Os riscos de insistir no consumismo, por Raul Velloso | Fábio Campana

Os riscos de insistir no consumismo, por Raul Velloso

De Raul Velloso, O Globo:

A difícil situação econômica que o País vive atualmente tem pouco a ver com a crise externa e mais com as dificuldades para lidar com os desdobramentos do modelo pró-consumo posto em prática nos últimos tempos, sem falar na volta a erros do passado.

Impulsionado, a partir do destravamento da economia em 2003, pelo forte crescimento da demanda de consumo, o crescimento da demanda agregada se espalharia pela economia e mostraria resultados divergentes, em grande medida inevitáveis, nos setores básicos: serviços e indústria de transformação. Sem prejudicar o raciocínio geral, deixo de lado o setor de commodities, que é voltado basicamente para o exterior e é por ele guiado.

Já o de serviços, que responde por quase 70% da economia, basicamente não importa do exterior, sua produção teria necessariamente de crescer acima da dos demais. Sem a velha restrição de divisas, a Indústria tenderia a desempenhar o papel de importador estratégico, ou de ter sua produção crescendo a uma menor velocidade, liberando recursos — capital e mão de obra — para a expansão de Serviços.

A hipótese de o País absorver maior volume de poupança externa não mudaria esse quadro, quando se considera que ela só consegue ser materializada em investimento físico mediante aumento do déficit externo, vale dizer das importações. Ou seja, maior ingresso de poupança externa é mais uma razão para aumentar as importações industriais.

O mecanismo de formação de preços dá vida a esse processo, pois os preços de Serviços, que se determinam pelo cruzamento de curvas convencionais de oferta e demanda internas, tendem a subir mais que os da Indústria, puxando o aumento de salários. Na Indústria, em contraste, a oferta é uma linha reta horizontal determinada fora do País, com tendência a se deslocar permanentemente para baixo, pelo efeito Ásia.

Os preços relativos sobem em favor de Serviços, porque ali a oferta é bem mais rígida, inclusive pela forte presença/interferência do governo nesse setor, que não tem recursos para investir e hesita em abrir espaço para o setor privado fazê-lo. Na indústria, a oferta é bem mais flexível. Ali o mundo é o limite.

A indústria tem de pagar os mesmos salários mais altos que Serviços paga, e enfrentar uma receita unitária medida em dólares tendendo a cair. A consequência óbvia é o menor crescimento da produção industrial, exceto nos segmentos em que, nesse processo todo, haja aumento de produtividade capaz de compensar os demais efeitos desfavoráveis que afetam esse setor. Como consequência, ocorreria aumento das importações da indústria, a fim de atender ao crescimento da demanda.

Mesmo que o País não fosse inundado por dólares devido ao aumento dos preços de commodities e ao forte ingresso de capitais, esse movimento de preços relativos corresponderia a uma apreciação real da moeda, necessária para realizar todas as movimentações derivadas do modelo de baixa poupança ou alto consumo em vigor. Como ser contra isso?

Leia mais em Os riscos de insistir no consumismo

Raul Velloso é economista.


10 comentários

  1. orlando
    segunda-feira, 8 de abril de 2013 – 18:55 hs

    Hoje o país é rico, tem reservas suficiente para manter a turma no poder por pelo menos mais seis anos. Depois o povo brasileiro que se dane, eles terão garantido o futuro de seus descendentes até quarta ou quinta geração.

  2. salete cesconeto de arruda
    segunda-feira, 8 de abril de 2013 – 19:32 hs

    … e por isso DILMA tem mais de 90% de apoio.
    Deve ser triste para essa gente ver um POVO CONSUMINDO!
    VIVA A BLOGOSFERA!
    A gente vivendo eles sofrendo!

  3. Parreiras Rodrigues
    segunda-feira, 8 de abril de 2013 – 21:32 hs

    U’a ameba caduca pensa melhor.
    Nas escolas, os professores alertam os seus alunos sobre os danos do consumismo excessivo e inconsequente à vida do planeta.
    Os gestores municipais quebram suas cabeças para resolver o problema do lixo.
    E que consumo é esse que se sustenta em cima do crédito arreganhado?

  4. Nelson
    segunda-feira, 8 de abril de 2013 – 21:37 hs

    A conta está chegando, quem vai paga-la?

  5. Max
    segunda-feira, 8 de abril de 2013 – 22:10 hs

    Excelente texto, preciso e verdadeiro , pena que POUCOS ENTENDEM.
    Em suma , se continuarmos com esse DESGOVERNO, estaremos f…… e mal pagos

    ” o governo está também mudando o Brasil” , para pior

    …”E COISA DO PT “……….

  6. sergio silvestre
    segunda-feira, 8 de abril de 2013 – 22:51 hs

    Tem de tomar cuidado que vão tentar desestabilizar este governo.
    Banqueiros e grandes empresários não gostam do Pt nem distribuir renda para o produtivo trabalhador.]
    Alguns aumentos soa meio estranho,e que vem uma campanha rasteira esse ano isso vem.

  7. OCIMAR
    terça-feira, 9 de abril de 2013 – 9:29 hs

    O ENDIVIDAMENTO DESSE POVINHO É O GRANDE LEGADO DO FAMIGERADO CHEFE DE QUADRILHA,O LULADRÃO.

  8. Antonio Carlos
    terça-feira, 9 de abril de 2013 – 11:46 hs

    O país vive uma “difícil situação econômica”??????
    Caramba….esses caras acreditam na tal da auto profecia realizável….
    Querem ser mais realistas que o rei.
    Ruim está na Espanha,Itália,França,EUa e outros paises periféricos…kkkkkkk

  9. ernesto
    terça-feira, 9 de abril de 2013 – 12:39 hs

    A mentira é uma característica marcante da ‘elite’ e de sua porta-voz a imprensa brasileira. Passamos centena de anos vendo, lendo e ouvindo que os juros no Brasil eram altos e que impedia o progresso do país, o ex-vice-presidente José Alencar era ouvido todo santo dia pedindo a derrubada dos juros. Agora, pedem o aumento dos juros para derrubar a inflação que está em torno de 6% e que era acima de 12% quando os juros eram altos. Haja paciência!

  10. vizinhense
    terça-feira, 9 de abril de 2013 – 13:58 hs

    O povo tem o dinheiro que nunca teve,principalmente na era de FHC,portanto nada mais justo ele consumir.trabalhou venceu,ganhou,pode sim proporcionar aos familiares uma vida digna igual aos politicos brasileiros.festa farra e carnaval………….

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