Ao Deus dará | Fábio Campana

Ao Deus dará


Jorge Gerdau: “Dentro da estrutura brasileira, o conceito de política atrapalha bastante a gestão…” (Foto: Victor Moriyama / Folhapress)

Artigo publicado por Roberto Pompeu de Toledo na edição de VEJA que está nas bancas

AO DEUS-DARÁ

A entrevista do empresário Jorge Gerdau aos repórteres Fernando Rodrigues e Armando Pereira Filho, postada no portal UOL no último dia 15, foi das mais contundentes – e mais reveladoras – sobre o modo de governar que ultimamente se impôs no Brasil.

Gerdau faz trabalho voluntário no governo Dilma. Preside a Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade, criada, por sugestão dele próprio, para ajudar na racionalização e na eficácia da administração, e fala, portanto, do ponto de vista de quem conhece a matéria pelo lado de dentro.

Três foram os trechos mais significativos da entrevista. Veja no Leia Mais.

Pergunta – O sr. diria que a política atrapalha a gestão?

Resposta, depois de longa pausa – Dentro da estrutura brasileira, o conceito de política atrapalha bastante a gestão…

O que chama atenção nesse primeiro ponto é a sugestão da existência de um “conceito de política” peculiar ao Brasil. Gerdau não explica que conceito é esse. Fica nas reticências, o que nos deixa diante de uma não declaração. Eis no entanto uma não declaração cheia de sentido. O conceito de política que passou a imperar no Brasil, em primeiro lugar, nega a política.

Quer dizer: nega o embate de ideias e de programas. Em segundo lugar, nega as políticas. Não o regem os modelos desta ou daquela política educacional, desta ou daquela política de transporte. Sobra, como sabemos, que o “conceito de política” em vigor no país gira (em falso) em torno de eixos como a liberação de emendas parlamentares, a distribuição de cargos na administração, a constituição de um ministério amplo o bastante para abrigar uma enxurrada de partidos e a acumulação de minutos de TV nas campanhas eleitorais.

O “conceito de política” assim estruturado (ou desestruturado) é a mãe de todos os problemas que se interpõem à racionalidade e à eficácia da administração.

Pergunta – O número de partidos vai aumentar. Vamos acabar tendo cada vez mais ministérios?

Resposta – Tudo tem o seu limite. Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, sai um saneamento. Nós provavelmente estamos no limite desse período.

Gerdau, aqui, mostra-se paradoxalmente desesperado e esperançoso. O desespero leva-o a chamar de “burrice”, “loucura” e “irresponsabilidade” o ato reflexo de ir criando ministérios à medida que os partidos aderem ao governo, ou mesmo são criados para tal. A esperança o faz vislumbrar que estamos chegando ao limite dessa prática. Bondade dele, ou talvez concessão de quem, afinal, faz parte do governo.

Vem aí o Ministério da Micro e Pequena Empresa, para o mais novo adesista, o PSD do ex- prefeito Kassab. Dias atrás houve mudança em quatro ministérios – os da Agricultura, da Aviação Civil, do Trabalho e dos Assuntos Estratégicos. Novos titulares foram anunciados para os três primeiros, ficando para ser ainda nomeado o titular do quarto.

Sobre os ministérios da Aviação Civil e dos Assuntos Estratégicos, de origem recente, um estrangeiro que desconhecesse as manhas locais perguntaria, antes de qualquer especulação quanto aos novos titulares, por que diabos foram criados. Se existe um Ministério dos Transportes, por que um da Aviação Civil? E, se estratégia é algo que deve alimentar cada ministério, por que reuni-la num só?

Não valem a pena tantas perguntas, porém. Houve época em que “reforma ministerial” era coisa séria. Implicava inflexões nos rumos dos governos. Não mais. Esta última, como as anteriores, desgasta a ideia de “reforma” e contribui para desmoralizar o próprio conceito de “”ministério”.

Pergunta – A presidente teria poder para reduzir o número de ministérios?

Resposta – Com o número de partidos crescendo cada vez mais, é quase impossível. O que a presidenta faz? Trabalha com meia dúzia de ministérios realmente chave. O resto é um processo que anda com delegações de menor peso.

Gerdau, nos três trechos destacados, foi do mais geral ao mais particular. Neste ponto, chegou ao modo de operar da presidente, e a conclusão é dramática. Uma ampla porção do governo – 33, dos 39 ministérios – funcionaria de modo mais ou menos autônomo, sem sofrer a ação direta – e talvez sem atrair o interesse – da presidente.

Fecha-se o círculo. Da mãe de todos os problemas, que é o peculiar “conceito de política” brasileiro, chega-se à necessária consequência de um substancial espaço da administração ser abandonado ao deus-dará


5 comentários

  1. Parreiras Rodrigues
    sábado, 30 de março de 2013 – 20:02 hs

    Mesmo no período da Dita Dura, que dia primeiro de abril comemora aniversário de instalação, os ministros tinham a ver com os seus ministérios. Publicavam-se até currículos, que, muitos empossados por Lula e Dilma, simplesmente não tem.

  2. Jorge
    sábado, 30 de março de 2013 – 23:06 hs

    Está claro para muitos de nós que a MEDIOCRIDADE e DESPREPARO acompanhados da GANÂNCIA tomaram conta. Por vezes achamos que a CRISE mundial deveria passar por aqui pois, assim, teríamos o freio de arrumação que precisamos. Que dificuldade em se avançar nos comportamentos e idéias politicas, UGH!!!!!!!

  3. Silva Jr
    domingo, 31 de março de 2013 – 23:17 hs

    E o Brasil só crescendo, ferrovia e cana impulsionam Araraquara
    Linha férrea e proximidade de centros produtores de matéria-prima agrícola atraem investimentos à cidade paulista
    Parceria da Coca-Cola com indiana vai injetar R$ 1 bi em fábrica de composto para embalagens recicláveis
    A ferrovia que estimulou o progresso de Araraquara no fim do século 19 é a mesma que ajuda, agora, a impulsionar a economia e a atrair indústrias para a cidade de 210 mil habitantes.
    A vocação logística do município, na região central do Estado, tem contribuído para que se torne polo de grandes empresas.
    Segundo a ALL, concessionária que administra mais de 21,3 mil quilômetros de ferrovias no país e no exterior, o pátio de Araraquara é o de maior movimentação de composições em toda sua malha. E está em ampliação.
    Só neste ano, serão R$ 20 milhões em investimentos, com expectativa de aumentar em 30% os 600 empregos. As obras permitirão maior produtividade e agilidade na movimentação de cargas.
    Mas não é só a localização do município que vai garantir investimentos nos próximos anos. A proximidade de centros produtores de matérias-primas como a cana-de-açúcar e a laranja também atrai empreendimentos.
    É o caso da Coca-Cola Brasil e da JBF Industries, da Índia, que anunciaram em setembro de 2012 a construção da maior fábrica do mundo para a produção de BioMeg (material feito a partir da cana usado na fabricação de embalagens recicláveis).
    A unidade vai consumir R$ 1 bilhão e gerar 1.650 empregos diretos e indiretos.
    Quem também está chegando por causa da linha férrea e da cana é a Randon, que vai instalar uma unidade industrial na cidade.
    No fim de 2012, o grupo (que atua no transporte pesado de cargas) anunciou investimentos de R$ 500 milhões, com potencial de gerar 2.000 empregos até 2017.
    “Araraquara foi escolhida por ser um polo ferroviário e canavieiro”, diz o diretor corporativo e de operações da Randon, Erino Tonon.
    Araraquara também vai receber investimentos no setor de energia. Em funcionamento, a retransmissora já faz a interligação aos sistemas de Furnas e da Cteep. A subestação recebe energia das usinas de Santo Antonio e Jirau (RO). A rede tem 2.345 quilômetros de extensão e 4.327 torres de transmissão, que atravessam 5 Estados e 85 municípios.
    Já foi investido R$ 1,4 bilhão, mas está previsto mais R$ 1,6 bilhão para fazer a interligação para distribuir energia por meio de outros sistemas para regiões como o sul de Minas e parte do Rio.

  4. segunda-feira, 1 de abril de 2013 – 8:37 hs

    Realmente o governo está a cada dia que passa mais preocupado em agradar os parceiros políticos do que comandar o país. E isso é reflexo da falta de postura de nossos políticos que só tem interesse em cargos e tempo de televisão para garantir a reeleição.

  5. porrete de lapacho
    quarta-feira, 3 de abril de 2013 – 8:47 hs

    ESSE aí é tão usurpador como o falecido sem vergonha vice presidente José alencar.

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