Contra a miséria | Fábio Campana

Contra a miséria

Paulo Guedes, O Globo

O programa federal de transferência de renda Bolsa Família vai completar uma década de existência. São 13,8 milhões de famílias — 50 milhões de brasileiros pobres — recebendo em torno de 25 bilhões de reais em 2013.

“As vantagens desse tipo de programa são claras. As transferências são direcionadas especificamente ao alívio da pobreza. E ajudam os indivíduos sob a forma mais útil: em dinheiro”, registrava em “Capitalismo e liberdade” (1962) o liberal Milton Friedman.

A solidariedade tornou-se a principal bandeira dos socialistas. Mas as tecnologias mais eficazes para sua execução muito se beneficiariam da análise de simpatizantes liberais.

O historiador Georges Lefebvre, socialista “jacobino”, considerava “O Antigo Regime e a Revolução”, do liberal Alexis de Tocqueville, “o mais belo livro sobre a Revolução Francesa”.

Em seu clássico “1789”, Lefebvre descreve o surgimento do compromisso moderno com a “equidade” em quatro grandes ondas: a “revolução aristocrática”, que desestabiliza o absolutismo real; a “revolução burguesa”, que funda a nova ordem jurídica; a “revolução popular”, que consolida o processo; e a “revolução camponesa”, que o dissemina nacionalmente.

A popularidade dos social-democratas deveu-se exatamente a seu quase monopólio político da solidariedade. Secularizaram a bandeira das grandes religiões, conquistando corações ansiosos de massas desinformadas. Mas a solidariedade é traço humano milenar. Existiu bem antes do socialismo e das religiões.

“Nossos ancestrais sustentaram indivíduos que não podiam contribuir ao grupo. A sobrevivência dos mais frágeis tem sido registrada por paleontólogos como marcos evolucionários de empatia e compaixão. Tais legados sugerem que a moralidade precede civilizações e religiões em pelo menos 100 mil anos. Mesmo nossa família dos quatro grandes primatas — chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos — exibe demonstrações incontestáveis de solidariedade”, registra o biólogo Frans de Waal, em “O bonobo e o ateu: em busca do humanismo entre os primatas” (2013).

Programas de transferência de renda em uma Grande Sociedade Aberta expressam nosso compromisso humanista com a solidariedade. O grande desafio é aumentar sua eficácia e reduzir o desperdício com a intermediação da classe política.

Paulo Guedes é economista.


6 comentários

  1. Silvania
    segunda-feira, 6 de maio de 2013 – 23:26 hs

    Já, já, a Dilma vai trazer o MALUF para um ministério.

  2. terça-feira, 7 de maio de 2013 – 6:09 hs

    O bolsa familia completa 10 anos ajudando 13,8 milhoes de familias ou 5o milhoes de individuos com 25 bilhoes de reais tirados dos nossos bolsos. Pergunto: nestes 10 anos as familias/individuos ajudados sao os mesmos? Quantos percentualmente agradeceram a ajuda e hoje são autossuficientes? Se o percentual do 50 milhoes continuam os mesmos com poucas variações algo esta errado. Se esses individuos se encostaram no bolsa familia para não trabalhar algo precisa ser feito ou sera que esses são votos perpetuos no PT? Hoje nos somos quantos? Talvez 200 milhoes no Brasil e sustentamos 50 milhoes? Que país miseravel o nosso!!!!

  3. VISIONÁRIO
    terça-feira, 7 de maio de 2013 – 6:18 hs

    Na verdade existe um equívoco a respeito deste tipo de assistencia-
    lismo colocado em prática pelo PT. As diversas “bolsas” distribuidas
    pelo governo cria um núcleo de acomodação da pobreza porque não
    existe um controle efetivo dos resultados, a não ser eleitoreiro.
    O investimento maciço destes valores estratosféricos são necessá-
    rios em saúde e escola principalmente. Caso contrário teremos um
    povão sem saúde e de barriga cheia.
    Não dê o peixe, ensine a pescar…

  4. jobalo
    terça-feira, 7 de maio de 2013 – 10:28 hs

    Alguem deve estar com obstrução de memória, pois o bolsa familia (com nome novo), começou com Bétinho e D. Rute Cardoso, no Governo FHC. Só que os oportunistas de plantão (Petralhada) souberam aproveitar e isso eles são catedráticos e aumentaram as verbas pois não é deles, e o reto a midia fêz.

  5. WHA?
    terça-feira, 7 de maio de 2013 – 13:26 hs

    Eu entendi direito? O economista sugere privatizar o bolsa família?

  6. Mr.Scrooge
    terça-feira, 7 de maio de 2013 – 20:44 hs

    O problema de continuar insistindo em dar o peixe e não ensinar a pescar, é que o tempo passa e o cara não aprende a pescar nunca. Quando a ajuda se transforma em esmola, ela corrompe a dignidade do ajudado.

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