Polaco oco ou Rascunho casmurro, por Domingos Pellegrini | Fábio Campana

Polaco oco ou Rascunho casmurro, por Domingos Pellegrini

Aroldo Murá publicou texto do escritor Domingos Pellegrini que saiu em defesa de Paulo Leminski diante das agressões do jornal Rascunho. O texto, inteligente e necessário, é o que segue:

A DESPEITO DE LEMINSKI: POLACO OCO OU RASCUNHO CASMURRO?

“Rascunho teve época nazista, com matérias que não se limitavam a comentar autores, queriam sua eliminação, como quando estampou em título garrafal: Sebastião Uchoa Leite insiste em fazer poesia: PARA COM ISSO, SEBASTIÃO! Rejeitado pela reação ética de muitos leitores, Rascunho passou a limpo essa fase, mas agora tem recaída (embora precavida porque rescaldado) com a matéria sobre Leminski.

A tentativa de “matar” Leminski tem a precaução de se armar com uma análise argumentativa e digna de Marcos Pasche, revestida, porém por um tratamento editorial raivoso e despeitado. Na capa do jornal, em vez de foto do autor (como é regra do jornal), uma ilustração bisonha e um título trocadilhesco que, no afã de depreciar Leminski, deprecia o jornal: POLACO OCO. Nas páginas centrais, um título raivoso e grotesco como a ilustração que estampa: Sobraram apenas os óculos e o bigode.

Acrescente-se que sobraram também os milhares de leitores que já sabiam de cor poemas de Leminski, aos quais agora vão se somando outros milhares. O título original de Pasche decerto foi transformado em subtítulo: Toda poesia de Paulo Leminski revela uma obra datada, vazia e repetitiva. Rascunho manipulou a edição do artigo de forma a “matar” toda a obra de Leminski, enquanto o próprio articulista ressalva que sua poesia tem “brilhantes lances de criatividade”.

Cheguei a sugerir a Alice Ruiz que a poesia de Leminski, dispersa e em edições esgotadas, precisava de uma antologia, pois temia que a publicação de sua poesia integral pudesse resultar num livro de preço distante da moçada leitora. Mas a obra saiu compactada com bom preço e, assim, os leitores podem ter visão geral e suas próprias preferências, apesar das muitas baixices e inocuidades do poeta. Como, porém, seus leitores são afetivos e argutos como Leminski foi, isso não o matará, ao contrário. Ele não se queria Deus perfeito, embora, sim, se dedicasse espertamente a criar a imagem de um “pop star literário” (o que não é crime nem é antiético).

É engraçado (ou é desgraçante) que os mesmos que reclamam da literatura não ter mais leitores, não suportam quando algum autor faz sucesso, como aliás detestam os livros de autoajuda que, porém, sustentam a indústria editorial, até para que possa também publicar livros outros.

Esperemos que, na onda (que bela onda, Paulo, nós que te amamos estamos tão felizes por você) na onda do sucesso de Toda Poesia venham também a antologia, e a reedição de VIDA, contendo as biografias de Jesus, Basho, Cruz e Sousa e Trotsky, primorosas pela agudeza amorosa com que foram escritas.

Leminski trouxe à poesia um frescor jovem, uma feição pop, uma aura cult, e, principalmente, uma atitude de vida, que vão continuar encantando os leitores de mente clara e coração aberto. Não será com dois títulos casmurros que matarão Leminski, embora ele esteja morrendo de rir.”


4 comentários

  1. Denise
    domingo, 14 de abril de 2013 – 18:57 hs

    Jornalzinho de meia pataca e exclusivo na biblioteca pública do paraná. Asim mesmo bpp. Em minúsculo como convém a péssima gestão por lá. Financiado pela Gazeta. Rotuladores. Invejosos do brilhantismo de Leminski. Ocos são os que estão a frente da Sec de Estado da Cultura.

  2. antonio macieira
    domingo, 14 de abril de 2013 – 20:44 hs

    Não quero pessoalizar no diretor do Rascunho pessoa física. Ele não é importante.Mas encaro com seriedade o fato de um assunto polêmico, em texto idem, não ter, pelo menos, uma opinião contraditória. Mesmo porque o vulto nacional do Leminski – está na terceira posição de vendas da semana, na FSP e acho que em Veja também ganha direito a um espaço no jornal que pretende ser importante na resenha literária.

  3. laura
    segunda-feira, 15 de abril de 2013 – 8:46 hs

    tem gente de 50 anos que não entende de diversidade de opiniões. a minha é idêntica à do crítico do rascunho, leminski é uma fraude. só suas viúvas ainda idolatram

  4. sexta-feira, 19 de abril de 2013 – 10:16 hs

    Inacreditável.
    Fosse na época do Leminski poderíamos acreditar que era falta de novidade, ignorância ao ainda desconhecido, choque cultural.
    Pós toda a referência e herança cultural deixada pelo Leminski, despeito é a palavra mais suave para descrever a inveja demonstrada pelos que não possuem o dom de criar e recriar e dar a cara a bater quando pare… O novo e eterno.

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