Morreu o escritor Wilson Bueno. | Fábio Campana

Morreu o escritor
Wilson Bueno.

Foto: Daniel Snege

Esta é a crônica de Wilson Bueno publicada na revista Idéias que está nas bancas. Na sexta-feira ele mandou sua colaboração para o próximo número. O texto que segue, primoroso, dá bem idéia do talento de Wilson, o mais inventivo escritor que tínhamos nesta área do planeta.

Mínima Alice

Muitos dias depois de haver perguntado a Alice quem ela era e esta haver respondido que já não sabia mais a rigor quem era pois havia mudado muitas vezes desde que acordara aquela manhã, a Lagarta reencontrou nossa heroína. Tão reduzida em seu tamanho, que ela estava, vejam vocês!, firmando-se com dificuldade bem no vértice de um Ás de Copas, isto é, na ponta do coração vermelho no centro da carta do baralho.
Difícil manter-se ali, apesar de mínima. Mas tão mínima, que a olho nu, isto é, sem poderosas lentes, jamais seria vista. Nossa! Nossa! A nossa invisível Alice apoiava um dos fios de perna num lado do coração e outro no lado oposto de tal forma que desse modo conseguia se equilibrar, ainda que, muitas vezes, um dos mínimos pezinhos escorregasse e ela ficasse assim meio enviesada na ponta do coração do Ás de Copas. Trêmulas ambas as pernas – tanto a esquerda quanto a direita.
“Será que exagerei na poção mágica que faz a gente diminuir encontrada atrás da poltrona da casa do Coelho?” – pensava Alice, incapaz sequer de pedir socorro, pois a voz era um arremedo de voz, certamente ainda mais fina que a do Mosquito e talvez inaudível mesmo, pois quanto mais pedia socorro, parece que menos a ouviam. A Rainha, caso ouvisse semelhante voz-zumbido, ou ainda mais baixo que um zumbido, mandaria cortar a cabeça de Alice, mesmo que ninguém pudesse lhe enxergar o pescoço. E era fiando-se nisso que Alice gritava e gritava e quanto mais escorregava, mais as pernas tremiam. E ela ainda mais pedia por socorro.
Até que teve a ideia de sentar-se, como quem monta a cavalo, no vértice do coração da carta. Coisa que ligeiro fez, mesmo porque suas perninhas-de-linha não suportariam o desconforto da posição anterior, mais um minuto, e os minutos ali pareciam ser ainda mais breves que os minutos da vida aqui fora.
“Como poderei sair daqui? – pensou Alice – se agora, de pequena passei a invisível?”
Mas aí é que se deu a aparição da Lagarta. Imaginem vocês, com uns óculos de lentes tão fantásticas e potentes que sugeriam os óculos de um escafandro, desses que mergulham no fundo dos Oceanos para catar minúsculas pedrinhas destinadas à coleção de gemas raras do Museu Britânico.
E lá vinha ela, a Lagarta, sempre devagar, e sempre cansada, meio que se arrastando, e andou a carta toda até chegar bem próxima do coração do Ás de Copas. Meneou a cabeça muitas vezes e de repente soltou um “ah!” de espanto e perplexidade:
― Não posso acreditar no que minhas lentes veem! ― exclamou a Lagarta extremamente surpresa. ― Você, Alice?! Mas como pode ter ficado menor que um cisco? Menor que um grão de poeira?
― Pois é, Dona Lagarta, acho que abusei da poção mágica de diminuir gente que encontrei atrás da poltrona do Gato. Também estava tão docinha…
― Sorte a sua, Alice! ― ralhou a Lagarta, num misto de impaciência e regozijo. ― Não tivesse emprestado esses óculos-lunetas dos irmãos Tledle, nunca sei se do Tledledee ou se do Tledledum, pois são tão parecidos, jamais a encontraria, menina! Jamais!
― E por que essas lentes, Dona Lagarta? Só para me procurar? ― perguntou, chorosa, a mínima Alice, agora mais calma, mas ainda enganchada na ponta do coração do Ás de Copas e com muito medo de cair dali. Por mínima, dada a altura, o tombo seria imenso, ou mesmo fatal.
― Claro que não, Alice! Nem sabia… Ando atrás de uma Pulga que roubou 500 libras do Unicórnio. E te confesso que de longe pensei que você fosse a própria Pulga Larápia.
― Graças a Deus! ― benzeu-se Alice. E logo se corrigiu, pois com aquela expressão poderia parecer à Lagarta que estava aprovando o feio ato da Pulga. E logo este de roubar o Unicórnio, aquele animal tão gracioso que fizera um acordo com ela, Alice, aquele acordo que se ela acreditasse nele, ele passaria a acreditar nela e assim, um acreditando no outro, ambos passariam a se ver sob a mais veraz realidade.
Mas tudo indicou que a Lagarta entendeu de pronto o “Graças a Deus!” de Alice. E essa estava tão pálida e trêmula em sua minimez mais mínima, que só as lentes da Lagarta alcançavam perceber. Além disso, a Lagarta, sabemos, era muito compreensiva, ademais de generosa.
E foi então que Alice arriscou perguntar o que é que ela vira com tão poderosas lentes, até ali, na caçada atrás da Pulga Larápia:
― Dona Lagarta o que a senhora já viu em sua caminhada? ― uma curiosa Alicimínima, com voz abaixo da linha do silêncio, enganchada na ponta do coração da carta, quis saber.
― Nem te conto, Alice. Um exército de gérmens ainda há pouco vi subindo uma haste de capim. E incrível foi quando três grandes pulgões, estes visíveis sem as lentes, atacaram os gérmens. Uma guerra sangrenta, mas, quieta em meu canto, assisti à vitória dos pulgões. Parentes da Pulga Larápia, sem dúvida, mas não podemos incriminar alguém só porque guarda parentesco com quem não tem caráter, não é mesmo?
― Sim, siiiimmmmmmmmmmmm ― zuniu Alicimínima, temerosa de ficar ainda menor e sumir até mesmo da visão das poderosas lentes da Lagarta.
― Dona Lagarta, estou com medo… Medo de ficar ainda menor…
― Se você ficar ainda menor, não há razão para medo ― corrigiu a Lagarta.
― É mesmo ― entendeu logo nossa Alicimínima. ― Se eu for ficando menor, e menor, e menor ainda, aí eu desapareço e deixo de existir e eu não existindo não poderei ter medo, não é mesmo?
― Justo, Alice. Justo ― aprovou a Lagarta. E você então ficaria tão mínima, mas tão mínima, que deixando de existir, não seria nem mais sequer Alice.
― Mas será que eu não ficaria sendo, assim mesmo, uma Alicenada alicimínima, e continuaria com medo? Será que o que é nada não tem medo de nada ? De nadinha mesmo?
Dona Lagarta não respondeu mas foi logo acalmando Alice:
― Olha, continua aí sentadinha no vértice do coração de Copas. Segura firmizíssima com as mãozinhas, como quem segura num balancim, para não cair, que eu vou ver se encontro a outra poção, a de crescer, que, sei, o Coelho guarda, bem escondida, em sua casa, numa velha cômoda…
Uma chorosinhinhha Alicimínimazinhainha assentiu com a invisivelzinha cabecinhinha que ali aguardaria a Lagarta.
Não demorou muito, retornou a Lagarta com o vidro de poção de crescer encontrado, bem escondido, dentro de uma gaveta da cômoda, na casa do Coelho. De pequeníssima bolsa retirou com a boca um conta-gotas tão microscópico que só os olhos-lunetas da Lagarta conseguiam enxergar. E, com um sopro, o pôs nas mãos da tiquititíssima Alice.
― Abra sua bocazinhazinha Alicinha ― pediu Dona Lagarta. E, com extremo cuidado e paciência, como só as lagartas são capazes, com os óculos de poderosas lentes, que nunca foram tão úteis, ajudou Alice a pingar as partículas-gotículas da poção na linguazinhazinha de nossa Aliceminimazinha.
E esta foi de novo crescendo, crescendo, e quando chegou no tamanho suficiente para saltar da ponta do coração, ainda assim teve que se servir do micro conta-gotículas soprado da boca da Lagarta. Mas logo alcançou escorregar, por si própria, do Ás de Copas e aí, agora a gotículasículas medidas, continuou a aspirar boquita adentro a poção mágica. Desta feita com extremo cuidado. Poderia, quem sabe?, virar uma dessas gigantonas que vão por aí amassando com seus grandes pés casas, árvores e até afundando barcos em alto mar. Deus nos livre a falta de medida, conjeturou a ainda desmedida Alice.
Quando ficou bem maior que a Lagarta, percebeu que algo lhe subia pela perna. E não é que era a Pulga Larápia!!! Num movimento rápido e certeiro, como só Alice era capaz, grudou entre o polegar e o indicador a bandida, disposta a entregá-la, viva, à Lagarta. Esperneando muito, a Pulga Larápia, que além de larápia era muito ágil, ou por isso mesmo, escapou, contudo, de entre os dedos de Alice e sumiu na Floresta a gigantescos saltos, a foragida.
A Lagarta ficou olhando, olhando, e decidiu retirar os incômodos óculos de poderosas lentes. Aquela Pulga jamais ninguém encontraria ― concluiu.
Mas aí Alice já estava em seu tamanho quase normal e tomando a Lagarta com cuidado na palma da mão, para que não se cansasse no caminho, a levou até o Unicórnio. E junto ao Unicórnio testemunhou todo o ocorrido.


13 comentários

  1. JH
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 9:11 hs

    BELA HOMENAGEM!

  2. Capitão Gancho
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 9:16 hs

    Morreu não é a forma de veicular a notícia, mas sim mataram!
    Nesse cenário de guerra civil entre as drogas o alcool e suas ramificações, vamos vivendo a incerteza de acordarmos sem que alguém nos mate, vivos no dia seguinte.
    A falta de investimentos em sanidade pública associada à educação, parece ser um elo perdido nas políticas públicas brasileiras.
    Uma pena, uma pena…..

  3. Robson Gonçalves
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 9:54 hs

    Excelente forma de parabenizar o emérito Wilson, dono de uma escrita sem precedentes…, realmente muito triste o acontecido.
    Poderiamos também prestar uma uma homenagem a Requião e Delazari com sua fantástica e eficiente Politica de Segurança.
    Uma homenagem na forma de pulseiras metálicas nos pulsos de ambos acompanhados de um cartão com os seguintes dizeres:
    ORDEM DE PRISÃO

  4. valéria prochmann
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 10:32 hs

    q tristeza… notícia dilacerante… era sua amiga e admiradora desde criança… quando tinha eu 15 anos, dedicou-me uma belíssima crônica em O Estado do Paraná, cujos originais guardo até hj em minha caixa de sweet memories… vi-o lançar o Nicolau (q microfilmei quando diretora da Biblioteca Pública para eternizar o trabalho dele, num tempo em q não existiam os processos digitais), Mar Paraguayo, só para ficar nos trabalhos mais famosos… me orgulhei ao ver os livros dele na livraria da FLIP… ultimamente teclávamos sobre os passamentos do meu pai – que o adorava e tinha um poema dele em forma de poster no consultório – dos pais dele, sobre nossos blogs e os temas convulsivos da atualidade, sem deixar de lado os afetos… tinha um carinho imenso pelo amigo Wilson, um ser humano de alto quilate q certamente não merecia uma partida tão trágica e revoltante, q tira abruptamente do nosso convívio alguém de tamanha magnitude para a vida intelectual e cultural do nosso estado, nosso país e nosso continente…

  5. Chik Jeitoso
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 11:07 hs

    Assassinos tem liberdade de matar, a unica escrita que eles entendem MATAR, autorização dada pelas nossas autoridades.

    Uma pena

    http://www.youtube.com/watch?v=zy7DgCfZZAs

    Homenagens justas.

  6. Daniel Pereira
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 11:53 hs

    Minhas homenagens também.
    Aqui, no caso, se efetivamente houve latrocínio, então, o Santa Cândida entrou mais uma vez para as estatísticas policiais.
    Mais um ode à violência.

  7. CAÇADOR DE PETISTAS
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 11:55 hs

    CORRETO

    O PARANÁ CHORA.

    Infelizmente é assim. muitas pessoas boas são chamadas ainda jovens. Contrariando, algumas pessoas de má índole, mesmo acometidas de alguma infermidade ficam algum tempo a mais e se lançam a política a fim de mentir, enganar e enganar o pobre miserável, aquele condicionado a viver mendigando eternamente e assim serão seus filhos.

    Quem sabe, o povo não começa olhar estas diferenças e resolve mudar a ideologia política para melhorar o Brasil.

  8. Cel. Antonio Bento
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 14:37 hs

    Que lamentável perda para nossa cultura. Temos muito à lamentar!
    Não devemos esquecer de outros crimes de mesma natureza, como o assassinato da Dra. Kátia Regina Leite, que defendia mulheres vítimas de violência doméstica e foi assassinada na mesma região da cidade.

  9. CLOVIS PENA -
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 15:17 hs

    Wilson, do outro lado, ou do andar de cima, mostra que há uma Curitiba oculta, maior que todos nós.

  10. Gilberto Santana de Alencar
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 16:06 hs

    Wilson Bueno morto. Ficamos sem palavras e cheios de saudade. Um grande intelectual, uma perda irreparável. Que as asas da tua alma te leve para planos melhores que o nosso.

  11. leonardo
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 17:16 hs

    Meus sentimentos pela pessoa e pelo acréscimo que deu a nossa cultura.
    Eu acho que ou escrever livros também,sobre os políticos que ” escolhemos “para governar e ” cuidar” da segurança púbica.
    Meus sentimentos…

  12. terça-feira, 1 de junho de 2010 – 18:47 hs

    SÓ QUERO RETIFICAR AQUI A MINHA OPINIÃO QUE EU ESCREVI Á POUCOS DIAS ……..PERDEMOS UM DOS MAIORES GENIOS DA LITERATURA JORNALISTICA DO BRASIL;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;

  13. Sidnei Belizário de Melo
    terça-feira, 1 de junho de 2010 – 21:43 hs

    O que posso dizer, e a tristeza de ver amigos pacíficos que vão embora, enquanto violentos, materialistas escondem-se no manto da proteção do anonimato, da máquina estatal ineficiente, e da falta de estrutura para crimes específicos contra as minorias. O culpado acaba sendo a vítima onde o crescimento do crime cresce conforme a oferta dos bens de consumo, em uma sociedade que aproveita-se dos fracos, e dos humildes para enriquecer, usando até a fé do povo. Lamentavelmente mais um escritor, intelectual que vai deixando sua história na lembranças dos que conviveram com o sorriso, somadas as pessoas que tentaram melhorar o nosso país e acabaram mortos, e esquecidos. Adeus Wilson Bueno, fique em paz, que Deus ilumine os nossos políticos para uma grande mudança.

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