2012 não deixou saudade, artigo de Fernando Henrique Cardoso | Fábio Campana

2012 não deixou saudade, artigo de Fernando Henrique Cardoso

Do Fernando Henrique Cardoso, O Globo:

É quase uma constante começar o ano novo com um balanço sobre o que finda e com votos de esperança para o futuro. Neste janeiro, não fosse a reiteração da esperança, haveria dificuldades em manter o ânimo. Melhor imaginar que algo de positivo ocorrerá no futuro porque, do ano que se encerrou, pouco restou de bom.

Na vida pessoal, é distinto. Cada um fará o balanço que melhor lhe aprouver; eu pessoalmente nada de monta tenho a lastimar. Mas, nos acontecimentos públicos, quanto desalento. Ainda bem que a História não se repete automaticamente. Vade retro!

Comecemos pela economia e pelas finanças internacionais. Quando parecíamos estar saindo da recessão que se arrastava desde 2008, a recuperação mundial se mostrou mais lenta, e a crise na Europa, ainda mais profunda. É desolação para todos os lados.

Os americanos, mais pragmáticos, nadam de braçada em um mar de dólares trocados por títulos de solvência difícil, à custa do resto do mundo. Este não sabe o que fazer com a taxa de câmbio para se defender da inundação de dólares enquanto os Estados Unidos postergam o dia do ajuste final.

Sua taxa de desemprego continua elevada, embora não em ascensão; não exibem retomada vigorosa da economia, sem todavia cair no abismo fiscal anunciado pela imprensa, o fiscal cliff. Ou melhor, estão mergulhados nele, mas com escafandro: mantêm as ruas aquietadas e vão contornando sem violência os que protestam nas praças, como no caso do movimento Occupy.

Não conseguem, é verdade, escapar do abismo político das posições radicalmente distintas entre republicanos e democratas, muito maior do que aquele no qual está imerso o Tesouro.

Os dois partidos não se entendem para definir uma política fiscal que alivie as aperturas do Tesouro, pois os republicanos não aceitam impostos que taxem mais os ricos, nem apoiam medidas que deem alívio às dificuldades dos mais pobres, sobretudo na questão da saúde. A sociedade americana parece bloqueada.

Os europeus pretendem levar a sério o que os americanos dizem, não o que fazem. Pilotam a economia com rédea de ferro, ortodoxos como ninguém conseguira antes. E a economia, tal como o cavalo do inglês que, quando aprendeu a viver sem comer, morreu, vai de austeridade em austeridade desfazendo o tão penosamente construído modelo social europeu, rompendo, ou melhor, sufocando o Estado de bem-estar social e destruindo as bases de um pacto de convivência aceitável.

É governo caindo por todo lado, e desemprego fazendo as famílias gemerem sem ilusões. E nada de o PIB crescer nem de as contas públicas melhorarem: da crise de liquidez do setor bancário privado passaram à quebradeira dos Tesouros nacionais, enquanto o euro continua intrépido como se fosse bandeira da Alemanha triunfante.

Esta, por sua vez, torna-se capenga pela falta de quem compre as mercadorias que sua produtividade torna baratas em comparação com as produzidas além fronteiras.

Até a China, cujo aparelho produtivo, baseado em exportações, foi criado em aliança com as multinacionais, teve de ajustar-se às circunstâncias, pois lhe falta hoje o vigor do mercado externo de outrora.

O país reconstitui penosamente seus objetivos; por ora, essa transição não se completou, e o velho modelo já não produz os mesmos exuberantes resultados. Tenta aumentar o consumo doméstico e criar a rede de proteção social indispensável para dar ânimo às pessoas e fazê-las, em vez de poupar para a velhice e a invalidez, consumir.

Ao mesmo tempo, com demanda interna insuficiente, a China reduz suas compras de commodities e busca exportar mais os muitos produtos manufaturados que fabrica.

O Brasil sofre com isso. Se aqui a crise não produziu um tsunami, suas marolas converteram-se em marasmo, que obriga à navegação à vela em tempos de calmaria.

Se pelo menos a situação política mundial desse algum sinal de melhoria, haveria consolo. No final de 2011, meus votos foram pela construção de uma melhor governança global, processo que se avizinhava. Não foram atendidos, demos marcha a ré.

As esperanças suscitadas pelo G-20 viraram poeira, e, pelo menos até agora, a regulação do mercado financeiro virou balela.

No plano das relações de poder, apesar dos avanços já alcançados — as razoáveis relações sino-americanas, o deslocamento do eixo do mundo para a Ásia, a progressiva aceitação da Rússia como parte do jogo de poder mundial e o reconhecimento do peso político específico de alguns dos países de economia emergente, como o Brasil —, não houve progresso de monta.

O que parecia um ressurgimento que permitiria o reconhecimento do mundo árabe-islâmico como parceiro global — a Primavera Árabe — ainda é uma incógnita. Como se não bastassem a desastrada intervenção europeia na Líbia, que resultou em faccionalismo e violência, a revolta fomentada na Síria, com enorme custo humano, o fracasso da intervenção ocidental no Afeganistão e o congelamento de uma situação política precária no Iraque, há ainda o impasse nas relações palestino-israelenses.

Este, graças à aceitação pela ONU do Estado Palestino na condição de observador, junto com a enigmática revolução egípcia, poderá ser rompido. Sabe-se lá usando quais meios. Oxalá não os nucleares, pretextando a nuclearização do Irã.

Há, portanto, boas razões para desconfiar de que 2013 nos prepare dias melhores. Resta o consolo de que entre nós brasileiros, a despeito do já dito e do desapontador “pibinho”, que parece desenhar outro apenas melhorzinho para o ano em curso, pelo menos o Judiciário desempenhou seu papel.

Sem me regozijar pelo que não me anima — a desolação da cadeia para quem quer que seja —, é forçoso reconhecer que as instituições republicanas funcionaram. Há choro e ranger de dentes entre alguns poderosos. Há tentativas desesperadas de negar as evidências e acusar de farsa o que é correto.

Mas tem prevalecido a serenidade dos que acreditam, como diz a bandeira dos mineiros sobre a Liberdade, que a Justiça pode tardar, mas não falha. São meus votos.


23 comentários

  1. walter
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 11:11 hs

    quem é essa velhota metida a sociologa, para dizer algo de um governo de verdade. ele esperava que fossem vender o Brasil como ele fazia?

  2. OCIMAR
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 11:40 hs

    FHC,PRIMUS INTER PARES.

  3. OCIMAR
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 13:37 hs

    QUEM SÃO ESSES petistas IDIÓTAS PRA QUESTIONAR O GRANDE FHC.

  4. Helena
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 15:05 hs

    Boa pergunta,WALTER, isso é prova que você não o conhece bem, FOI UM GRANDE ESTADISTA, O MELHOR QUE O BRASIL JÁ TEVE ATÉ O MOMENTO…
    Se a economia continuar assim: despencando e acabando com o PLANO REAL, que estabilizou a moeda e acabou com a inflação, “essa velhota” QUE FOI RESPONSÁVEL POR ESTE GRANDE PLANO ECONÔMICO, terá que voltar para consertar o Brasil, NOVAMENTE…

  5. Osnei Arantes
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 15:37 hs

    TEM UM IDIOTA COM NOME DE WALTER, QUE CRITICA O FHC

    TENHA VERGONHA NA CARA SEU PETISTA METIDO.

  6. VERDADE
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 16:56 hs

    Eta velhote sem noção!!!

  7. valdir bassai
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 17:08 hs

    Essa velhota foi o presidente que colocou o Brasil nos trilhos.
    O sucessor está destruindo e muitos não estão percebendo
    ou não querem perceber o que as ratazanas do poder estão
    fazendo.

    FHC da de cinta no lula rapio.
    FHC fez e lula rapio surfou em cima do que FHC construiu.

    Queria ver o lula rapio pegando o brasil com inflação acima de 50%
    ao mês se faria alguma coisa.
    Lula rapio pegou a casa em ordem e começou a desmontar tudo e
    a Dilma “poste” continua a destruição.

    Pobre povo brasileiro que estão cegos com a Ptzada no poder,

  8. Eloiza
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 18:34 hs

    FHC tbm não deixou saudades!!!!!!!!!

  9. Parreiras Rodrigues
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 18:45 hs

    Na falta de argumento, a tentativa de desqualificação do crítico, além de ignorar os problemas financeiros externos e que influíram na tomada de medidas impopulares à época, mas que não impediram o arrendondamento da economia. Tsk…tsk…tsk….

  10. lapeano
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 19:07 hs

    Lucido, como sempre. Analise consistente. O Brasil continua sem investir, por isso nao cresce.

  11. Do Interiorrrrr......
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 19:22 hs

    Bela análise FHC. Pena que os fascistas só pensam em seu partidinho e não reconhecam que FHC é que foi um presidente de verdade. Ao contrário do PT, que levou o Brasil a conhecer o maior golpe contra a democracia jamais vista antes neste País. E agora, querem dar o golpe de misericórdia, quando os já condenados (sim agoara podemos dizer: bandidos) não querem largar o osso e querem descumprir uma ordem judicial ao não acatarem a decisão de cassação de mandato.
    Sob a alegação ridícula de privatização do FHC os menos informados não vêem a privatização do PT, quando inventam órgãos públicos para controlar as que o mesmo PT privatizou. Nisso vão-se cargos, favores políticos e muito dinheiro..

    Governo de verdade, não rouba. Não põe bandido como chefe. Não é mensaleiro. Não defende condenado. Não culpa os outros pelos próprios erros e não toma para si os benfeitos do plano real.

    Acreditar que não houve mensalão é ir contra a história, contra as provas analisadas e CONTESTADA por dez anos pelos bons advogados de defesa.

    Acreditar no lero-lero dos condenador é pior: é fazer-se de cego.

  12. Roberto Santos
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 21:07 hs

    Uma lição, para ler, analisar e dar um resultado. O Brasil ainda é um país de populistas e oportunistas. Com uma Câmara e um Senado como temos, jamais seremos um “primeiro mundo”. Uma Presidente bem intencionada, mas de origem “duvidosa”,amarrada a um Partido cheio de lama,corruptos,levianos, enganadores o que se pode esperar? Ainda se tem muito chão para se chegar ao fundo do poço. O Povo? é só um detalhe. Basta dar um pouco de samba,futebol e cachaça.

  13. pdavidactba
    domingo, 6 de janeiro de 2013 – 22:29 hs

    tudo pelo interesse de mus financiadores, este é seu lema e do PSDB.

  14. sergio silvestre
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 0:30 hs

    Então agora é a bandeira dos mineiros né FHC,antes era SERRA E ALKMIN,e uma banana pro AÉCIO.
    Agora se agarram neste ultimo BASTIÃO que pode salvar o PSDB.Os artigos do FHC é ruim como seus livros,fala 5% do BRASIL e o restante dos paises que nada tem a ver conosco.
    Mas a coisa agora virou pra MINAS,e sempre tem uns puxas de plantão que diz que tudo que muda passa por MINAS.
    veremos.

  15. Olho Vivo
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 9:04 hs

    Grande FHC, como sempre uma mente brilhante. Se não fosse este cidadão o Brasil do PT estaria pedindo esmolas ao países ricos até hoje, ou será que alguém aqui já esqueceu que Lula foi extremamente contra o plano Real? Já pensaram se Lula tivesse vindo antes de FHC? Será que ainda existiria Brasil? Do jeitinho PTista de administrar e roubar, eu acredito que não!

  16. Cesar
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 10:03 hs

    Cansei de ver uns e outros, talvez até uns que comentaram acima, chorando as pitangas e carambolas por causa desta “velhota” que vendeu o Brazil, que acabou com os salários de todas as classes trabalhadores, que pisou nos nossos Bons Velhinhos, os Aposentados, que deram o sangue pelo Pais, e agora vem com este trolólo em defesa deste decrépito, e ainda julgando que todos que são contra este sociologo de coisa de nenhuma (escreveu, esqueçam o que escrevi), que são todos do PT, sou PMDB, e vão defender quem merece….O turminha.

  17. Helena
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 10:12 hs

    Saiu uma pesquisa sobre personalidades de 2012, entre as pessoas altamente politizadas, sobre quem foi o melhor presidente que o Brasil já teve, imaginem quem ficou em primeiro lugar??? FHC, é claro, Lula em segundo e JK em 3º lugar, Isso porque é um “velhote sem noção”, segundo alguns petistas céticos, imaginem se fosse jovem e com noção???
    Não adianta PTzada, o FHC só não perfeito porque é um humano também pecador como todos nós, mas até o momento ele é IMBATÍVEL, ELE ESTABILIZOU A NOSSA ECONOMIA E ACABOU COM A INFLAÇÃO QUE DEGENERAVA NOSSO PODER AQUISITIVO…
    VIVA O FHC!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  18. Neto
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 12:25 hs

    O ‘Istadista” da Mirian Dutra, não criou vergonha na cara ainda?
    Deveria se por no seu lugar,e se esconder, depois do vexame do pequeno Thomaz, e continuar no maximo a ser presidente de “honra” dos tucanos

  19. Miriane
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 14:11 hs

    Precisamos dele de novo, antes que esse barco afunde de vez! Só os cegos (aqueles que NÃO QUEREM VER) não enxergam!…

  20. cesar
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 20:42 hs

    helena falou bem, entre os altamente politizados….
    mas isto, nada, nada…é nada mesmo.
    obrigado aragão (jornalista de umuarama) por suas tiradas.

  21. Teresa
    segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 – 22:26 hs

    Querido Walter:
    Qual das empresas “cabides de emprego” que foram privatizadas pelo governo do FHC que estão fazendo falta ao Brasil? Não consigo lembrar de nenhuma!!!!
    E depois, meu caro, o nosso “grande estadista Lulinha” criou muitos novos ministérios para todos os “companheiros” que estavam sem ter onde se encostar.

  22. Helena
    terça-feira, 8 de janeiro de 2013 – 9:47 hs

    Tereza, gostei de suas palavras, você sabia que o governo federal está criando MAIS 10 estatais para criar bastante emprego para sua turma se encostar???, E depois serão mal administradas e nós que pagaremos a conta. Você astá acompanhando como o governo fechou o balanço fiscal de 2012 de nosso país? Até a rica Petrobrás (caixa preta do governo) está dando prejuízo???Por isso eles são contra qualquer tipo de privatização, além de cabide de emprego, essas empresas servem para socorrer o governo de sua má GESTÂO.

  23. TRABALHADOR
    sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013 – 14:11 hs

    FHC o Mário Covas tá te chamando…

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