Temor à palavra | Fábio Campana

Temor à palavra

De Ruy Fabiano, O Globo:

Digamos, por mero exercício de raciocínio, que tudo o que tem sido assacado, sem provas, contra a blogueira cubana Yoani Sánchez é verdade: é agente da CIA, conspira contra o socialismo em Cuba, é antipatriota, financiada por grupos empresariais etc.

Nada disso justifica a vergonhosa recepção que está tendo. Cercear o direito à palavra a alguém cujo destaque se deve exclusivamente ao uso que dela faz – e a nada mais – é uma truculência inominável, intolerável num regime democrático.

Se os adversário de Yoani têm alguma razão para hostilizá-la, a perderam ao tentar silenciá-la mediante métodos bárbaros, piquetes de militantes que remetem às manifestações da juventude nazista. Se ela precisa ser combatida – digamos que precise -, é no campo em que ela atua que isso deve ocorrer.

Afinal, se o seu hipotético delito estaria no que diz (e escreve), é aí que deve ser questionada. A liberação de seu visto para deixar seu país foi apresentada como sinal de que Cuba, no fim das contas, não seria uma ditadura tão intolerável.

Só que a concessão do visto não foi exatamente uma concessão. Estava sendo constrangedor ao regime insistir em negá-lo, graças à projeção que Yoani conquistou internacionalmente.

O governo cubano decidiu então transformar a concessão numa cilada. Articulou-se com o governo brasileiro para que a recepção saísse pela culatra. O meio de que se serviu não poderia ser mais burro. Confirma o que de pior já se disse sobre aquele regime.

É um governo que teme mais a palavra do que a pólvora. O espantoso é que o governo brasileiro, que preside uma democracia, fincada na liberdade de expressão, se associe a tal prática.

A imprensa provou tal parceria, em que o governo brasileiro chegou a enviar emissário a Cuba para inteirar-se da logística da perseguição. Os adversários de Yoani querem responsabilizá-la pelo que não fez, nem defendeu: o embargo econômico dos EUA e a prisão de Guantánamo.

Que tem ela com isso, se nem nascida era quando tais fatos se consumaram? E que força tem para revertê-los se o próprio Obama, que se comprometeu com a causa, não o conseguiu? E ainda: quando foi que fez proselitismo favorável a tais temas?

Sua luta é a de uma cidadã cubana, inconformada em viver num país onde não há eleição há mais de cinco décadas, onde se pune com prisão, tortura e morte os delitos de opinião e onde o elementar direito de ir e vir cabe apenas aos amigos do regime.

Alguns hão de argumentar: “Como, se ela está no Brasil e cumprirá agenda de visita a outros países?”. Sim, mas a que preço! O que afinal os adversários de Yoani tanto temem que ela diga que já não tenha dito (e escrito)?

Se é agente da CIA – e seria caso único de um agente cuja missão é se expor -, a melhor ocasião de prová-lo e desmoralizá-la é pelo debate. Há quem tente apontar na mobilização oposicionista para defendê-la um sinal de que estaria articulada para impor ao regime cubano o desgaste que está ocorrendo.

Ora, que oposição ficaria indiferente a uma manobra tão patética como esta, que, além de submeter o país ao comando moral de outro, o expõe internacionalmente como cúmplice de uma ditadura cinquentenária?
E não é a primeira vez que o governo do PT, que celebrou esta semana sua primeira década no poder, age dessa forma, a serviço de um regime que resiste à democratização.

Houve, em 2007, por ocasião do Pan-americano, o caso de deportação de dois boxeadores cubanos que se desligaram da delegação de seu país e pediram asilo ao governo brasileiro.

Já com relação ao terrorista Cesare Battisti, condenado em última instância pelo Judiciário italiano, o governo não hesitou em violar um tratado de extradição e mantê-lo em território brasileiro. Os boxeadores não eram criminosos, nem estavam condenados, mas foram tratados como se o fossem; Battisti, mesmo condenado, foi tratado como vítima.

Lula, em território cubano, comparou presos políticos, em greve de fome, a bandidos comuns de São Paulo. E Dilma disse que direitos humanos são questão de âmbito interno dos países e que o Brasil não tem autoridade nessa questão para julgar Cuba.

Some-se a isso a inconformidade do PT em absorver a condenação dos mensaleiros e as reiteradas tentativas de regulamentar a mídia e tem-se aí, claramente, um projeto autoritário em marcha. O que a militância da esquerda faz com Yoani é o que quer fazer com a liberdade de expressão aqui mesmo.


11 comentários

  1. TRABALHADOR
    sábado, 23 de fevereiro de 2013 – 19:12 hs

    Cuba é um fim de mundo, onde um barbudo chamado Fidel aterroriza o povo e não percebe que o mundo mudou…O povo brasileiro sabe bem disso, nenhum ciadadão de bem e trabalhador desse país sonharia em deixar nosso país e ir morar naquela ilha. Muito menos pensariam em apoiar um regime comunista, que já provou, pela história recente, ser algo inviável para a humaninade.
    Então o que essa moça quer? O que querem essa gente com essa história tola…Vamo trabalhar mais pessoal, falar dos muitos problemas verdadeiros que atingem nosso povo.
    Porque esse moço de “O Globo” não faz uma reportagem contando ao povo brasileiro, como o falecido dono do jornal em que ele trabalha, manipulou o resultado das eleições presidenciais de 1989, à favor do seu “boneco”, que acabou ganhando um pé nas nadegas chamado “Impeachment”. Será que lá existe toda essa “liberdade de expressão” que cobram do governo?

  2. Jo Hansen
    sábado, 23 de fevereiro de 2013 – 19:12 hs

    Caro FÁBIO, é lamentável a presença dos brasileiros iludidos petistas – defensores de condenados – de baixo coturno, tipo pau mandado participando dessa palhaçada, prejudicando o trabalho de uma escritora que tem a coragem de defender DEMOCRACIA, perante a comunidade mundial e esses elementos envergonhados defendendo uma DITADURA CINQUENTENÁRIA falida. Gente vão para casa cuidar da dor de cabeça.Atenciosamente.

  3. Fui II
    sábado, 23 de fevereiro de 2013 – 20:05 hs

    É coisa dos PTralhas…para eles Fidel é um deus..e essa pelegada alienada, mamando nas tetas do governo, subserviente..vassorões idiotas

  4. Carlos
    sábado, 23 de fevereiro de 2013 – 22:30 hs

    Os hipócritas que defendem o regime cubano sempre foram contra a democracia e a liberdade de expressão. Até aí, nenhuma novidade. Mas o que causa revolta é a cara de pau com que se utilizam dos meios democráticos para tentar acabar com a democracia. Como simplesmente não podem prender a blogueira e mandá-la para o paredón, sem nenhuma vergonha seguram cartazes, banners e placas difamatórias, com conteúdo ditado pela máfia comunista, com o único objetivo de tentar calar a blogueira e esconder a verdade (como se ela já não fosse conhecida por todos). E fazem isso dentro do Brasil. Os brasileiros decentes, que defendem a democracia, deveriam recolher toda essa escória, enfiá-la num jato, e, quando estivesse sobrevoando Cuba, despachá-la com um grande chute no traseiro. De preferência, em cima do palácio presidencial.

  5. salete cesconeto de arruda
    domingo, 24 de fevereiro de 2013 – 1:42 hs

    Se ela ler os COMENTÁRIOS CRIMINOSOS contra minha pessoa no oglobo vai descobrir que o que é LIBERDADE DE EXPRESSÃO no Brasil. Esto esperando os comentários dela. Salvei e mandei para o seu hotel. Dependendo da resposta veremos qual seu objetivo e de quem a FINANCIA.
    Eu conheço tantos JORNALISTAS E BLOGUEIROS SÉRIOS que recebem uma merreca diante do que ela ganha para viajar, viver na Suíça…. e falar um monte de frases feitas sem sequer conhecer a HISTÓRIA DO PRÓPRIA PAIS. Coitada! Não sabe que EMBARGO GERA FOME que GERA SILÊNCIO… e outras mazelas.
    O pior é que ela nada fala sobre a prisão de guantánamo e as TORTURAS praticadas pelos americanos até contra crianças.
    Vai entender.
    Vamos ver o que ela vai dizer dos comentários de quem a defende no oglobo de ontem.
    Ai a gente decide o que ela e seu grupo deseja.

  6. Deutsch
    domingo, 24 de fevereiro de 2013 – 9:00 hs

    Tem sim que respeitar o manifesto dos outros e isso é sinal de educação. O que se vê é uma barbárie contra essa moça, agora, qual é finalidade dela? Geralmente o manifesto deve ter caráter, no mínimo, interessante, mas não é o que demonstra a manifestação dessa senhora, pois bate na mesma tecla que todos já conhecem há muito. Qual o propósito? Então deixem ela falar pois isso não vai mudar em nada o regime cubano.

  7. salete cesconeto de arruda
    domingo, 24 de fevereiro de 2013 – 10:59 hs

    Em tempo:
    YOANI não sabe que a MAIORIA DOS BRASILEIROS são INVISÍVEIS para o PIG que a afaga e fez festa!

  8. Aline
    domingo, 24 de fevereiro de 2013 – 15:01 hs

    Este “trabalhador” vem com ar de bom moço, mas a verdade que ele é tão TOTALITÁRIO quantos estes que não permitiram a jornalista YOANI falar.
    Ora, se o todo o povo brasileiro sabe que CUBA é uma ditadura e que não é o paraíso, até porque se fosse, não haveria tantos cubanos querendo sair do paraíso, não é verdade?????
    O que eu quero dizer é que este “trabalhador” na verdade está defendendo a TRUCULÊNCIA com que a jornalista foi recebida.

  9. Carlos
    segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013 – 0:37 hs

    Liberdade de expressão é o direito de qualquer um poder se manifestar livremente, por mais que não concordemos com sua opinião. Está expresso no art. 5º, inciso IV da Constituição Federal de 1988, que diz:
    “IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;”
    Por este artigo, até mesmo aqueles que idolatram uma ditadura, como a Cubana, ou que se manifestam contra a democracia, contra o capitalismo e até mesmo contra a própria liberdade de expressão, podem aqui expor seus pensamentos sem medo de ser presos pela polícia política tão presente nos países governados pela ideologia da foice e do martelo. A liberdade de expressão é um valor muito caro no Brasil, que esteve sob um regime ditatorial durante o período recente de sua história. Todavia, esse direito tão caro aos brasileiros, foi negado à Sra. Yoani, que, em diversos momentos, não pode se manifestar devido ao barulho de manifestantes em sua grande parte patrocinados pelo regime dos Castro. Importaram para cá a odiosa censura cubana. E, claro, na falta de argumentos contra as idéias da blogueira, se apegam no “argumentum ad hominem”, falácia lógica em que o debatente, ao invés de contradizer a idéia do adversário com argumentos, parte para o ataque pessoal. Com isso, foge-se do debate da idéia, porque não se possui capacidade de contrariá-la, e centra-se o debate em algo que não possui qualquer vínculo com o objeto da discussão e, consequentemente, com a busca da verdade. É o argumento de quem não possui argumento.

  10. TRABALHADOR
    segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013 – 5:41 hs

    Olhe dona Aline, o povo brasileiro é mal recebido nos hospitais públicos e postos de saúde e ninguém vai lá na assembléia falar sobre isso..
    É um erro mal tratar essa moça? É sim, com certeza…
    Erro maior é dar expressão à um assunto que não tem, que não está nas pautas de prioridade do povo deste país. Porque os nosso queridos deputados não vão lá na assembléia falar da má qualidade do ensino público?
    Então temos tanta coisa importante, mas ficam fazendo DEMAGOGIA barata, usando um caso besta pra aparecer, dizendo “eu sou defensor da liberdade e democracia”. A liberdade começa em casa, nas nossas casas, nos jornais e instituições do país. Por isso a minha observação das eleições de 1989, para refrescar a memória de quem sai por aí falando em liberdade, sem nunca ter deixado ela exisitir plenamente.
    A temporada das melancias está aberta…”Que os mortos enterrem seus mortos”.

  11. TRABALHADOR
    segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013 – 5:44 hs

    Estou defedendo o meu ponto de vista, como me garante a constituição da República. Que dó, tem gente que lê, mas não compreende…Isso chama-se A.F.

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