A revolução que não houve, por Ferreira Gullar | Fábio Campana

A revolução que
não houve, por
Ferreira Gullar

“Chávez intitulou seu regime de “revolução bolivariana”, embora não tivesse feito qualquer revolução.

Do Ferreira Gullar, Folha:

Hugo Chávez foi, sem qualquer dúvida, um líder carismático que aliava, em sua atuação, a audácia e a esperteza política. Desde cedo, a ambição de poder determinou suas ações, que o levaram da conspiração nos quartéis às manobras populistas características de seu projeto de governo.

Sempre soube o que deveria fazer. Compreendeu, desde logo, que teria de atender às necessidades de grande parte da população que, ignorada pela oligarquia venezuelana, vivia na miséria.”


Ganhar a confiança dessa gente, atendê-la em suas carências, era a providência eticamente correta e, ao mesmo tempo, o caminho certo para tornar-se um líder de imbatível popularidade. Mas, para isso, teria que enfrentar os poderosos e obter o respaldo das forças armadas, às quais, aliás, pertencia. Foi o que fez e ganhou a parada.

Outro traço característico de Hugo Chávez era o pouco respeito às normas democráticas. Se é verdade que ele chegou ao poder pelo voto e pelo voto nele se manteve, é certo também que se valeu do prestígio popular e de alguns erros dos opositores para controlar os diferentes poderes da nação venezuelana, impor sua vontade e consolidar o poder discricionário.

Nesse sentido, o que ocorreu na Venezuela é um exemplo de como o regime democrático, dependendo do nível econômico e cultural da população de um país, pode abrir caminho para um governo autoritário que, dependendo da vontade do líder, anulará a ação política dos adversários, como o fez Hugo Chávez.

Ele não só fechou emissoras de televisão como criou as Milícias Bolivarianas, que, a exemplo da conhecida juventude nazista, inviabilizava pela força as manifestações políticas dos adversários do governo.

Para culminar, fez mudarem a Constituição para tornar possível sua reeleição sem limites. Aliás, é uma característica dos regimes ditos revolucionários não admitir a alternância no poder. Está subentendido que sua presença no governo garante a justiça social com a simples exclusão da classe exploradora e, portanto, como são o povo no poder, não há por que sair dele.

Chávez intitulou seu regime de “revolução bolivariana”, embora não tivesse feito qualquer revolução. O que fez, na verdade, foi dar comida e casa aos mais necessitados, o que, ao contrário de levar à revolução, leva à aceitação do regime pelos que poderiam se revoltar. Daí a necessidade de haver um inimigo, que ameace tomar o que eles ganharam. E o líder -Chávez- está ali para defendê-los.

O azar dele foi o câncer que o acometeu e que ele tentou encobrir. Quando já não pôde mais, lançou mão da teoria conspiratória, segundo a qual seu câncer foi obra dos norte-americanos. Como isso ocorreu, nem Nicolás Maduro nem Evo Morales se atrevem a explicar.

De qualquer modo, tinha que se curar e foi tratar-se em Cuba, claro, para que ninguém soubesse da gravidade da doença, que o obrigaria a deixar o governo. Sucede que o câncer não cedeu à onipotência do líder, obrigando-o a ausentar-se da Venezuela e da chefia do governo, por meses seguidos. O povo venezuelano, naturalmente, desejava saber o que se passava com o seu presidente, mas nada lhe era dito.

No entanto, Chávez deveria disputar eleições em 2012 para manter-se no governo e, por isso, voltou à Venezuela dizendo-se curado. Foi reeleito, mas teve que voltar às pressas à UTI em Havana. Daí em diante, mais do que nunca, o sigilo foi total: está vivo? Está morto? Vai voltar? Não vai voltar? Pela primeira vez, alguém governou um país de dentro de uma UTI.

Chega a data em que teria que tomar posse, mas continuava em Cuba. Contra a Constituição, Nicolás Maduro, que ele nomeara seu vice-presidente, assume o governo, embora já não gozasse, de fato, da condição de vice-presidente, já que o mandato do próprio Chávez terminara.

Mas, na Venezuela de hoje, a lei e a lógica não valem. Por isso mesmo, o próprio Tribunal Supremo de Justiça -de maioria chavista, claro- legitimou a fraude, e a farsa prosseguiu até a morte de Chávez; morte essa que ninguém sabe quando, de fato, ocorreu.

Durante o enterro, Nicolás Maduro anunciou que Chávez seria embalsamado e exposto para sempre à visitação pública, como Lênin e Mao Tse-tung. Um líder revolucionário de uma revolução que não houve. Não resta dúvida, estamos em Macondo.


7 comentários

  1. LUIZ
    domingo, 17 de março de 2013 – 15:41 hs

    VIVIA NA MISÉRIA? A EXEMPLO DO BRASIL,FORAM FEITOS DE IDIOTAS,ENGANADOS,FORAM FEITO ESCRAVOS DO BOLSA VOTO.

  2. Parreiras Rodrigues
    domingo, 17 de março de 2013 – 16:04 hs

    ,,,e ba Colômbia, cinco cidadãos duma cidade do Interior, se crucificam contra o projeto que denomina Evo Morales o aeroporto local.

  3. Parreiras Rodrigues
    domingo, 17 de março de 2013 – 16:04 hs

    ,,,e na Colômbia, cinco cidadãos duma cidade do Interior, se crucificam contra o projeto que denomina Evo Morales o aeroporto local.

  4. Rodrigo
    domingo, 17 de março de 2013 – 20:03 hs

    Sim. É assim mesmo: quando se dá casa, comida e emprego para os pobres eles aceitam o regime. Quando se dá facilidades aos ricos eles aceitam o regime. Nem quem representa ricos, tampouco que representa os pobres quer deixar o poder. Aliás em que país, os partidos de situação querem deixar o poder? Essa historinha de alternância de poder é conversa pra boi dormir. Se for para ter alternância, o partido do poder simplesmente não disputaria a eleição. Quem garante permanência no poder é o povo, pelo voto. E todo mundo quer o poder, ricos e pobres. Quem souber jogar melhor leva.

  5. Constanze Del Piero
    domingo, 17 de março de 2013 – 20:21 hs

    -“Não resta dúvida, estamos em Macondo.” – Só mesmo um poeta, poderia sintetizar com uma frase tão curta e singela, a palhaçada que reina na pobre Venezuela.
    Caminho que não estamos longe de percorrer…

  6. sergio silvestre
    segunda-feira, 18 de março de 2013 – 0:16 hs

    Alternancia de poder é para todos ter seu quinhão,quando isso é demorado a oposição reune o que é mais nefasto na ansia de voltar.
    Acho que deveriamos ter um presidente até o fim da sua vida,só assim não teriamos situação de terra arrazada ,nem oposição trabalhando contra o progresso.

  7. Aline
    segunda-feira, 18 de março de 2013 – 16:46 hs

    Então tá Sr. Silvestre , se for do PSDB ou de outro partido que não seja o PT, o Sr vai pensar da mesma maneira???????

Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*