Metrô fora dos trilhos | Fábio Campana

Metrô fora dos trilhos

Do Celso Nascimento, Gazeta do Povo:

O destino do metrô curitibano provavelmente será selado nesta Quarta-Feira de Cinzas, quando o prefeito Gustavo Fruet ouvirá as conclusões a que chegou a comissão por ele nomeada para analisar o projeto deixado pelo antecessor, Luciano Ducci – uma linha de 14 quilômetros ligando o Pinheirinho à Rua das Flores. Com base em relato de fontes que participaram das discussões, esta coluna antecipa:

• O modelo originalmente proposto foi considerado inviável dos pontos de vista técnico e econômico.
• O projeto apresentado ao público antes e durante a campanha eleitoral era bonito, porém superficial e incompleto.• O custo da obra, divulgado como de R$ 2,3 bilhões, está subestimado.

• A demanda de usuários pagantes na linha prevista, de 450 mil passageiros por dia, foi exagerada.
• A demanda real de pagantes será de, no máximo, 230 mil passageiros por dia.
• Para garantir o relativo equilíbrio financeiro na operação do metrô, haveria necessidade de que 470 mil passageiros por dia fossem pagantes efetivos. Ou seja, como a demanda calculada é de 230 mil, seria necessário “criar” mais 240 mil usuários pagantes.
Diante de tudo isso, considerando o valor da atual tarifa, a previsão é de que o prejuízo anual da operação da linha do metrô e de sua integração com o resto do sistema do transporte coletivo será da ordem de R$ 200 milhões por ano – diferença que se paga com tarifa mais alta ou com subsídio público.
Mesmo sem conhecer em detalhes o parecer da comissão técnica, o prefeito já decidiu: todas as providências serão tomadas para que a construção do metrô comece no máximo até o fim deste ano – caso contrário, a prefeitura correrá o risco de perder o R$ 1 bilhão que o governo federal concedeu a fundo perdido.
Entretanto, mudanças terão de ser feitas. Começa pela parte de engenharia: a recomendação é que se abandone a ideia de escavar a canaleta dos ônibus expressos (a profundidades de até 20 metros) para assentar os trilhos e, depois, cobri-la de novo para criar um boulevard na superfície.
Além do transtorno para o tráfego e para o comércio durante anos, há problemas adicionais que não foram contados para a população: um deles é a remoção dos milhões de metros cúbicos de terra sobre caminhões trafegando pelas ruas adjacentes; outro é obrigar a futura linha do metrô a acompanhar os desníveis do terreno ao longo do trajeto.
O prefeito ouvirá do grupo – que incluiu especialistas já experimentados em projetos semelhantes – que seja adotado como sistema construtivo a escavação em túnel. Seria operado por máquinas (os conhecidos “tatuzões”) que, à medida em que escavam e removem a terra até um único ponto extremo, executa ao mesmo tempo a concretagem do túnel, mantém constante o nível dos trilhos e evita curvas excessivas – requisitos essenciais para garantir a alta performance que se exige de um metrô.
Sai mais caro? Sai. Em compensação, o custo social seria menor, a intervenção na superfície seria enormemente evitada, ônibus continuarão trafegando e o comércio não será abalado.
O problema que ainda subsistirá consiste em saber como pagar a obra. Se o custo inicial já estava subestimado, com a nova proposta (se aceita por Fruet), o custo subirá ainda mais. Há também o custo político: ao tempo de Ducci, o governo estadual acenava com uma participação de R$ 300 milhões. A promessa nunca foi formalizada: apenas consta de um vago ofício assinado pelo secretário do Planejamento, Cassio Taniguchi, que não representa compromisso certo.
O eventual descumprimento dessa promessa exigirá da prefeitura a alocação de mais recursos próprios, o que significa ter de tomar financiamentos vultosos. Terá o município capacidade para fazer o endividamento? Essa é uma pergunta ainda sem resposta.
Por outro lado, já pareceu claro para a comissão que o projeto original, da maneira como foi concebido, não seria atrativo para a participação da iniciativa privada. Logo, os termos de parceria também precisam ser revistos e o edital de concorrência, refeito.
Fruet tem pressa em concluir as definições de técnica-construtiva, de viabilidade econômica, de operação e de agregação de parcerias. Mas – tão logo bata o martelo quanto às mudanças sugeridas (talvez nem todas) – se dispõe a promover audiências públicas para discutir o projeto.
Em tempo: grande parte das conclusões da comissão já havia sido prevista pelo urbanista Lubomir Ficinski. Ele era diretor de transportes da Urbs até outubro de 2011, quando comunicou a Luciano Ducci suas discordâncias e pediu demissão do cargo. Ficinski argumentava: melhorias no sistema de ônibus faziam melhor sentido do que construir um metrô.


10 comentários

  1. Sergio R.
    domingo, 10 de fevereiro de 2013 – 13:39 hs

    Esta talvez seja a principal característica que diferencia um político de um estadista. Um estadista enxerga 10-20-30 anos à frente. Um político enxerga resultados imediatos, com vistas à próxima eleição. Falar de demanda atual, não se preocupando com demanda futura, no mínimo é acreditar que as cidades não têm vida. Que vão ser eternamente do mesmo tamanho. O custo atual, com os contratempos mencionados faz parte do progresso. Da mesma forma que minha geração teve contratempos com a rua das flores, meus filhos hoje terão contratempos para que seus filhos tenham condições de viver com tranquilidade. O grande problema desses “técnicos” é que precisam criar fatos que justifiquem sua incapacidade de tocar obras. A cidade está estrangulada e não é com corredores de ônibus no presente é que vamos resolver os problemas que surgirão no futuro. Não existe solução para a sobrevivência das cidades de grande porte como Curitiba (o que aliás está muito atrasada), que não passe pelo metrô como solução. 14km é só uma parte do que Curitiba precisa.

  2. TRABALHADOR
    domingo, 10 de fevereiro de 2013 – 14:45 hs

    Concluindo o artigo: nós nunca teremos metrô em Curitiba. Como vocês devem ter notado entra prefeito, sai prefeito e ninguém tem peito para fazer. Metrô é uma solução cara, mas é algo ótimo para uma cidade, melhora em muito a qualidade de vida das pessoas, dá muito mais liberdade de deslocamento. Imagine se os governantes de Paris, Nova York ou São Paulo, ficassem repetindo o velho jargão que o metrô custava caro, até hoje eles não teriam o metrô, por isso é preciso mudar o discurso. Vamos tentar uma proposta alternativa, porquê preciso ser enterrado? Tem aquela velha idéia do Jaime Lerner, a do bonde…Dá pra fazer parceria com a inicitiva privada. Pra quem o metrô é ruim? Pros donos das empresas de transporte coletivo que atualmente tem a conceção…Vamos lá Gustavo, não nos decepcione, querer é poder…

  3. antonio carlos indignado
    domingo, 10 de fevereiro de 2013 – 18:20 hs

    A solução do urbanista por mais simplista que pareça, parece ser a mais lógica do que a do metrô. Por que não tentarmos então os Tranvia tão comuns em cidades européias? Mas aí surge um outro problema, este quase insolúvel, e não está na instalação dos trilhos e dos cabos elétricos, é o respeito às linhas do Tranvia, vai acontecer acidente a toda hora. Sonhar é muito fácil, difícil é materializar os sonhos. ACarlos

  4. ricardo crovador
    domingo, 10 de fevereiro de 2013 – 20:24 hs

    Achei bem bacana o projeto, transformando a avenida Paraná em parque. Só acho que deveriam aproveitar e fazer o trajeto todo, até o Pinheirinho de uma vez…

  5. Deutsch
    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013 – 0:14 hs

    Seria mais barato construir o monotrilho…mas vai depreciar os imóveis do batel, e aí já viu né? Mexer no bolso dos mais abastados não pode.

  6. Vigilante do Portão
    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013 – 4:12 hs

    Parece burrice.

    O projeto passou “MESES” na STN e no Ministério das Cidades,

    Recebveu aprovação do governo Federal e LOAS da Dilma.

    Em poucos dias, uma “comissão” diz que tá tudo errado…

    POLITICAGEM!

    Apenas isso.

  7. Engenheiro Bernardo Sayão
    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013 – 9:52 hs

    O Metro de curitiba,tem que ser elevado,poois qual será o custo de remor e conter o solo mole da região do pinheirinho,capão raso e conte-lo para não deslizar.Estacionamento subterrâneo,na Av.Republica Argentina,a que custo.Engenharia é
    projetar e construir o melhor e mais barato,isso é viabilidade economica financeira,os herdeiros do ca$$io,só entendem do financeiro,curitiba sempre inovou no transporte publico e ´e refencia,até para o BRT da Colombia,A solução é tão facil e simples,fazer o metro terreo e elevado,usando as calçadas das vias expressas,basta ir a são paulo e ver.Faltam homens publicos probos e capazes e corajosos,como foram Ivo Arzua Pereira,OMar Sabbag,Wolmy Bruel e Augusto Canto Neto.O papel de projeto aceita tudo,mas o engenheiro probo faz o melhor custo beneficio.Isso não é dificil,mas ´lamentavelmente está cada vez mais raro em Curitiba,no Paraná e no Brasil

  8. Kacetada
    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013 – 11:58 hs

    Metro de superfície é a soçução…

  9. Parreiras Rodrigues
    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013 – 12:23 hs

    Dr. Sayão tem razão. Curitiba tá em riba dum alagado. Meta o enxadão em qualquer canto prá ver minar água, minhoca dançar.
    O negócio é por riba mesmo. Mais barato que buraco, mais prático, mais panorâmico.

  10. sergio silvestre
    segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013 – 12:57 hs

    O que arrecadaram com pedagios no parana,daria para construir 18 metros iguais ao projetado.Que montanha de dinheiro hein!!!!!!!!!!

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