Perito compara UTI do Evangélico a campo de concentração | Fábio Campana

Perito compara UTI do Evangélico a campo de concentração


De Conceição Lemes, Viomundo:

Em 19 de fevereiro, quando a polícia prendeu a médica Virgínia Helena Soares Souza, chefe da UTI do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba, o meio médico chocou. Muita gente achou absurda a suspeita de que ela poderia ter induzido à morte pacientes ali internados.

“Era e é tudo tão surreal”, observou a médica Fátima Oliveira, num e-mail que trocou com esta repórter e o médico Mário Lobato, semana passada. “Mas pela minha leitura das falas divulgadas, não pelas matérias em si, é que havia fogo… tudo muito insano…Os prontuários falam muito mais do que supomos.”

No dia 11 de março, o Ministério Público do Estado do Paraná denunciou à Justiça Virgínia Helena Soares Souza, outros três médicos, três enfermeiros e uma fisioterapeuta, que também trabalhavam na UTI do Evangélico.

A denúncia do MP é aterradora. A sua leitura passa a impressão de que o local teria se tornado um “campo de concentração”. Profissionais, que deveriam estar ali para cuidar, estariam friamente exterminando pacientes do SUS.


Tão espantoso quanto a acusação do MP contra os oito profissionais (“se associaram para o fim de cometer homicídios de pacientes internados na UTI geral daquela casa de saúde”) é o período em que os atos ocorreram. Segundo o MP, eles aconteceram pelo menos de janeiro de 2006 até 13 fevereiro de 2012, quando a médica Virgínia Helena foi presa.

Ou seja, seis anos se passaram. Por que tanto tempo para isso ser denunciado?!

Os pacientes/familiares, até dá para entender. Já o longo silêncio dos profissionais de saúde é incompreensível. Será que não perceberam? Ou preferiram ficar na moita em nome do emprego?! A denúncia do MP relata sete óbitos. Teriam sido mais? Quantos, afinal?

Eu entrevistei o médico e blogueiro Mario Lobato da Costa sobre o caso. Ele é auditor do Departamento Nacional de Auditoria do SUS e membro do grupo de sindicância instituído pela Secretaria Municipal de Saúde para investigar o caso.

Viomundo — Quando o caso da chefe da UTI do Hospital Evangélico veio a público, você acreditou ou temeu estar diante de um novo caso da Escola Base?

Mario Lobato – O pessoal do Ministério Público esteve pessoalmente conversando conosco na Secretaria Municipal da Saúde. Nos informaram sobre os detalhes da investigação, depoimentos das testemunhas, escutas telefônicas. Com esses dados, ficou claro para mim que existiam indícios importantes a serem investigados em profundidade.

Viomundo — A UTI do Evangélico se tornou “um campo de concentração”, onde pessoas foram exterminadas friamente, sem chance de reação?

Mario Lobato — Os depoimentos que vieram a público e o teor das escutas são contundentes. Acompanhei no MP alguns depoimentos de familiares e ex-funcionários. São pavorosos.

Essa imagem de “campo de concentração”, que você usou, coincidentemente também apareceu em comentário de um dos peritos da área de terapia intensiva que participaram das investigações. E olha que ele coordena uma UTI, consequentemente, em princípio, deveria estar familiarizado com esse tipo de situação. Ele ficou chocado com o que achou; comparou a campo de concentração, de extermínio, na época do nazismo na Alemanha.

Viomundo – De acordo com a denúncia do MP, o grupo usava a mesma tática. Dava medicamentos para o paciente depender mais da ventilação feita por aparelhos. Só que, ao mesmo tempo reduzia o funcionamento dos equipamentos e ele tinha asfixia. O que a pessoa com a asfixia sente?

Mario Lobato – Na maioria dos casos apresentados na denúncia-crime do MP, o procedimento era quase que “padrão”. Aplicava-se um coquetel de medicamentos sedativos associados a um curarizante (medicamento que paralisa os músculos, inclusive os responsáveis pela respiração), geralmente o pancurônio (nome comercial pavulon), e os parâmetros do respirador eram então diminuídos. Com isso, se provocava a diminuição da oxigenação do paciente e – tecnicamente – a morte se dava por asfixia.

Segundo o professor Genival Veloso França, no seu livro Medicina Legal, os sintomas da asfixia têm duas fases.

Uma é de irritação, formada por dois períodos: o da dispneia respiratória (a pessoa ainda tem consciência), que dura cerca de um minuto; e o da dispneia expiratória (a pessoa está inconsciente, tem perturbações da sensibilidade e convulsões tônico-clônicas), que dura cerca de três minutos.

A outra fase é a de esgotamento. Apresenta um período inicial, ou de morte aparente, e outro terminal.

Viomundo — Segundo a denúncia do MP, esses atos teriam acontecido de janeiro 2006 a 19 de fevereiro de 2013. Como ninguém percebeu isso antes e denunciou? Foi corporativismo, medo de perder o emprego ou o quê?

Mario Lobato — As UTIs são espaços reservados, existe circulação restrita de pessoas. Isso dificulta o acompanhamento, mas não impede. A UTI do Evangélico (mas não só ela!) não produzia relatórios e dados estatísticos que permitissem melhor avaliação da qualidade dos serviços produzidos. Ressalte-se que isso ocorria dentro de um hospital universitário, de ensino, que teria a obrigação agir dessa forma.

O Hospital Evangélico, mesmo sendo universitário, aparentemente não possui auditoria interna implantada. E caso tenha, não funcionou.

Também os sistemas de controle do gestor municipal nesses últimos anos limitaram-se ao acompanhamento de documentos de cobrança e metas contratadas, baseados em sua maior parte na produção de serviços.

Não se pode admitir que a relação contratual de serviços públicos de saúde continue a repetir a mesma lógica contábil dos serviços privados, que é baseada na relação de consumo.

O controle e a avaliação de serviços prestados ao SUS precisam ter padrões de qualidade, eficiência, efetividade, economicidade… Tem de se esquecer a relação mediada pela “tabela do SUS”.

Viomundo — A denúncia do MP relata sete óbitos. A polícia levou um ano investigando. Será que vidas não poderiam ter sido salvas nesse período, afastando de cara os profissionais suspeitos?

Mario Lobato – Embora a sua linha de raciocínio seja bem plausível, não posso responder pela polícia. Suponho que ela deva ter tidos motivos objetivos para estender o período das investigações.

Viomundo — Tem-se uma estimativa de quantas pessoas poderiam estar vivas se tivessem recebido cuidado adequado?

Mario Lobato – Não.

Viomundo – Qual a lição desse caso?

Mario Lobato – Alguns profissionais da área com os quais tenho tido contato defendem que as investigações devam “parar por aqui”. Alegam já existir elementos suficientes para levar a doutora Virgínia e os outros sete funcionários envolvidos a julgamento. Alegam também que, caso as investigações se prolonguem, todas as UTIs do país podem ficar sob suspeita e isso poderá levar a uma comoção social.

Eu discordo frontalmente desses colegas.

Em primeiro lugar, tenho a convicção de que a sociedade tem o direito de saber a verdade. Toooooooooooda a verdade! Se algum parente meu tivesse falecido durante o período investigado, eu gostaria muito de saber o que foi que aconteceu.

Em segundo lugar, todas as ações de saúde são de relevância pública (está lá na constituição, artigo 197). Todos os serviços, sejam “SUS” ou “não SUS”, devem respostas à sociedade. Eles têm de ser prestados com qualidade, humanização, eficiência…

Espero que o caso do Evangélico leve todos nós – sociedade e serviços que devem servir a sociedade – a caminhar nesta linha. Transparência faz bem a saúde.


9 comentários

  1. Eleitor CWB
    segunda-feira, 25 de março de 2013 – 19:59 hs

    Tem qeu verificar melhor tudo isso. Antes dela assumir quem mandava lá era o marido dela, com ela já trabalhando por lá, e quando ele não estava ela já mandava e desmandava lá dentro. Tive contato com ela em função de um parente internado lá e ela foi muito grossa. Deveriam investigar casos ocorridos antes dela assumir a chefia, mas já trabalhava lá dentro com o marido como chefe. Não entendo como nunca falam disso, que o marido dela era o chefe da UTI antes dela e ninguém fala em investigar casos antes dela se tornar chefe. Não entendo como podem deixar tanto tempo assim sem nunca denunciarem. O parente que tive internado lá faleceu, conversei com algumas pessoas que trabalhavam lá e aparentemente o caso era sério mesmo, mas hoje em dia fico imaginando se esse meu parente poderia ter sobrevivido. Antes de 2000 já ouvi falar de dnúncias contra os médicos que fumavam lá dentro e o hospital precisou fazer mudanças. Como voltou a acontecer? Nunca fazem fiscalizações? É assim que se lida com a vida humana?

  2. Martinho Lutero
    segunda-feira, 25 de março de 2013 – 22:25 hs

    Toda semana aviso que tem muito mais coisas…o cabeca e o deputado que sugava dinheiro da seb, do huec, da fepar para se eleger a todo custo…muita gente servia a ele la dentro…inclusive quem aparece na tv dizendo que nada sabia…virginia era um mengele piorado, mas tem que chegar no himler e no hitler.

  3. Edelzita
    segunda-feira, 25 de março de 2013 – 23:13 hs

    Meu Deus nos ajude nos defenda nao so de dar Virginia como de outras iguais que ainda nao foi descoberto vamos orar um salmo pra nossa querida mulher do demonio ,só que o inferno ta tao cheio de pessoas parecida com ela que acho ate que nao vai encontrar vaga é bem melhor entregar ela pra Macrrao e Bruninho do caso Elisia Samudio ,Alexandre Nordoni,Mizael o advogado que matou a mulher,caso Eloa ;manda ela pra la pq tem jeito nao mas como o satanas ta muito ocupado entrega pra eles citado aqui que tenho certeza que em boas maos ela ta bem entregue Bjs Virginia o inferno com esses diabinhos te esperam

  4. PAULO
    terça-feira, 26 de março de 2013 – 8:45 hs

    Mais aterradora, e dar a liberdade para a besta humana…trata-se de uma psicopata…manicomio judicial para essa criatura ..antes que os familiares facam justica com as propias maos.

  5. PAULO
    terça-feira, 26 de março de 2013 – 8:46 hs

    corrigindo….PROPRIAS.

  6. Janete
    terça-feira, 26 de março de 2013 – 8:52 hs

    Horrível…. só de olhar para a fisionomia da mulher dá medo e nojo, está escrito em sua cara que é uma desiquilibrada , totalmente.
    Doente e posuida pela maldade. Um ser deste tem que estar no presidio, para sempre, não solta, rindo do povo.

  7. Constanza del Piero
    terça-feira, 26 de março de 2013 – 10:01 hs

    Se metade dessas denúncias se concretizarem, o Hospital Evangélico tem mais é que ser fechado; responsabilizada toda sua diretoria de então; fazer um pente fino na equipe; e só reaberto com nova diretoria e nova equipe!
    Se durante todos esses anos, aconteceram esses descalabros todos, podemos presumir que TODO O HOSPITAL SERIA NO MÍNIMO CONIVENTE COM OS CRIMES; logo…

  8. indominado
    terça-feira, 26 de março de 2013 – 10:19 hs

    SÓ SEI QUE ESSA MEDICA NÃO PODERIA FICAR SOLTA,ESSE JUIZ QUE MANDOU SOTALA TEM QUE REVER SUA DECISÃO E VOLTA A TRAZ.MANDAR A DR VIRGINA DE VOLTA DE ONDE NÃO DEVERIA SAI QUE É TRAZ DAS GRADES .

  9. Guilherme Rosa
    terça-feira, 26 de março de 2013 – 16:52 hs

    Tudo nesse processo tem sido atropelado, não pode ser assim.

    Esse senhor não faz parte de uma auditoria?

    Porque então não se espera o relatório da auditoria formalizado pra divulgar? Porque ele está divulgando as coisas antes do encerramento do trabalho?

    É ele mesmo que tem que divulgar isso? Não está atropelando o processo legal? Voltando na questão de condenar as pessoas antecipadaments?

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