Culto da catástrofe | Fábio Campana

Culto da catástrofe

Rubens Campana para a Revista Ideias de junho

Diz Thomas Sowell que a descoberta de fósseis de criaturas marinhas no topo do Everest já deveria ser o suficiente para provar que enormes mudanças planetárias não são algo novo e que essas enormes mudanças acontecem desde muito antes de nós humanos darmos as caras por aqui.

O aquecimento global é apenas o último de uma longa lista de cruzadas histéricas às quais o homem parece ser cada vez mais suscetível. Sim, o planeta está esquentando. Não, isso não levará à extinção da espécie.

Tenho certeza de que os mais velhos podem lembrar ao menos algumas catástrofes anunciadas que não aconteceram. Num artigo publicado recentemente em Piauí, o embaixador Marcos Azambuja escreve que, hoje, aos mais de 70 anos, poderia escrever todo um livro sobre aquilo que, sendo previsto, não ocorreu em sua vida.

O colapso da civilização já foi muito anunciado e viria de formas variadas. Chuva ácida. Desertificação. Esfriamento global. Alimentos transgênicos. Colapso da biodiversidade. Crise energética após o fim das reservas de petróleo. A destruição do mundo natural pelo uso dos pesticidas. O buraco na camada de ozônio. O bug do milênio. E meu favorito: a eterna ameaça da Grande Fome Malthusiana.

É verdade que a água da chuva pode reagir com outros elementos e se tornar mais ácida. O resultado final não causa maiores problemas. Nunca um estudo sério encontrou riscos à saúde relacionados ao consumo de alimentos transgênicos. E existem muitos estudos.

O medo dos pesticidas teve como resultado a proibição quase global do uso do DDT, candidato a substância mais mal compreendida de todos os tempos. A demonização do DDT custou milhares de vidas, condenando as pessoas mais pobres do planeta a encontrarem alternativas mais caras e menos eficientes para combater a malária.

E a Grande Fome Malthusiana? Em 1968, o Dr. Paul Ehrlich declarava que “a batalha para alimentar toda a humanidade acabou” e que “na década de 1970 centenas de milhões de pessoas vão perecer de fome”. É difícil alguém cometer um erro tão espetacular e continuar a ser respeitado, mas é o que aconteceu com Ehrlich, que ainda conta com discípulos em todo o mundo. A população da terra continuou a aumentar e a produção de alimentos per capita aumentou ainda mais rápido. Em nenhum outro momento da história tantas pessoas se alimentaram tão bem quanto hoje.

Mas os modernos discípulos de Malthus não lançaram alerta apenas quanto à escassez de comida. A “bomba populacional” acabaria com os recursos naturais, o que tornaria inviável uma vida confortável dentro de padrões modernos. É possível lidar com a escassez, é claro, mas o que fazer a respeito da inevitável finitude?

Não por acaso, o mito de que os recursos naturais estão se esgotando existe desde o começo da revolução industrial. O que aconteceu, no entanto, foi que passamos a usar recursos de maneira cada vez mais eficiente e que encontramos substitutos para recursos à medida que suas reservas diminuem.

Durante a enorme expansão da telefonia na metade do século XX, surge a possibilidade do esgotamento do cobre. Não seria possível conectar um país inteiro como os Estados Unidos nem com todo o cobre que era conhecido até então.

A demanda cresceu, e também o preço. Com isso aumentaram os incentivos à oferta do metal, e nas décadas seguintes enormes reservas de cobre foram descobertas ao redor do mundo. O mecanismo do preço possui esta função dupla: é ao mesmo tempo informação e incentivo. Ainda mais importante, encontramos substitutos para o cobre na telefonia: a fibra ótica, que é feita de areia.

O fim do petróleo é talvez a profecia que mais vezes foi provada falsa. O economista Steve Horwitz mostra que em 1882, as reservas mundiais de petróleo eram estimadas em 95 milhões de barris. Em 1919, as reservas conhecidas indicavam que não teríamos mais do que 20 anos de petróleo. Mas em 1950 as reservas conhecidas já eram de 100 bilhões de barris, e em 1980, 646 bilhões. Em 2000, mais de um bilhão de barris. As reservas atualmente conhecidas já são de mais de 1,2 bilhão.

A sinistrose malthusiana encontrou inimigo formidável na figura do economista Julian Simon. Em 1980, Ehrlich e Simon fizeram a aposta mais famosa das ciências econômicas. Ehrlich elegeu cinco metais e apostou que após uma década seus preços iriam subir. Simon tomou a posição contrária. Os preços dos cinco metais caíram durante aquela década e em 1990 Simon saiu vitorioso. Se a aposta fosse repetida para os dez anos seguintes, ele também venceria.

A mais importante contribuição de Simon foi um insight que mesmo bons economistas às vezes perdem de vista — a idéia de que seres humanos vivendo em sociedades livres são “o recurso definitivo”. Nada — nem petróleo, nem ouro, nem terra, nem microchips — são mais valiosos para a riqueza material do homem do que a criatividade e o esforço humano. Na verdade, não existem recursos sem que a criatividade humana descubra como usá-los e sem que o esforço humano de fato os utilize. Reconhecer essa verdade torna até mesmo ingênuo o próprio uso do termo “recurso natural”. Nenhum recurso é natural.

A maioria dos cientistas percebe questões como a do aquecimento global pelos olhos apenas das ciências naturais e da engenharia. Mas as lições da economia também são válidas: nenhuma transformação, por mais profunda que seja, deixará de ser acompanhada pela destruição criativa, pelo papel do empreendedor, pela formação de ordens espontâneas livres da engenharia humana e pela ação do mecanismo do preço funcionando como informação e incentivo na mudança das atitudes de consumidores e produtores.

Em relação às questões climáticas, a palavra “ciência” tem sido usada como um mantra mágico para calar os críticos. Roubar a aura da ciência para fins políticos não é novidade. Marx chamou o seu tipo particular de utopia de “socia­lismo científico”.

Não há dúvida de que o globo está aquecendo, e que ele já aqueceu e esfriou antes e não está tão quente hoje quanto esteve séculos atrás, antes dos automóveis e da queima de combustíveis fósseis. Nenhuma das terríveis conseqüências previstas hoje aconteceu então.

Diante da linguagem histérica de figuras proe­minentes, é uma posição legítima pedir que pessoas razoáveis concluam que a melhor política a respeito do aquecimento global não seja clamar por mais engenharia social que restrinja a prosperidade. Ao contrário. Diante da sinistrose, continuemos a enriquecer.

* A opinião expressa nos artigos é exclusi­vamente do autor e não reflete a posição do Ministério das Relações Exteriores.


4 comentários

  1. Palhares
    domingo, 3 de julho de 2011 – 13:35 hs

    Falar em “sustentabilidade” é uma palavra bacana, que “soa” bem aos ouvidos, mas e ai? o que resolve se cada um não, procurar fazer sua parte? olha atitudes simples como o famoso 3Rs, é de muita grandeza!
    Reduzir
    Reciclar
    Reutilizar, é tão barato reciclar as coisas, sem contar que é um barato, ver as crianças aprendendo a amar e respeitar a natureza.
    Todos os dias milhares de “profissionais catadores de papel”? não! Profissionais da reciclagem, estão as ruas, é bem simples, entreguem a eles, ou até mesmo troquem por alimentos, nos caminhões que a Prefeitura Municipal de Curitiba, atendem, em vários bairros da cidade!
    Respeitar o Meio Ambiente é respeitar a vida!

  2. Thiago Medeiros
    domingo, 3 de julho de 2011 – 17:10 hs

    Excelente texto. Vamos ver qual a próxima histeria que será inventada para vender livros, filmes e periódicos, já que o aquecimento global até agora não mostrou a que veio, para a tristeza dos catrastrofistas de plantão.

  3. Paula
    domingo, 3 de julho de 2011 – 23:30 hs

    Aquecimento global causado pela ação humana é o vigarismo do século. Parece inacreditável que tem gente que acredita nisso.

    É muito bom saber que tem gente que pensa no MRE. No dia que o MRE puder se posicionar a favor das idéias do Julian Simon, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, será porque estaremos caminhando em direção ao mundo desenvolvido.

  4. Anônimo
    segunda-feira, 4 de julho de 2011 – 9:17 hs

    Bom texto. Quem ganha com isso são as grifes ambientais, as ongs e oscips que captam zilhões m recursos públicos inclusive, para prevenir o fim do mundo e cuidar de espécies em extincão, como o papacu de cabeça vermelha do himalaia e outros.

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