Cara da direita | Fábio Campana

Cara da direita

Entrevista com Aberlardo Lupion por Fábio Campana para a Revista Ideias

Neste Brasil macunaímico é raro encontrar um político que assuma claramente a sua ideologia e a defenda em todos seus atos. O deputado federal Abelardo Lupion é honrosa exceção. No quinto mandato consecutivo, este empresário que é neto do governador Moisés Lupion, assume que é de direita e deixa claro o que isso significa para ele.

Para espanto da cachorrada miúda, Lupion não tem o vício da conciliação tão comum entre os nativos. Enxerga boa oportunidade nas defecções que abalam o seu partido, o DEM. Acredita que, assim como ele, os políticos que ficarão são de direita e que o DEM tem a chance de parar de fingir que é de centro e assumir sua verdadeira identidade.

— O DEM é um partido de direita e espero que assuma sua posição. A minha já foi assumida. Sou de direita e isso não é pecado.

Lupion quer mais. Defende que os Democratas vão à luta por suas ideias que se apóiam em três grandes linhas: a defesa da propriedade privada, o Estado mínimo e a redução drástica de impostos.

— Se isso é ser de direita, como se compreende no Brasil por conta da propaganda estatólatra e do monstro filantrópico, sou de direita. Minha formação é a do liberalismo. Nós precisamos assumir nossas teses. Aqueles que não acreditam nisso não podem ficar no DEM, diz Lupion, que do alto de sua longa experiência parlamentar, afirma que os políticos brasileiros não sabem o que significa ideologia. Ele divide a fauna assim:

— A pessoa de centro no Brasil não tem posição. E 90% dos caras que se dizem de esquerda só querem estar na moda ou se beneficiar das benesses do Estado.

Nessa linha de raciocínio, Lupion tacha de oportunista o PSD, o novo partido do ex-membro do DEM, Gilberto Kassab. Insinua que o prefeito de São Paulo e seus seguidores buscam apenas um lugar à sombra dos cofres federais:

— Kassab está jogando para migrar para a situação. Ele e os seus seguidores vão ser base do governo federal. Mas nós, do DEM, não fomos eleitos para sermos situação.

Lupion tem certeza de que o eleitor não vai entender a migração de políticos do DEM para o recém criado PSD. Ele entende que o eleitor do DEM é exigente e defende ideias e princípios.

— Aqueles que estão saindo deixam para trás um compromisso com as urnas. Oposição é tão importante para o jogo democrático quanto a Situação. Nós, da Oposição, precisamos fiscalizar, debater, coibir impostos. O nosso papel é relevante.

Ele imagina que, endireitando-se, o DEM vai dialogar com 30% da população brasileira. Em sua maioria, “profissionais liberais, empresários e produtores rurais”. É um bom começo, um partido com base de apoio social qualificada que pode aspirar muito no futuro. Por isso mesmo, dá de ombros para o emagrecimento:

— Perderemos nove deputados federais e uma senadora. Vamos continuar com 37 deputados federais. Ficamos pequenos? Somos o quinto maior partido do Brasil hoje e provavelmente o único que terá ideologia nítida e prática coerente. O resto é essa repetição de frases feitas, de metáforas gastas, de dissimulação.

A experiência depois da lipoaspiração que o DEM está sofrendo não assusta Abelardo Lupion:

— Vamos continuar lutando pelos nossos espaços, sendo críticos, fiscalizadores. Esse é um reflexo de oito anos de oposição e mais quatro ainda pela frente.

As declarações de Lupion devem lhe render ataques da patrulha. No Brasil, como se sabe, ninguém costuma ser de direita.

— Melhor enfrentar a patrulha, porém, do que realimentar a picaretagem ideológica. Como diz o deputado, “o DEM é de direita”. Convém assumir.

O fisiologismo é a marca mais antiga e mais marcante da política brasileira. O adesismo é o padrão de comportamento da maioria dos políticos que, por isso mesmo, sempre se dizem de centro, onde estaria a virtude, embora se saiba que neste caso o forte é mesmo a corrupção.

Forma-se no Brasil, incorrigivelmente, o maior partido do Ocidente. Já se chamou Arena, depois PDS, PMDB, no governo Sarney era o Centrão, depois virou time dos Mensaleiros sob o pomposo nome de Bloco de Sustentação da Governabilidade onde ainda habitam políticos de todos os partidos e facções, mas principalmente do PMDB e do PT.
É o partido dos governistas. Dos políticos cuja coerência única é a de estar com o governo, qualquer que seja o governo. O importante para essa tigrada é estar pendurada nas tetas generosas do Estado. Lupion quer fazer do DEM um partido que seja a negação do fisiologismo.

— Muita gente que não sabe viver sem mamar nas tetas do governo sucumbe. Nós, remanescentes do DEM, vamos manter a dignidade no papel de críticos permanentes dos estatólatras e da corrupção.

Lupion acredita que a visão estatólatra dos problemas do país gerou esse Estado hipertrofiado usado como instituição de filantropia para garantir a reprodução da mesma turma no poder. Essa visão privilegia a expansão do Estado e da máquina burocrática. Multiplicou ao infinito órgãos, empresas, repartições, regulamentos, impostos, contribuições e taxas de toda a espécie.

Hoje, tudo indica que já temos burocracia demais para as nossas posses. Para reiniciar um ciclo de alta taxa de desenvolvimento econômico e social, seria preciso desmontar, com a máxima rapidez possível, o sistema que privilegia o crescimento do estado e olha com desconfiança e cupidez a iniciativa privada.

É óbvio que a posição de Lupion desagrada a grande parcela da sociedade que vive à sombra do Estado e que acredita, piamente, que as soluções para todos os males e para felicidade geral da Nação dependem do Estado e dos governantes. Não há povo mais governista que o nosso, indicam as pesquisas de opinião. Não ficaríamos impunes depois de séculos de culto ao Estado e à burocracia.

Baixa imunidade A democracia brasileira não soube criar mecanismos de defesa para evitar que a atividade política se transformasse em espetáculo de gosto duvidoso. Somos servidos diariamente pela projeção chinfrim do star system na vedetização excessiva dos homens públicos. É o que temos e as chances de mudanças são escassas.

O marketing, a propaganda, as pesquisas sobre o look ou a imagem no domínio político fazem da vida pública algo que se aproxima de uma peça de teatro ou de um filme de produção barata. Às vezes, cenas de tele catch.

O enredo é de vaudeville. Sem faltar momentos de comédia de equívocos temperados com escandalosas denúncias de corrupção que excitam o distinto público. A plateia adora punições aos flagrados com a mão no jarro, mas os reelegem na oportunidade seguinte, talvez para garantir a continuidade do espetáculo.

Hoje, o homem público não se preocupa em convencer a maioria a adotar suas ideias e projetos. Nesta área do planeta o político quer informações sobre a opinião pública para corresponder, em gestos e discursos, às expectativas mais imediatas do eleitorado.

O fundamental é garantir a popularidade nas faixas mais ignaras da população. Lupion sabe que não se deve esperar ideais nobres ou projetos que os elevem acima do trivial. O horizonte dessa gente é a próxima eleição e o prazo máximo de qualquer plano são os quatro anos de mandato que cada qual pretende renovar para não sair do jogo e não perder as benesses e prebendas que a atividade lhes oferece.

De sorte que não temos projetos de longo prazo, explica Lupion. Nem força suficiente para mudar aquilo que garante a continuidade da carreira da maioria. Quem se habilita a reduzir a máquina burocrática? Quem se arrisca a cortar na carne o excesso de funcionários nas repartições públicas desnecessárias? Quem se habilita a reduzir o fardo de impostos que sustenta essa estrutura gigantesca do Estado?

A voracidade e o empenho para continuar na carreira limitam a ousadia e faz com que a maioria se iguale e que os partidos tenham programas parecidos e práticas idênticas.

Por isso não são levados a sério pela minoria que pensa e se vê submetida à ditadura das massas, o que parece uma contradição, mas é, na verdade, o que resulta da democracia com suas regras que favorecem à mistificação e o sucesso dos atores medíocres, aqueles que conquistam multidões justamente porque tem a oferecer apenas filantropia e compadrio, os velhos vícios que tem raízes em nossas origens ibéricas.

É essa minoria provida de neurônios e capaz de refletir além dos limites do populismo latino americano que Lupion pretende representar. Para realizar o esforço de mudança das ideias e dos costumes como nunca antes se viu na história desta República.


10 comentários

  1. Flavio Frota
    sábado, 4 de junho de 2011 – 15:37 hs

    Parabens ao dep. Lupion. Umas das entrevistas mais lucidas e inteligentes que ja li sobre a politica brasileira. Merece ser lida e relida.

  2. VLemainski - Cascavel -
    sábado, 4 de junho de 2011 – 16:02 hs

    Não sou partidário do Lupion, mas admiro posições claras. Até que enfim apareceu um político falando em ideologia.

  3. D.Selbach
    sábado, 4 de junho de 2011 – 16:09 hs

    Concordo com o Flávio Rocha. Esta foi a melhor e mais franca declaração de posição ideológica e política que já ouvi neste Paraná pelo menos nos últimos 20 anos. É bom lembrar os que não concordam com o Lupion que ele tem uma das mais brilhantes carreiras políticas do Brasil.

  4. Anônimo
    sábado, 4 de junho de 2011 – 18:34 hs

    O Lupion é um politico de personalidade e de caráter.

  5. Alaor
    sábado, 4 de junho de 2011 – 21:07 hs

    Não boto fé, um dia discutia com um ex-banqueiro este assunto, quando falei que no Brasil não existe direita, esquerda centro direita ou esquerda e sim o poder onde todos os ladrões pendem ele ficou bravo. Perguntei a ele mas quando o senhor era banqueiro todos estavam juntos e agora. Eles querem e só o poder….

  6. Diego
    sábado, 4 de junho de 2011 – 21:26 hs

    Não conheço o sr. Lupion o suficiente, mas esta carta é um ato ousado e lúcido nesses tempos de governismo. Ganhou minha simpatia por ter uma ideologia clara, diferente da maioria que existe por aí.

  7. OSSOBUCO
    sábado, 4 de junho de 2011 – 21:27 hs

    O que está acontecendo? Quando ele disse que iria apoiar o Osmar para o governo, todo mundo queria o couro dele, até o partido o ameaçou de expulsão, lembro bem dos comentários aqui no blog.

  8. antonio carlos
    sábado, 4 de junho de 2011 – 22:11 hs

    Parabéns deputado, pelo menos tem coragem de dizer o que é e o que pensa, e não é mais um hipócrita, que só pensa nos próprios interesses e os dos que representa. Na próxima eleição vou pensar no seu nome. Tony

  9. HENRY
    domingo, 5 de junho de 2011 – 15:35 hs

    ESSE É UM DAQUELES QUE SE AGARROU A CANDIDATURA bi DERROTADA DO osmar “indeciso” dias. NÃO SEI SE ELE É DE DIREITA. É SÓ OBSERVAR O APOIO AO CANDIDATO DERROTADO QUE ELE APOIOU, QUE VEIO DE pt “partido do trambique”, baderneiros do mst, ETC. ETC…

  10. Fabio
    domingo, 5 de junho de 2011 – 20:40 hs

    Deputado Lupion ganhou minha simpatia pois desconhecia essa sua clarividência, lucidez e independência de pensamento. Finalmente uma vez dissonante diante da ditadura do pensamento único em que vivemos, quando todos os políticos – por uma razão ou outra – parecem tentar passar a mesma mensagem, ainda que muito nela não acreditem. Nos EUA, quase 45% da população defende os ideais advogados pelo coerente Lupion. São os Republicanos. Aqui, sugiro a qualquer político ou aspirante a tal, a disputar uma eleição com esse discurso: chances grandes de total fracasso eleitoral. Nossa classe média e alta, sucessivas e crônicas são as mensagens subliminares de lavagem cerebral, parece não acreditar naquilo que mais lhes beneficiaria: um estado menor, menos impostos, menos intervenção nas vidas privadas, em suma, menos estatolatria. Parabéns, Lupion. Tem o meu voto de aqui por diante. Busque espaço na grande mídia nacional. Esse pensamente precisa ser defendido, não tanto para que prevaleça, mas para que exista ao menos como contra-ponto.

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