Boom econômico do Brasil é freado pelas falhas na educação e infraestrutura | Fábio Campana

Boom econômico do Brasil é freado pelas falhas na educação e infraestrutura

Roger Cohen no International Herald Tribune

Tom Jobim é famoso por ter escrito “Garota de Ipanema”, o hino sensual e brincalhão de uma terra sensual e brincalhona. Ele é quase igualmente famoso por ter dito: “o Brasil não é para amadores”.

Há quinze anos eu morei no Brasil, onde se você não tem o “jeitinho”, ou a capacidade nativa de contornar as regras, você está frito. Era um Brasil da hiperinflação e violência descontrolada que zombava das palavras da bandeira nacional: “Ordem e Progresso”. Eu fui até o necrotério da cidade um dia, pesquisar para uma matéria sobre crianças pobres que “surfavam” em cima dos trens para se divertir, e um oficial levantou a tampa de um latão de lixo no qual o corpo de um jovem estava torcido como um saca-rolhas. Eu perguntei o que havia acontecido. Ele disse que o rapaz tinha sido morto por colegas de prisão e enfiado ali.

Não, o Brasil não era para amadores.

Hoje, no Brasil da “Senhora Continuidade”, a presidente Dilma Rousseff, não tenho tanta certeza. Mas certamente muitas pessoas de repente se consideram especialistas em Brasil.


Eles estão se amontoando. Querem um pedaço da ação na grande nação sul-americana que teve um crescimento de 7,5% no ano passado. Descobertas de petróleo, boom dos commodities, um forte gerenciamento econômico, estabilidade política, Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas em 2016 se combinaram-se para produzir uma febre brasileira que parece um tanto precipitada para mim.

No Leblon, a área adjacente a Ipanema onde eu morava, os preços dos apartamentos quadruplicaram em um ano. A Sotheby’s International Realty espera quadruplicar as vendas de imóveis este ano, de acordo com o jornal “O Globo”. Os grandes aumentos de preços refletem um interesse crescente entre os estrangeiros, especialmente europeus e chineses que veem a oportunidade antes dos dois grandes eventos esportivos.

Escolha entre os números de virar a cabeça. Havia 12 novos bilionários brasileiros na lista das pessoas mais ricas do mundo da Forbes este ano. O investimento estrangeiro direto cresceu numa taxa composta de 21% ao longo dos últimos cinco anos e chegou a US$ 78,7 bilhões em 2010. O crédito do consumidor está finalmente decolando. Numa terra em que era difícil conseguir empréstimos, o estoque de crédito líquido aumentou 21% no ano passado. As ruas estão congestionadas com carros, os restaurantes cheios.

Será que uma bolha está se formando? É possível. Mas os bancos brasileiros em geral se mostraram prudentes, e as políticas macroeconômicas agora tiveram um desempenho estável ao longo de três governos, criado para atenuar os piores extremos da pobreza enquanto satisfazia a ansiedade dos investidores internacionais em colocar capital na rápida emergência do Brasil.

A nova palavra da vez nos círculos econômicos é “convergência”, o processo pelo qual as economias em desenvolvimento nas quais cinco bilhões de pessoas vivem (194 milhões no Brasil) estão chegando perto das economias desenvolvidas mais de 150 anos depois que a Revolução Industrial criou essa divisão. Chegar no Brasil vindo dos Estados Unidos ou da Europa hoje em dia é sentir que o mundo virou de cabeça para baixo.

Um otimismo sem fôlego substituiu a depressão econômica. Um novo trem de alta velocidade de US$ 22 bilhões ligará o Rio de Janeiro a São Paulo. As pessoas acreditam que seus filhos viverão melhor que elas vivem. Os brasileiros falam de investimentos com os indianos e chineses; eles sentem que as velhas potências estão se tornando marginais no século 21. Só a China investiu US$ 37,1 bilhões no Brasil desde 2003, principalmente em mineração e petróleo.

O que você pensa sobre a convergência depende de onde você está. Eu diria que é uma coisa boa – muitas pessoas viverão bem melhor em breve – mas também é muito disruptivo.

Os brasileiros, indianos, chineses, indonésios e sul africanos estão indo melhor em parte porque, graças à tecnologia, eles podem fazer o que antes era trabalho dos EUA ou da Europa com a mesma eficiência. Seu ganho está ligado em certa medida aos problemas norte-americanos e europeus.

Conversei com um executivo de uma grande companhia internacional de cimento que disse que havia acabado de retirar investimentos de Portugal para fazer investimentos de mais de US$ 1 bilhão no Brasil. Basta extrapolar esta tendência para ver o imenso desafio econômico do mundo desenvolvido. A convergência também colocará um peso enorme sobre o ambiente e os recursos – haja vista os investimentos chineses em petróleo e minério de ferro.

Por enquanto, as potências emergentes e desenvolvidas falam mais por cima umas das outras do que umas com as outras. As instituições estão atrás do mundo em mudança da mesma forma que a infraestrutura dessas potências emergentes está atrás da velocidade com a qual milhões de pessoas estão entrando no mercado. De fato, a falta de uma infraestrutura adequada e falta de educação são dois dos principais freios de países como o Brasil.

Sou agressivo em relação ao Brasil, mas alguns dos novos “especialistas” irão se queimar. O Brasil continua sendo um país de desigualdade violenta. Há poucos dias, um turista francês, Charles Damien Pierson, caiu do bondinho no Rio no viaduto da Lapa, passou por entre uma cerca mal instalada e a ponte, e morreu. Antes de a polícia chegar lá, sua carteira já havia sido roubada por crianças.

A convergência continuará – e em tempo separará os verdadeiros especialistas dos amadores na nova economia global.
Tradução: Eloise De Vylder


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