A linguagem dos políticos | Fábio Campana

A linguagem dos políticos

Do Merval Pereira, O Globo:

Pesquisando sobre a linguagem dos políticos, tema sobre o qual escreveria na coluna que se segue, encontrei a seguinte definição do escritor inglês George Orwell: “A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade, e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez.” É uma visão cética da atividade política, que não corresponde exatamente à minha, mas dá bem a medida de como os políticos, não só os brasileiros e não de agora, são vistos pela opinião pública.

Os casos que analisarei aconteceram nos últimos dias e não revelam tão graves distorções de caráter dos envolvidos, mas de qualquer maneira são exemplos saídos do forno de como se deve ter cautela com a linguagem dos políticos.

A presidente Dilma foi a Serra Talhada para pela primeira vez encontrar-se oficialmente com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tido e havido como seu provável adversário em 2014, em seu território político. No entendimento generalizado, a presidente mandou um recado para seu quase ex-aliado, dizendo que é impossível governar sem uma coalizão forte, mas que precisava de parceiros comprometidos com o projeto de governo.

Pois ontem Campos garantiu que não entendeu a frase como um recado indireto e foi peremptório: “A presidente Dilma não é mulher de mandar recados, e nem eu sou homem de receber recados. Ela não é dada a esse tipo de conversa, e nem eu”.

Parece uma resposta altiva, de quem não se deixa emparedar nem mesmo pela presidente. Na verdade, porém, é absolutamente necessário para Campos fingir que não entendeu o recado dado, pois o entendimento o obrigaria a tomar uma decisão agora, sair do governo, entregando todos os cargos, ou desistir de sua provável candidatura.

Essa última hipótese, aliás, era motivo de especulação ontem em Brasília. Não foram poucos os que viram na fala de Campos sinais de que ele está começando a recuar de seu projeto de voo solo. Não que ele tenha admitido isso, mas usou palavras mais ambíguas do que tem usado e, sobretudo, adiou para abril de 2014 a decisão oficial, quando havia dito que em setembro deste ano ele se decidiria, para dar aos companheiros de partido tempo suficiente para se organizarem, seja qual for a decisão.

Um recuo, a esta altura do campeonato, seria ruim para a oposição, pois fortaleceria a base aliada, mas seria pior ainda para o jovem Eduardo Campos. Indicaria que ele avaliou como insuficientes seus apoios para enfrentar o favoritismo de Dilma. Mas, sobretudo, seria uma demonstração de fraqueza diante do PT e do PMDB que colocaria o PSB em situação mais frágil ainda na coalizão.

Também os tucanos andam usando as palavras de maneira a não esclarecer o quadro político. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, achava que o senador Aécio Neves não deveria ser o presidente do PSDB, concordando com o ex-governador José Serra.

Na reunião do partido na segunda-feira, ele acabou se convencendo de que seria bom para Aécio presidir a legenda, assim poderia viajar pelo país para organizar o partido, ouvir as famosas bases partidárias.

Tudo isso para quê? Para tornar-se um candidato à Presidência mais forte, está subentendido. Mas ontem, talvez temendo ter ido além do que deveria, Alckmin fez questão de ressaltar que o fato de apoiar Aécio para presidente do PSDB não significa necessariamente lançá-lo como candidato à Presidência da República.


5 comentários

  1. Silvajr
    quinta-feira, 28 de março de 2013 – 7:54 hs

    Os jornalistas da grande mídia tradicional são vistos da mesma maneira, pois defendem a pior classe política que existe, os políticos que defendem o sistema financeiro e o poder econômico.

  2. lucas
    quinta-feira, 28 de março de 2013 – 8:31 hs

    Muito boa sua colocação, penso igual a você … parabéns

  3. ernesto
    quinta-feira, 28 de março de 2013 – 15:01 hs

    Obrigado, Lucas.

  4. Constanza del Piero
    sexta-feira, 29 de março de 2013 – 10:57 hs

    Das duas uma: Ou o Lucas psicografou via Chico Xavier a mensagem do Ernesto, pois só ele viu; ou a mesma máquina que escreve Ernesto, no campo NOME; escreve também Silva Jr…..
    Mistérios da meia noite!

  5. salete cesconeto de arruda
    sexta-feira, 29 de março de 2013 – 16:00 hs

    Merval teve que pesquisar para saber o que dizia o escritor?

    Que faculdade Merval fez?

    Rsrsrsrsrsrsrsrsrs

    E pensar que o FH quer ir para a mesma ABL.

    Se o Merval ‘pesquisar’ pode fazer uma coluna sobre a renúncia ou morte do Ubaldo.

    Rsrsrsrsrsrss

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