Os donos do poder, segundo Raymundo Faoro | Fábio Campana

Os donos do poder, segundo Raymundo Faoro

Os intelectuais brasileiros descobriram Max Weber em 1958, quando Raymundo Faoro publicou o seu livro “Os Donos do Poder”, uma visão weberiana da história deste Brasil brasileiro. Nem por isso a intelligentsia nativa soube ler as passagens mais instigantes ou mais didáticas de Faoro – e de Weber.

Faoro surgiu na contramão dos esquemas de interpretação marxista hegemônicos naquela época e que ainda hoje predominam na academia. Lástima. Teríamos entendido que nem tudo se explica pela luta de classes. Perceberíamos um sistema de forças políticas a pairar acima das classes. Uma camada que mudou e se renovou, mas nunca representou a Nação. Prevaleceu, no entanto, a viciada interpretação da história como expressão da infraestrutura econômica.

De D. João I a Getúlio Vargas e seguramente até estes dias de Dilma, numa viagem de seis séculos, uma estrutura político-social resistiu a todas as transformações fundamentais. Durante todo esse tempo, o patrimonialismo estatal se manteve, os olhos voltados para a especulação, o lucro e a aventura.

A incapacidade de decifrar a natureza patrimonial do nosso Estado, herança recebida da metrópole, propiciou equivocadas interpretações da formação histórica do Brasil. Tanto em Portugal como no Brasil a “independência sobranceira do Estado” em relação à sociedade não seria uma exceção de certos períodos históricos, mas a constante da evolução dos dois povos.

Para Faoro, “o poder – a soberania nominalmente popular – tem donos que não emanam da Nação, da sociedade, da plebe ignara e pobre. O chefe não é um delegado, mas um gestor de negócios e não mandatário. O Estado, pela cooptação sempre que possível, pela violência se necessário, resiste a todos os assaltos, reduzido, nos seus conflitos, à conquista dos membros graduados de seu estado-maior. E o povo, palavra e não realidade dos contestatários, o que quer ele? Este oscila entre o parasitismo, a mobilização das passeatas sem participação política e a nacionalização do poder {…} A lei, retórica e elegante, não o interessa. A eleição, mesmo formalmente livre, lhe reserva a escolha entre opções que ele não formulou”.

A diferença entre classe e estamento reside no fato de a primeira ser determinada economicamente, enquanto o segundo é, antes de tudo, uma camada social: “os estamentos governam, as classes negociam”. Em “Os Donos do Poder”, Raymundo Faoro se preocupa com o estamento político: aquele em que os membros têm consciência de pertencer a um mesmo grupo – qualificado para o exercício do poder – e que se caracteriza pelo desejo de prestígio e honra social. O estamento é típico das sociedades em que a economia não é totalmente dominada pelo mercado, como a feudal e, no caso português, a patrimonial. Contudo, encontra-se também, de forma residual, nas sociedades capitalistas. Representa um freio conservador, voltado para si mesmo e preocupado em assegurar as bases do poder: aliado ao Estado português, o estamento propiciou-lhe a organização política capaz de empreender a aventura ultramarina, que nunca poderia ter sido obra de particulares.

A exploração sistemática dos cargos –“no país, os cargos são para os homens, e não os homens para os cargos”, dizia um ditado da época – também caracterizava o Estado patrimonial de estamento, cujo objetivo era a obtenção do máximo proveito possível. A Índia era então uma grande vinha a que os funcionários acorriam para suas abundantes vindimas. A nobreza ociosa e ostentatória nutria-se da economia dirigida pelo estamento. A corrupção grassava, e o cargo conferia nobreza: onde havia comércio, estabelecia-se um aparelho administrativo: “a administração segue a economia, organizando-a para proveito do rei, senhor e regente do tráfico”.

Nem a cultura forneceu solução alternativa, sufocada pela carapaça administrativa. A máquina estatal permaneceu portuguesa. “Hipocritamente casta, duramente administrativa, aristocraticamente superior.”

Pois, pois, o nacional-desenvolvimentismo de evocação popular ainda é a marca dos governos e dos governantes neste país abençoado por Deus e bonito por natureza. Talvez agora, mais de meio século depois de editado pela primeira vez, a obra de Faoro possa iluminar cabeças e apontar novos caminhos.

Quando saiu “Os Donos do Poder” – e os intelectuais brasileiros souberam pela primeira vez da existência de Max Weber –, o presidente do Brasil era Juscelino Kubitschek, o qual passou à história como herói da democracia e do progresso. Tinha em seu governo um ministro da Justiça chamado Armando Falcão e apresentou como sucessor seu ministro da Guerra, o marechal Lott.

JK viveu os efeitos de um período de grande prosperidade mundial e o Brasil se ampara em grandes equívocos. Mas tudo bem. Há porções da esquerda local que veneram a memória de Getúlio Vargas, um ditador tropical que torturou, matou, censurou e imitou Mussolini. A mesma esquerda que por aqui venera certo tipo de político bufão e autoritário.


5 comentários

  1. tony
    sábado, 21 de janeiro de 2012 – 22:33 hs

    Este papo cabeça parece que não despertou a atenção da Salete? Por quê será? A mulher dá palpite até em resultado de partida de botão. ACarlos

  2. salete cesconeto de arruda
    domingo, 22 de janeiro de 2012 – 20:05 hs

    É bom por isso que LULA É O MAIOR BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS e DILMA VAI FICAR NA HISTÓRIA BOA DESTE PAÍS pois somente eles e ninguém mais estão minando essa tal ELITE que sempre tenta retomar os velhos métodos. Basta ver como age o PIG. Não por acaso eles odeiam LULA/DILMA!

  3. Elton
    segunda-feira, 23 de janeiro de 2012 – 9:07 hs

    Sinceramente Salete, Nem FHC nem Lula e nem Dilma (nem Deus) será capaz de mudar esse nosso jeitinho brasileiro de levar a vida… é cultural. Se vc tivesse lido o livro não teria tanta audácia para afirmar isso. Se vc tivesse lido o livro do Sergio Buarque de Holando (Raízes do Brasil) estaria ainda mais convencida de que o Lula não é 10% do que diz ser. Se o Sergio Buarque de Holanda (idealizador, fundador e 3º a se filiar no PT) estivesse vivo com certeza teria cortado relações com o Lula e com o PT. Se vc soubesse um pouco de política partidária no Brasil ficaria de boca fechada antes de dizer suas verdades emocionais. Se vc for coerente vai assumir que o PT, como todo grande partido político no mundo cresceu, se ramificou e se degenerou, dadas as suas alas de interesse. Vamos canonizar o Lula (Santo Lula). Vc acha certo um presidente da República no apagar das luzes, em seu ultimo minuto de governo deixar a sua disposição carro oficial, motorista e segurança? Não estou defendendo FHC nem dizendo que o Lula não tenha feito nada de bom para o Brasil, mas mesmo sendo simpatizante com o PT vc deveria ser mais coerente e enchergar os erros e desmandos desse partido que pra chegar ao poder teve que fazer alianças inimagináveis no campo ideológico.

  4. Erick Silva dos Santos
    terça-feira, 4 de setembro de 2012 – 20:52 hs

    Fábio, Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil” de 1936 já havia se utilizado do modo weberiano de análise para interpretar o Brasil. Não foi apenas em 1958 que os intelectuais brasileiros descobriram Weber.

  5. Ercíla Lemes
    terça-feira, 20 de outubro de 2015 – 3:59 hs

    Melhor comentário que já li, sobre a podridão social e política brasileira, da colonização até os dias de hoje.

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