O sertanejo da cidade grande | Fábio Campana

O sertanejo da
cidade grande

A dupla Jota Junior e Rodrigo. Foto: Rafael Miashiro

Paula Valeska Ferronato para a Revista Ideias deste mês

Com melodia simples e melancólica, a música sertaneja antigamente era prestigiada mais pelas pessoas do interior. Porém, com o surgimento de novas duplas e a modificação do sertanejo para sertanejo universitário, a conquista por admiradores vem crescendo cada vez mais. Atualmente, as músicas tratam de temas que se aproximam da realidade dos jovens das grandes cidades, como festas, estudantes, mulheres e outros. As novas duplas também costumam gravar sucessos do passado, mas com novas características e adaptações para agradar o público atual.

Conhecido como música caipira, o sertanejo surgiu em 1910, quando Cornélio Pires resolveu trazer as músicas do interior para a cidade grande. Cornélio Pires era escritor e jornalista e, em 1912, lançou o livro “Musa Caipira”, com versos da época. O primeiro arquivo registrado de um conjunto que cantava música sertaneja também tem início com Cornélio; o grupo se chamava “A Turma Caipira de Cornélio Pires”, formada por violeiros muito conhecidos naquele tempo. Cornélio gravou seu primeiro álbum em 1929, sendo este o primeiro material fonográfico no estilo.

Na década de 1930 surge a dupla Alvarenga e Ranchinho, uma das mais importantes de todos os tempos. Muitas foram surgindo depois, cantando temas como a tristeza da vida no sertão do Brasil e outros similares. Em 1939, a dupla Raul Torres e Serrinha introduziu o violão na música sertaneja e criou o primeiro programa de rádio dedicado a esse estilo, transmitido pela Record, que se chamava “Três Batutas do Sertão”. Com isso, o movimento que se estabelecia apenas no eixo São Paulo-Minas Gerais se expandiu para outras regiões, como Rio Grande do Sul, Goiás, Pernambuco e outros.

A explosão da música sertaneja no país se deu na década de 1980, quando começou a comercialização em larga escala. Os novos artistas traziam uma releitura de sucessos internacionais e mesmo da Jovem Guarda. Surgem nessa época Chitãozinho e Xororó (paranaenses radicados em São Paulo), Leandro e Leonardo (de Goiás) e Zezé di Camargo e Luciano (de Goiás).

AS DUPLAS PARANAENSES 

No Paraná, não podemos deixar de falar de Nhô Belarmino (Salvador Graciano) e Nhá Gabriela (Júlia Alves Graciano). Com 15 anos de idade, em 1935, Nhô Belarmino se apresentava junto com a irmã, Nhá Quitéria (Pascoalina) em festividades da região de Rio Branco do Sul, sua cidade natal. A dupla se apresentou durante quatro anos. Com o casamento, Nhá Quitéria parou de fazer shows. Depois ele começou a se apresentar com sua esposa, a Nhá Gabriela. Uma das canções mais famosas que fizeram história por aqui é “As mocinhas da cidade”.

Outra dupla conhecida pelo Paraná é Leonel Rocha e Campos, que estão no cenário musical desde 1975. Leonel Rocha, além de cantor, também é apresentador de rádio e televisão. Criou e apresentou o programa Nossa Terra, Nossa Gente, apresentado durante 10 anos e exibido pelo SBT no Paraná. Leonel Rocha explica o rumo que o sertanejo vem tomando e o por quê desta evolução que agrada tanto os jovens. Segundo ele, a música sempre muda conforme as gerações. Porém, Leonel percebe algum tipo de preconceito. “Até pouco tempo atrás, os jovens não queriam admitir que gostavam de música sertaneja e caipira. Como não houve jeito de esconder, eles rotularam o sertanejo como ‘universitário’. As novas duplas usam um linguajar mais jovem, com refrãozinho mais agitado. Mas já está passando essa moda de sertanejo universitário e está voltando para o nosso sertanejo raiz, onde tudo se originou”, comenta. Ele também destaca o retorno da viola nas canções mais atuais, instrumento usado na música raiz.

Leonel começou a tocar aos nove anos e sempre gostou de música caipira. Ele conta um pouco sobre o nascimento da paixão pela música: “Ficava na frente do espelho cantando, querendo ser como os cantores famosos. Na época, existiam livrinhos de moda de viola, com cantores como Tonico e Tinoco e Cascatinha e Inhana. Eu adquiria esses livrinhos e ficava encantado. Eu era muito fã de Tonico e Tinoco”, revela. Leonel tinha o sonho de cantar junto com os ídolos e acabou fazendo shows ao lado da dupla.

Sobre as mudanças na música sertaneja, ele acredita que o estilo “universitário”, que está em voga hoje, não faria sucesso quando ele começou a tocar. “Tudo vem mudando e evoluindo. Essa modernização que virou consumo chegou agora. A música veio mais apelativa, para a juventude brincar e dançar”, finaliza.

NOVO ESTILO 

Com sua nova roupagem, novo estilo, novas letras, novas caras e novas vozes, a música sertaneja vem quebrando todos os conceitos. Com isso, os novos talentos conquistam mais espaço no mercado musical. É o caso dos irmãos e companheiros de dupla, Jota Junior e Rodrigo, conhecidos em todo o Brasil pelo seu trabalho desenvolvido há mais de 25 anos.

Nascidos em Curitiba, quando crianças se mudaram para a cidade de Guamirim, interior do Paraná. Foi na cidadezinha que eles tomaram paixão pelo sertanejo. Ainda bem jovens, Jota Junior com seis anos e Rodrigo com sete, eles começaram a cantar por influência do pai, que também era músico.

No entanto, como a cidade era pequena e o trabalho para a jovem dupla se tornava limitado, resolveram voltar para Curitiba, para tentar aperfeiçoamento musical. Passados alguns anos, a dupla desviou o foco do sertanejo e começou a trabalhar com outros gêneros musicais. Porém, como o estilo estava no sangue, a mudança não durou muito tempo.
Jota Junior e Rodrigo estudaram no Conservatório de Música do Paraná e começaram a carreira profissional aos 15 e 16 anos, vivendo a partir desse momento exclusivamente da música. De lá para cá, participaram de vários festivais, viajaram o Brasil fazendo shows e gravaram cinco álbuns, sendo o quinto nesse último ano. Quase todos os projetos são autorais, sendo a maioria das letras do Jota Junior e a produção musical do Rodrigo.

É possível ouvir por aí algumas pessoas que definem essa nova onda de sertanejo como “universitário”. Ao ser perguntado sobre isso, Rodrigo não diferencia o sertanejo universitário do sertanejo romântico. “Nunca gostei de analisar gêneros musicais nesse ponto de vista. Acho um erro rotular o sertanejo desse jeito. São ramificações de estilos e ritmos dentro de um mesmo gênero, e essa variedade é o que enriquece e fortalece o sertanejo dentro do cenário musical nacional”, comenta o músico.

Analisando a forma como o sertanejo toma conta do cenário musical há anos, Jota Junior enfatiza o motivo e características pelos quais as pessoas não se cansam do estilo: “O sertanejo toma conta do meio musical há vários anos. É o gênero mais estável no meio musical brasileiro e domina o mercado há décadas. Seus arranjos e melodias são marcantes, possui uma variedade imensa de ritmos, e o principal: conta a história das pessoas com uma linguagem fácil. Quem nunca se identificou com alguma canção? Quem nunca escutou alguma música sertaneja e pensou: fizeram essa música pra mim?”, explica.

E quem acha que o trabalho em dupla é fácil se engana. Há conflitos de opinião e divergências entre os músicos, que precisam saber lidar com isso para que as atividades tenham sequência. Para a dupla, isso soma conhecimento. “Muitas vezes discutimos por divergência de opiniões, mas de certa forma aprendemos a lidar com essas diferenças. Hoje, usamos isso a nosso favor, como algo que vem pra somar no trabalho. O amadurecimento e as experiências das quais a gente se submeteu ao longo da carreira mostraram os atalhos para o consenso e nos prepararam para o futuro”, contou Rodrigo.

MUDANÇA DE VIDA

Mas é fácil assim se tornar uma dupla sertaneja de sucesso? Engana-se quem enxerga dessa forma esses jovens que sobem ao palco e agitam o público a noite inteira. Quem olha para a dupla Huesley e André não imagina o que os dois já fizeram antes de começar a trabalhar profissionalmente com música. Huesley já foi lavador de carros e também designer gráfico pois, na época, o que ganhava cantando não era o bastante. Com André foi a mesma coisa – antigamente o cantor era sapateiro. Atualmente, Huesley vive apenas da música e André, além da profissão de cantor, é também administrador de empresas.

Nascido na cidade de Araucária, Weslen Bachega (Huesley) tem 21 anos e atualmente reside na cidade de Rio do Sul. Weslen começou a cantar com 11 anos, sempre com o incentivo de seus pais. Na época, participava do coral de uma Igreja em Araucária tocando atabaque, depois passou a cantar e tocar violão. O jovem cantou sozinho até os 14 anos, participando e ganhando importantes festivais. Após essa experiência, tentou iniciar uma dupla, que não deu certo. Em 2007, Weslen conheceu André; foi então que formaram a dupla Huesley e André, que vem fazendo sucesso. Já André tem 26 anos e começou sua carreira um pouco mais tarde, aos 18 anos. Cantou em festivais, concursos de televisão (Pop Stars, Fama e Ídolos), bares e feiras.
De acordo com Huesley, ser cantor de música sertaneja é muito satisfatório, pois ele consegue ver seu trabalho realizado no público. “Não tem preço que pague quando escutamos as pessoas cantando a nossa música”, declarou Huesley.

Segundo André, seu maior sonho é poder ajudar a família com seu trabalho musical: “Meu maior sonho é poder ajudar as pessoas que amo e que precisam, através da minha música”, conta. É assim a vida desses músicos, que tem como objetivo conquistar as pessoas por meio de suas canções e um dia poder ter seu trabalho reconhecido em todo o Brasil.

AS CASAS SERTANEJAS

Música sertaneja para todos os lados. O surgimento de novas casas sertanejas em Curitiba é fato. Até mesmo locais que não tocavam sertanejo, hoje mudaram totalmente seu estilo ou incluíram o gênero em algum dia da sua programação.

Es Vedrà, Wood’s Bar, Wood’s Pub, Yankee Bar, Victoria Villa, Santa Marta, Rodeo Country Bar, Rancho Brasil, Hold’em Country, Seis e Meia, Alice Bar, Barn Country Music, Black Bull, Território Sertanejo, Espaço Sertanejo Batel, Akustiko Bar, Ustin Bar, Santa Causa Lounge, Momentai Music & Fun, Dixies Bar, O Boteco da Bola, Ahbarzen, Papo Furado – são algumas casas do gênero. Também há algumas na região metropolitana, como o Recanto Sertanejo e o Armazém Universitário em São José dos Pinhais e o Wensky Beer Pub em Araucária.
Segundo o gerente do Es Vedrà, Marcio Antunes Rodrigues, quando a casa foi implantada, ela não tinha na sua programação o sertanejo. “Quando a casa foi inaugurada, não tocava sertanejo. O estilo foi incluso como atração há mais ou menos um ano, por estar em alta no mercado da música”, afirmou. Marcio disse também que, depois que a casa notou o quanto a música atraia público, o gênero prevalece no lugar. Agora, o Es Vedrà abre quatro dias na semana, sendo que três deles têm o sertanejo na programação.


10 comentários

  1. Oinotna Somel
    segunda-feira, 11 de julho de 2011 – 3:00 hs

    O texto mostra uma falta de conhecimento muito grande sobre o assunto. Nos anos 80, além de Chitãozinho e Xororó, quem fez um enorme sucesso foi João Mineiro e Marciano, que chegou até a ter programa no SBT, onde Chitão e Xororó, também tinham. Lenadro e Leonardo são do final dos anos 80, (apenas no terceiro disco em 1989, fizeram sucesso com a música ‘Entre tapas e beijos) e Zezé di Camargo e Luciano gravaram o primeiro disco, em 1991.
    Outras duplas de sucesso nos anos 80, Milionário e José Rico, César e Paulinho, Matogrosso e Matias, além do Trio Parada Dura.

  2. Paulo tadeu
    segunda-feira, 11 de julho de 2011 – 9:05 hs

    Parabens ao Junior e Rodrigo ,Sucesso para vocês Guerreiros, ParBens ao Paizao Ari cesar. Sucesso sempre. quero ver voces cada vez mais alto.

  3. Parreiras Rodrigues
    segunda-feira, 11 de julho de 2011 – 11:48 hs

    A música sertaneja não tem mais motivações.

    Não existem mais carros de boi, nem boiadas nas estradas.

    A vaca é ordenhada mecanicamente e a pesca é com molinete, carretilhas.

    O fogão a gaz substituiu o à lenha.

    Na roça ninguém mais escreve carta. Comunicam paixões, choram traições por e-mail, por aí.

    Lampeão a querosene foi trocado por lâmpadas fluorescentes e nem cigarro de palha se fuma mais.

    Não existe sertão. Só derrubadas, queimadas e caminhonetas railuquis nas estradas das fazendas.

  4. Carlos
    segunda-feira, 11 de julho de 2011 – 13:24 hs

    Você escreveu bem. O sertanejo universitário não tem nada de sertanejo. É uma adaptação da Jovem Guarda, agora cantada em terças (1ª e 2ª vozes). As bandas são boas, equipamentos de alta qualidade e bons arranjos. Mas não é música sertaneja.
    A causa da explosão do “sertanejo” universitário é a decadência do rock romântico. Os roqueiros de hoje acham que os jovens só gostam de música “porrada”. Ledo engano. Todos os grandes roqueiros dos anos 70 e 80 traziam rock pesado mas, também, baladas românticas. Assim, os jovens, que são essencialmente românticos, ficaram sem escolha e foram achar refúgio na musica dita sertaneja. Dessa forma, os roqueiros faliram e os ditos sertanejos tornaram-se milionários.

  5. JOSÉ SILVA
    segunda-feira, 11 de julho de 2011 – 16:18 hs

    MAIS UMA DUPLA PORCARIA..;

    TENHO SAUDADES DAS MUSICAS ANTIGAS.
    AGORA, SÓ RESTA ESTAS PORCARIAS PARA OUVIRMOS.

  6. TIU TONHO
    terça-feira, 12 de julho de 2011 – 15:36 hs

    Gosto muito do Jota e do Rodrigo.
    Ótimos no que se comprometem a fazer.
    Extremamente profissionais durante o show e após o show também se dedicam como profissionais aos fãs, que aqui na minha cidade são milhares (inclusive eu).
    Considero-os grandes amigos, espero rever a dupla em breve aqui em minha cidade.
    Parabéns pelo post. Foi maravilhoso aprender sobre as raízes da nossa música sertaneja, que deve ter tomado um tempo enorme em pesquisas.
    Novamente te cumprimento e agradeço pela sua dedicação a nossa música sertaneja, e principalmente por mencionar entre tantas duplas sertanejas os meus amigos Jota e Rodrigo.

  7. SINVAL DA SILVEIRA PINTO
    terça-feira, 12 de julho de 2011 – 17:39 hs

    Parabéns a dupla Jota Junior e Rodrigo,e ao Jornalista Fabio Campana, para mim já é o reconhecimento da sociedade,um artigo desta natureza,no conceito de quem escreve e de quem edita,J.Junior e Rodrigo gravaram uma musica de minha autoria,tem o titulo Colorado Barretos, é moda de VIOLA…tocou muito nas emissoras de radio, a dupla já cantou na queima do alho no Barretão, ja cantaram para a autora de novela Gloria Peris,a musca Cabocla Tereza, a pedido, foi muito Bom,Fabio os meninos são nossos…..amigos. eu os ajudarei sempre que puder…abç.

  8. Beto
    terça-feira, 12 de julho de 2011 – 22:21 hs

    Esses meninos Huesley e André realmente são excelentes

  9. Bruno Oliveira
    terça-feira, 12 de julho de 2011 – 23:23 hs

    Parabéns Fábio Campana, como sempre escrevendo muito bem.
    Gostaria apenas de fazer uma correção, a respeito do comentário do que diz ser o autor da música “Colorado Barretos”. Conheço a música, e posso afirmar que, com o conhecimento que tenho, essa melodia está longe de ser uma Moda de Viola. O rítmo que podemos nos referir como sendo uma moda de viola, é uma modalidade da música caipira produzida no Brasil, onde a expressão ‘moda’ é de procedência portuguesa. Sendo caracterizada pela viola solada, acompanhando a melodia das vozes, possui uma estrutura que admite solos de viola e versos longos, intercalados por refrões, com letras extensas ao contar fatos históricos, e, é claro, com a utilização de apenas um instrumento: a viola caipira. Fico MUITO incomodado ao ver qualquer um se referindo a toda e qualquer música sertaneja como sendo “moda de viola”. E, de fato, a utilização errada das nomenclaturas dos ritmos sertanejos me deixa um tanto quanto irritado. Por isso fica aqui minha indignação!. Sou formado em música pela Faculdade de Artes do Paraná e me frusto com certos comentários.

  10. Kátia da Costa
    terça-feira, 12 de julho de 2011 – 23:34 hs

    Que bacana Fábio Campana! Nhô Belarmino e Nhá Gabriela foram uma dupla muito boa, e com certeza de muito sucesso. Quem não conhece “as mocinhas da cidade”?! Inclusive, Leonel Rocha e Campos. Tive a oportunidade de ouvir o Leonel Rocha no programa que faz, na rádio Paraná Educativa, e observei que ele valoriza muito suas raízes… com a verdadeira música sertaneja.

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