O búfalo da madrugada | Fábio Campana

O búfalo da madrugada

Luiz Geraldo Mazza para a Revista Ideias 116 (junho)

Quase não foi percebido, lá pelos anos setenta, o ingresso de um búfalo num dos lagos do zoo da cidade, o Passeio Público. Preto e impassível, ele permanecia na área em que se situava a Ilha dos Macacos, ela própria, volta e meia, despojada de todo o verde da vegetação pela gula dos primatas. Sua rusticidade impunha temor e tanto que era proibida a aproximação de barcos e pedalinhos na área como lazer.

Num fim de tarde, o búfalo subiu a rampa que havia no açude e diante do portão aberto se mandou para a gleba de pedra, que não era o seu mundo. Guardas do zoo não deram pelo sumiço do ruminante e ele só foi aparecer, horas depois, justamente na Estação Rodoviária, a antiga, hoje transformada em Terminal Metropolitano.

A aparição do animal provocou agito na hora tardia em que as pessoas faziam o ritual das despedidas: os noivos que iam para a lua de mel, a avó que abraçava o neto que iria, pela primeira vez, a São Paulo, enfim a rotina de todos os dias. Ia tudo normal até que alguém deu pela figura sinistra do bubalino no extremo norte da estação e estabeleceu-se o pânico: muitos se deslocando para a igreja de Nossa Senhora de Guadalupe em ponto elevado, outros se fechando dentro dos ônibus estacionados e alguns trepando nas partes mais altas da rodoviária com receio do animal que a escuridão tornava ainda mais misterioso.

E foi nesse momento de suspense que um bebum reconheceu o animal e pespegando-lhe duas batidas na cabeça dura com um maço de jornais, advertiu: “eu te manjo e vou te levar de volta pra tua casa”. Dito isso, pegou o anel que estava no focinho do bicho, que tentava o exercício da boemia, e o conduziu diretamente, já no início da madrugada, ao Passeio Público e ao seu habitat de água fria.

O pastor improvisado, conduzindo seriamente o búfalo e fazendo-lhe severas advertências, percorreu uma das áreas mais boêmias do centro de Curitiba perto da Universidade Federal e foi olhado com inveja por todos os bebuns do itinerário. Não deixava de ser uma façanha e tanto. Dizem — e isso foi referido no discurso de posse do jornalista e escritor Roberto Mugiatti na Academia Paranaense de Letras — que o exímio homem do jazz e do rock, o Raulzinho do Trombone, teria lhe dedicado um flash musical e que um artista plástico o teria retratado. Imortalizado nas artes e no folclore urbano de Curitiba acabou levado ao matadouro lá por 1978. Transformaram-no em linguiça e outros subprodutos, mas os amantes da madrugada dizem que ouvem, conforme a lua, o seu mugido transcendente.


4 comentários

  1. Emengard
    segunda-feira, 4 de julho de 2011 – 21:01 hs

    MAS ESSE BUFALO TINHA PELOS NA OREIA E NO NARIGÃO??

  2. Sergio silvestre
    segunda-feira, 4 de julho de 2011 – 23:00 hs

    Se o bufalo tentasse escapar nos dias de hoje,certamente seria sacrificado
    ao cair em um dos milhares de buracos que tem nas cercanias do zoo.
    Um conselho,quem for de carro leva dois estepes.

  3. Sinfrônio
    terça-feira, 5 de julho de 2011 – 8:19 hs

    as últimas notícias que tive é que ele esta morando lá em santa felicidade, na toaldo túlio, ahahahahahahahahaha

  4. Parreiras Rodrigues
    terça-feira, 5 de julho de 2011 – 12:16 hs

    Mazza escreve poetando.

    E vem o Sérgio silvestre (sic) e enche de buracos o texto.

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