FHC em entrevista: Mas onde foi parar o debate? | Fábio Campana

FHC em entrevista: Mas onde foi parar o debate?

"Não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso na sua relação com o mercado" (Foto: Gilberto Tadday)

FHC: “No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento” (Foto: Gilberto Tadday).

Da Veja, entrevista por André Petry:

Honrado com um prêmio equivalente a um Nobel, o ex-presidente diz que o Brasil continua no rumo, mas reclama da apatia social e da falta de discussão política.

Com seu proverbial bom humor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso contou a uma plateia de 200 pessoas em Washington que só não aceitou ficar nos Estados Unidos nos anos 70, quando dava aulas no país, porque o convite não incluía uma cadeira de senador. “No Brasil, concorro e ganho”, brincou. Voltou e ganhou a cadeira. Aos 81 anos, FHC cumpriu uma carreira brilhante, que lhe rendeu, na semana passada, o prêmio Kluge, concedido pela Biblioteca do Congresso americano.

Equivalente a um Nobel na área de humanas, o prêmio vem com um cheque de 1 milhão de dólares, que ele pretende partilhar com os netos para ensinar-lhes a fazer ação social. Depois da premiação, em seu hotel na capital americana, ele falou do mundo e do Brasil na entrevista a seguir.

No exterior, até o ano passado o Brasil era uma estrela mundial, o país do futuro ao qual o futuro finalmente chegou. Agora, deu uma virada. Houve exagero antes ou agora?

Houve exagero tanto antes quanto agora. O Brasil melhorou muito, mas não foi tanto assim. Faltou a percepção de que o PIB cresceu mas a sociedade continua com problemas. Não somos uma sociedade organizada, com democracia enraizada, acesso à educação e à saúde de boa qualidade. O mundo começou a olhar para o Brasil como se tudo estivesse resolvido. O exagero não se deu apenas em relação ao Brasil. Fiz uma visita recente à China, e lá eles fazem questão de insistir que são um país em desenvolvimento. Olhe que a China é o segundo PIB do mundo. Mas, efetivamente, é um país em desenvolvimento. Como o Brasil.

A mudança da percepção externa sobre o Brasil não é fruto do ativismo econômico do governo atual?

A mudança começou quando apareceram alguns sinais de que talvez o Brasil fosse se desviar do caminho anterior, com as intervenções tópicas do governo na economia. Depois, a balança comercial deixou de ser tão favorável. O sujeito que tem bilhões de dólares investidos no Brasil começa a ficar com receio. Mas a situação não é tão negativa quanto está sendo pintada. O governo tem obrigação de se ajustar à conjuntura. A economia política é política por um lado, mas não é propriamente ciência por outro.

É uma navegação. Se tem uma ilha, desvia-se. Sem tem tormenta, reduz-se a velocidade. Só não pode perder o rumo. Agora, não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso no que diz respeito à sua relação com o mercado. É o comando do Estado sobre o mercado, mas não é estatista. Tanto que acabou de fazer a concessão dos aeroportos.

O que se percebe é que o DNA do governo atual é outro. O presidente Lula procurava disfarçar o seu DNA, se é que o tinha. A presidente Dilma é mais consequente com aquilo em que ela acredita. E ela acredita mais na regulação.

DNA Governo Dilma (Foto: Agência Brasil)

(Foto: Wilson Dias/ABr)

Há risco de o Brasil perder o rumo?

Não acredito. Falaram muito por causa da mudança cambial, mas é bobagem. Eu mesmo mexi no câmbio várias vezes. Já demiti presidente do Banco Central. O perigo está na tendência ao protecionismo. A Argentina tem tendência protecionista abertamente. O Brasil também, mas é topicamente. O protecionismo seria ruim para nós. Temos de aumentar a produtividade para poder baixar os preços e assim beneficiar a todos. Mas, quando se fecha o mercado, reduz-se a competição e, ao fazê-lo, reduz-se também o incentivo para as pessoas aumentarem a produtividade. Com o tempo, fica-se defasado. Nada disso é do interesse do Brasil.

Para manter o rumo, qual deve ser a prioridade do Brasil nos próximos anos?

O vento no mundo não sopra mais a nosso favor. Então, o desafio do governo da presidente Dilma é retomar algumas reformas e fazer o que o governo do presidente Lula não fez durante o bom momento do crescimento econômico, que é cuidar do investimento e da poupança. No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento.

A produtividade da nossa indústria perdeu em comparação com a de outros países. Mas não é a produtividade de dentro da fábrica. É de fora. São as estradas, o custo da energia, os aeroportos, o sistema tributário, a educação. Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí.

A crise no capitalismo ocidental está ajudando a tornar o capitalismo de Estado da China mais atraente?

Há muita insatisfação social nos países ocidentais e, daí, há um fascínio com o que se imagina que seja o outro lado. Mas a China tem um modelo complicado. Ali, deu-se a aliança do capitalismo de estado com as grandes corporações internacionais. O preço é menos liberdade. Não é um caminho para o Brasil. Nós somos mais ocidentalizados, estamos acostumados à liberdade. E PIB não é tudo. Nos anos 70, nosso PIB cresceu muito mas as pessoas não foram beneficiadas. Havia concentração de renda. Monopólios, públicos ou privados, concentram renda. Só ter grandes empresas concentra renda. É o perigo do Brasil de hoje.

Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí (Foto: stock.XCHNG)

(Foto: stock.XCHNG)

Mas o Brasil não vive um processo de desconcentração de renda?

A transferência de renda saudável é para baixo, mas também temos a transferência para cima. O BNDES pega dinheiro do Tesouro e empresta a empresas com juros subsidiados. Quem paga o subsídio? Nós, os contribuintes. Dá cerca de 20 bilhões de dólares. A Bolsa Empresa está forte no Brasil. É provável que na década de 70, com grandes estatizações e grandes empresas, a renda tenha se concentrado. Agora, não será igual porque temos os dois movimentos: concentração para cima e desconcentração para baixo. O Brasil hoje é o país da Bolsa Família e da Bolsa Empresa, o que resultou na felicidade geral. Daí o apoio ao governo.

Isso é ruim?

Primeiro, a felicidade é quase geral. A classe média ficou de fora. Mas, com a prosperidade das bolsas, as pessoas perderam a motivação para debater. Não há mais debate. O debate político-partidário perdeu sua centralidade. Não é um fenômeno só brasileiro. A Europa vive isso, os EUA também, mas com menor intensidade. No nosso caso, isso decorre da desconexão entre o mundo institucional da política e a sociedade. Passou a haver uma relação direta do Executivo com o povo, pulando o Congresso. É uma tendência brasileira antiga, mas se acentuou. Toda hora dizem que não temos oposição no Brasil. Está errado. A oposição está dentro do Congresso, só que o Congresso não tem repercussão na rua. Os partidos saíram da sociedade e se aninharam no Congresso ou no governo. O partido com mais vínculo com o movimento social era o PT.

Com o PT no governo, o movimento social virou cadeia de transmissão da vontade oficial. Perdeu vitalidade. O debate se deslocou para a mídia. É por isso que o governo acusa a mídia de ser oposição. Porque é a única instituição que fala e o povo ouve.

Como os partidos podem voltar a se reconectar com a sociedade?

Eles precisam tomar posição diante dos fatos correntes. Como têm medo de assumir posições, os partidos não falam nada. Legalização das drogas? Silêncio. Aborto? Silêncio. Relação do estado com a religião? Silêncio. Qual a melhor maneira de resolver a questão do transporte? Silêncio. São questões do cotidiano. Questões que levariam a população a se identificar com os partidos. A própria sociedade civil, antes vibrante e ativa, se encolheu. Sempre digo: se você não politiza, não acontece nada. Veja o mensalão. Se Roberto Jefferson não tivesse dramatizado e politizado, talvez o caso não tivesse a consequência que teve. Política requer que se tome partido, que se tome posição. Tem de dizer se está certo ou se está errado. A política é valorativa.

O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, foi indiciado por crime de formação de quadrilha

(Foto: Veja)

Se o debate político perdeu vigor no Brasil, mas também na Europa e nos EUA, pode-se falar em crise da democracia?

Fala-se nisso, mas não concordo. Ninguém quer não democracia. Mas é preciso ter um mecanismo pelo qual a população possa participar do processo decisório. Do debate, do antes. Só consegui fazer reformas porque houve muito debate e discussão. Agora, não. Quem debateu as quatro usinas da Petrobras? Quem debateu o trem-bala?

Se os réus do mensalão forem absolvidos pelo Supremo Tribunal, qual será o tamanho do desastre?

Não sou juiz e não sei qual deve ser a sentença. O que sei é que, se houver algo a ser corrigido, e for, será um marco histórico. Até hoje, o povo sente que gente importante pode fazer o que quiser e não paga o preço. Uma absolvição, se for percebida como algo por baixo do pano, vai referendar isso. É um julgamento histórico porque uma sociedade se forma de símbolos. Quando Lula foi eleito, preparei a transição mais civilizada possível. Entre outras razões, porque Lula era o primeiro líder popular sindical eleito presidente. Simbolicamente, é importante.

Faltou diplomacia brasileira na crise que resultou no afastamento do presidente do Paraguai?

Faltou diplomacia, mas não só brasileira. De todo mundo. Se eu pudesse ter interferido, aconselharia evitar o afastamento faltando dez meses para o fim do governo. A ação do Paraguai foi muito rápida, o que é politicamente inconveniente, mas não foi ilegal. Agora, grave também foi a entrada da Venezuela no Mercosul na ausência do Paraguai. Sou a favor da Venezuela no Mercosul. Mas ela tinha de ter cumprido o requisito básico de adotar a tarifa externa comum.

O Brasil está perdendo o foco na América do Sul ou perdendo influência?

Está perdendo influência. Antes, tínhamos uma influência não discutida, automática e não anunciada. No meu governo, houve várias crises no Paraguai. Lidamos com elas de maneira efetiva e discreta. O Peru e o Equador estavam em guerra. Ajudei muito na paz entre esses países, mas nunca anunciei isso. Agora, com Hugo Chávez na Venezuela, criou-se outro polo de influência. Tenho a impressão de que o Brasil prefere não se contrapor. É como se fôssemos da mesma família. Sei que ele é meu primo, meu primo é meio canhoto, eu preferia que ele não fosse, mas é meu primo. O Brasil fica um pouco tolhido de tomar posições para não ser percebido como alguém que saiu da família.

Há analistas dizendo que a relação entre estado e mercado será definida pelo que os Brics fizerem. O senhor concorda?

Ninguém vai transformar a Europa numa China, ou vice-versa. É preciso entender que há diversidade na cultura, na forma de organização política. A Rússia é uma plutocracia autocrática. Isso não se aplica ao Brasil, à Índia nem à China. A China é um mandarinato ilustrado com responsabilidade popular. Na minha visita ao país, fiquei bem impressionado com o debate na universidade. Eles estão voltando a falar em termos confucianos da virtude. O funcionário público, o mandarim, deve ser competente, fazer concurso e ter a virtude de servir o público. Na Rússia, não tem isso. No Brasil, o estado sempre foi muito importante, continua sendo e sempre será. Há diferenças. Nos EUA, fala-se em universalizar a saúde e eles entram em pânico. No Brasil, quem vai dizer que saúde gratuita é medida socialista? Não teremos um modelo só no mundo. Haverá vários. Os países árabes, islâmicos, não vão adotar comportamentos idênticos aos do Ocidente. Isso é ilusão do ocidentalismo e seu poder militar, que vinha para impor a cultura. Isso não dá mais. O desafio é como conviver com as diferenças.

China em desenvolvimento (Daniel Berehulak/Getty Images)

(Foto: Daniel Berehulak/Getty Images)

O que seguirá unindo o mundo?

A noção de direitos humanos está voltando a ter peso. Sem perceber, estamos recriando a ideia de humanidade. Quando Hegel falava de humanidade, Marx dizia que, enquanto houvesse classe social, seria a classe. Só quando todos fossem iguais, poderíamos falar em humanidade. Agora, por causa da bomba atômica, do meio ambiente, é preciso pensar em humanidade. Gorbachev diz isso. Temos de pensar no conjunto, no que é universal e afeta a todos. Voltamos a ter de nos preocupar com os direitos que pertencem à humanidade. Temas como igualdade de homem e mulher, como tortura. O mundo terá de se organizar a partir de um núcleo de valores que afetem a humanidade, mas há que ter limite. Não podemos usar isso para impedir manifestações de diversidades culturais que são normais. Inclusive na política. O próprio mercado, hoje praticamente universal, sofre restrições diferentes aqui e ali. Vai continuar sofrendo. Esse é o desafio para o século XXI.


10 comentários

  1. Ocimar
    sexta-feira, 20 de julho de 2012 – 15:52 hs

    HOMEM DE CARATER,ELEGANTE,UM VERDADEIRO ESTADISTA,AO CONTRÁRIO DA MULLA MANCA QUE SÓ SABE ENCHER A CARA DE CACHAÇA,ANALFABETO DE PAI E MÃE,SÓ GANHA DO FABULOSO FHC NA ARTE DE GARFAR DINHEIRO PÚBLICO,,ALIÁS O SAFADO É TÃO IGNORANTE QUE SE MOSTRAR UM LIVRO PARA ELE,O CARA FOGE IGUAL O DIABO FOGE DA CRUZ.

  2. sergio silvestre
    sexta-feira, 20 de julho de 2012 – 18:01 hs

    Que ação social ele promoveu no PAIS.
    Só se foi na frança,e este premio deveria se chamar traira.
    Foi o que ele fez com o grande ITAMAR FRANCO.
    Não vou dizer aqui que ele é desonesto,mas foi imcompetente
    sempre na moita.
    Parece até dois governadores tucanos que eu conheço.
    Esse premio deve ter sido dado,por ele ter entregado de graça
    para os gringos,quase tudo.
    Sorte que sobrou a petrobras e algumas empresas eletricas.
    Deve entregar para os filhos temporão esse dinheiro,já que quando se chega aos oitenta,não se consome muito vinho de bourbon.

  3. Pedro Rocha
    sexta-feira, 20 de julho de 2012 – 18:25 hs

    Ô loco, Ocimar! Assim, você acaba com o pouco que sobrou do guaipéca Lulla!
    O cara tá que só fica zanzando pelas ruas, roendo a canela de um aqui; cheirando o calcanhar de outro acolá, sem eira nem beira, e você ainda quer comparar isso, com o grande estadista FHC?
    Compara ele com essas coisas que ele admira, chama de MEU CARO AMIGO, como Fidel, Chávez; Evo; Ahmadinejad, o Kadafão, que graças a Deus, já está no colo do capeta, e outras pestes que ele tanto adora!
    Essa currumulha aí citada, é tudo igual. Tudo bandido, e ele vai se sentir melhor perto deles. Aliás, ele é um deles!

  4. antonio carlos
    sexta-feira, 20 de julho de 2012 – 18:49 hs

    Parabéns FHC, você fez a tua parte, tenha orgulho do que fez. ACarlos

  5. Cajucy Cajuman
    sexta-feira, 20 de julho de 2012 – 19:02 hs

    Ótima entrevista. Foi claro, objetivo, correto e não agrediu ninguém. É assim que se faz uma sociedade melhor. Sem ofensa, sem bravatas, porém debatendo idéias.

    Assim também se faz um Brasil melhor.
    Um estadista, sem dúvida.

  6. Gilmar
    sexta-feira, 20 de julho de 2012 – 20:50 hs

    Sem produção existe consumo??? E ele cuidou do que… não era do consumo nem da produção… cuidou só da ação social dos netos???

  7. Caio
    sexta-feira, 20 de julho de 2012 – 22:04 hs

    Quando é alguém da burguesia que ganha qualquer coisa é equivalente a Nobel. Por que existe a necessidade de comparar o prêmio? Caso fosse importante, todos conheceriam. Prêmio merecido por ter sido a filial do Bill Clinton na América Latina. Ganhar prêmio nos EUA ele ganha, agora quero ver ser reconhecido no Brasil. Leiloeiro.

  8. Osiris Duarte de Curityba
    sábado, 21 de julho de 2012 – 8:04 hs

    Orgulho-me de ser brasileiro, quando deparo-me com um homem como Fernando Henrique Cardoso.

  9. jobalo
    sábado, 21 de julho de 2012 – 23:38 hs

    Isso mata a petezada de inveja, esse me da orgulho de dizer sou brassileiro, , no governo ddo spo barbudo , e da guerrilheira eu me escondo.

  10. Francisco
    domingo, 22 de julho de 2012 – 11:10 hs

    Equivalente ao Nobel?Cite só uma pessoa importante que tenha recebido esse premio da biblioteca do congresso americano.
    A Veja faz escola ate por aqui

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