, nossa Justiça não esta servindo para nada. Primeiro o Lula, depois a Dilma e em seguida o bicho que queria comer a vovozinha. Já aproveitariam e engaiolariam os mensaleiros. Eles que fossem reclamar para o Papa. Só assim nos livraríamos dessa quadrilha, que assaltou a Republica e a “Res Publica”… Ou fazem isso ou o sangue de jovens mancharão as ruas e, serão eles os responsáveis por ficarem olhando a “banda passar”.

  4. "SIGAM O DINHEIRO"
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 17:42 hs

    Alguém já disse algo muito simples e eficaz, a ser feito por quem quer realmente descobrir e responsabilizar os verdadeiros tubarões que roubam o dinheiro nas instituições: siga o dinheiro.
    Se não total e exemplarmente resolvidos como deveria mas pelo menos isto colocaria a cara dos safados na grande mídia.
    Exemplos não faltam de casos em que isto poderia ser feito em Curitiba, no Paraná e no Brasil. Não precisa apontar os “contratos” os “acertos” e trocas de favores escandalosos. Os jornais falam deles todos os dias. Eliana Calmon e Guilherme Luiz Gomes poderão vir a ser o que tanta falta nos faz. Há esperança.
    Clovis Pena

  5. verdade
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 21:50 hs

    Revista Veja! Não dah para ler…

  6. antonio carlos
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 22:38 hs

    Otário é o vizinho, o cunhado e aquele mala sem alçada do meu sogro. Eu não, nunca fui otário, nunca levei chapéu de ninguém, sempre dei um nó no Leão, porque eu sou esperto. E assim pensando acordo e vou dormir, pensando que otários são os outros.

  7. zangado
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 23:01 hs

    Guzzo disse tudo.

    A virtualidade dos governos e governantes – em todos os quadrantes do país – faz-nos todos um país de otários.

    Somos todos inconscientes de que divulgando essas virtualidades – sem justo senso crítico – estamos contribuindo para este quadro de faz-de-conta nacional, enquanto a situação do país e a qualidade de vida da sociedade não melhora e o dinheiro público é aplicado nos objetivos personalíssimos daqueles que querem se perpetuar no poder a todo o custo.

    Até quando faremos parte desse coro dantesco de mediocridade e irresponsabilidade ???

  8. zangado
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 23:06 hs

    Fabio – parabenizo-o por dar a publico este artigo de Guzzo.

    Como o beija-flor que no incêndio da floresta fazia sua pequena contribuição pode ser que numa dessas você esteja fazendo a diferença que falta entre continuarmos nesse descalabro público dos poderes públicos estadual e tomarmos um outro rumo, reagindo contra este estado de coisas.

    Que assim seja.

  9. zangado
    domingo, 20 de outubro de 2013 – 23:20 hs

    Mais uma só: não precisamos do lunfardo argentino.

    Não foi um nosso ex-presidente que convencionou tudo isso nunca antes no país como “maracutaia”?

    À colação o depoimento de filólogo Antonio Houaiss: “Maracutaia” já está há muito tempo, porque ela passou a ter curso geral. Ela foi, parece, ressuscitada e ainda até hoje não cheguei a uma etimologia, porque as versões no Nordeste são as mais variadas possíveis. Ela é muito provavelmente um tupinismo ou eventualmente um carirismo, da área do Cariri, não se sabe. [risos]

  10. Valdecir
    segunda-feira, 21 de outubro de 2013 – 6:44 hs

    Texto sensato e que descreve bem a realidade tupiniquim. Brasil, um país de otários.

  11. PR
    segunda-feira, 21 de outubro de 2013 – 18:06 hs

    É mais o otários mais cedo ou mais tarde acaba aprendendo a ficar esperto. É o que a prática mostra, a sacola de truques dos nossos engravatados malandros está se esgotando. Malandro demais se atrapalha é o que diz o ditado. Nosso recibo de otário já está vencido.

  12. Waldecy Antonio Simões
    sexta-feira, 17 de janeiro de 2014 – 6:51 hs

    O que mais se comenta no Brasil é a extensa corrupção nos três poderes, mas há uma solução lógica e definitiva para acabar com a corrupção nos governos.
    Como acabar com a corrupção governamental em todos os setores?
    A solução é muito fácil, o difícil será a sua aceitação. Será fácil a implantação técnica de funcionamento do sistema a ser implantado, pois sua base se funcionamento será a Internet, mas a grande dificuldade se dará pela rejeição dos poderes, pois tal solução acabaria com a mamata geral nas “tetas dos governos”, que vem lesando o Erário em números altamente nocivos à sociedade. Mas fica aí a dica da solução, chamada de PREÇO TETO. Para acabar com a corrupção no Brasil, em todos os níveis de governos, basta que a Presidente Dilma promulgue um decreto presidencial, (logicamente apoiado, depois, pelos poderes legislativos) regido nos presentes termos:
    A partir da publicação desse decreto, inserido no Diário Oficial, em todas as licitações e em todas as compras, seja no valor de um real até ao infinito, têm de obedecer aos valores constantes na tabela chamada de PREÇO TETO publicada na Internet, no site governamental http://www.precoteto.org.br. Os preços da tabela PREÇO TETO serão atualizados diariamente por técnicos e auditores, obedecendo aos parâmetros de preços nacionais e internacionais em seus níveis mais econômicos, tanto em compras quanto em serviços. A partir de hoje, todas as compras e serviços, como também todas as licitações terão de obedecer aos valores máximos do PREÇO TETO. Nenhuma licitação poderá ser acatada oficialmente se qualquer item de preço, de serviços ou de materiais ultrapassar em um centavo os valores do PREÇO TETO.
    Os valores de serviços, de materiais ou de qualquer tipo contratação de empresas ou de mão de obra terão de se submeter aos valores do PREÇO TETO.
    O responsável (ou responsáveis) por qualquer contrato firmado com empresas, tanto por parte da União, como dos Estados e municípios que desobedecer aos valores constantes do PREÇO TETO, assim como qualquer outra forma de corrupção, terão julgamento sumário com pena de reclusão de 10 anos integrais, e seus bens bloqueados para ressarcimento ao Erário.
    Por esse decreto, qualquer empresa ou pessoa que usar os tais “laranjas” para lavagem de dinheiro, todo e qualquer valor ou patrimônio dessa mazela serão sumariamente tomados a favor do Erário. Da mesma forma, qualquer pessoa que aceitar que bens e patrimônios sejam colocados em seu nome, como também qualquer um que se negar a apontar o verdadeiro dono de tais valores ou patrimônios em seu nome, será julgada sumariamente com pena de 10 anos de reclusão.
    Qualquer entidade ou cidadão poderá fiscalizar os valores de preços diários constantes na tabela PREÇO TETO, indicando possíveis discrepâncias.
    Basta VONTADE, pois a implantação do PREÇO TETO é fácil e se colocada em prática resultarão em imensos benefícios à Nação e a toda a população do Brasil.
    W. A. Simões netsimoes@terra.com.br
    Obrigado

  13. Ingrid de Souza e Silva
    terça-feira, 28 de janeiro de 2014 – 10:54 hs

    Ideal é a colocação de Waldecy, acima, sobre a possível criação do PREÇO TETO no Brasil para acabar com a maior parte da corrupção nos três poderes. Acrescento, ainda que nesse site a ser criado, sugerido por ele, se registrem a prestação de contas de todas as obras e serviços contratados e seu andamento, e ainda para onde irão, de fato, materiais comprados, pois o desperdício é enorme.

    É claro que esse site governamental, se criado, terá de ser fiscalizado pelo povo. O povo não é tolo, mas o problema é que pelo sistema de hoje, funciona como se ele tivesse as mãos atadas.
    Obrigado

  14. Clara
    sábado, 15 de abril de 2017 – 13:28 hs

    Sim certissimo. So li este artigo agora e esta mais do que provado agora em 2017 que o Sr Guzzo esta corretissimo

  15. FRANCISCO LUIS JORDÃO
    sexta-feira, 1 de dezembro de 2017 – 22:10 hs

    Bravo ! Que agradável surpresa. Já havia lido na época da publicação e gostado e agora aparece por acaso. Guzzo é sempre atual.

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