Trauma de bode | Fábio Campana

Trauma de bode

De Rogerio Distefano

Até hoje não entendi como o bode entrou no prédio. Nem tentei, considerando quem trouxe o bode e para que fim trouxe o bode. Vocês também vão entender. Tinha que ter arte ou magia em fazer subir um bode pelo elevador até o nono andar. Mais ainda driblar a atenção dos moradores, nesse entra-e-sai do prédio de quarenta apartamentos. A menos que os porteiros, sempre coniventes e cúmplices, tenham facilitado. Embora ache que com eles também aconteceu magia, sempre tive um pé atrás com os porteiros, desde aquele que roubou a gasolina e encheu de água o tanque de meu carro.

Quem trouxe o bode foi o pai, homem forte, alto, vozeirão, emissor de estranho magnetismo. A família era estranha, o pai não falava com a mãe e vice-versa, e a filha só falava com a mãe. Isso, digamos, ordinariamente, porque às vezes uma estranha algaravia vinha de dentro do apartamento. Pai, mãe e filha apresentavam expressões algo místicas, sem variação, os olhares mortiços e fixos num ponto qualquer do horizonte. Cruzava com mãe e filha na rua de vez em quando. Melhor, não cruzava, atravessava onde estivesse, assustado com as duas, braços dados, falando entre dentes – podia ter sortilégio contra mim.

Não deixe de ler o texto completo do colunista da Revista Ideias.


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