Pesquisa tenta encontrar a identidade cultural do Paraná | Fábio Campana

Pesquisa tenta encontrar a identidade cultural do Paraná

Paisagem Kurt Boiger 1948

Traçar o perfil do paranaense não é fácil. Há muitas diferenças de identidade entre quem vive no interior e o morador da capital.

De Pollianna Milan e Luiz Carlos da Cruz na Gazeta do Povo

Se fosse preciso traçar o perfil do cidadão paranaense, as chances de chegar a um consenso seriam quase zero: enquanto 42% dos curitibanos acompanham o campeonato paranaense de futebol, a ponto de parte da torcida quebrar um estádio inteiro se o time cair para a segunda divisão, os que vivem no interior do estado não estão nem aí para a bola que rola no campeonato daqui – apenas 22% se interessam pela competição. Também é difícil chegar a uma conclusão sobre o prato típico do Paraná: o churrasco, que é popularmente gaúcho, é o mais votado tanto pela população da capital como pela do interior. Mas em segundo lugar, o prato eleito costuma variar conforme a tradição das regiões : 17% da população do interior fica com o porco no rolete, enquanto os curitibanos e os moradores do litoral elegeram o barreado.

Paul Garfunkel – festa de polacos, 1979

Não há consenso, ainda, sobre o humor do paranaense: na capital, região metropolitana e litoral, apenas metade da população diz ser extrovertida; no interior o índice chega a 75%. Os dados são resultado de uma pesquisa encomendada pela Gazeta do Povo ao Instituto Paraná Pesquisas.

A explicação para opiniões tão diversas está no modo como o Paraná foi colonizado. A historiadora Roseli Boschilia, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), dividiria o estado em pelo menos três territórios distintos que vivem quase que de maneira autônoma, o que quer dizer que todos são paranaenses, mas cultivam um estilo de vida bem diferente. A primeira ocupação é a do Paraná tradicional (Curitiba e litoral): são paulistanos que desceram a região de São Vicente (SP) e passaram a ocupar o primeiro planalto. “Eles trouxeram e cultivaram um tipo de vida por aqui. Depois vem o pessoal do Sul (Rio Grande do Sul) com o caminho das tropas. Eles têm um modo de falar, de se vestir e de se alimentar totalmente diferente dos outros e se estabeleceram na região da Lapa e Campos Gerais”, explica Roseli. Uma terceira ocupação acontece por volta dos anos 40 e 50, no Oeste: são os gaúchos que mi­­gram por conta da estrutura fundiária. Há ainda uma quarta ocupação que os historiadores chamam de Norte Pioneiro novo: foi a região “tomada” por fazendeiros de São Paulo. “Até os anos 60, o Paraná não tinha todo o território ocupado. Por isso é difícil criar uma identidade cultural entre um parnanguara e um cidadão que nasceu em Marechal Cândido Rondon. Isso demanda tempo, e nós temos um longo caminho a percorrer”, diz Roseli.

Gastronomia

No interior do Paraná, por exem­­plo, a historiadora lembra que o barreado já foi imaginado como um prato feito à base de peixe, por ser típico do litoral. “Eles não conhecem mesmo. O processo de identificação está vinculado com as raízes e, no Pa­­raná, são muitos paulistas e gaúchos”, diz.

O porco no rolete é um dos pratos mais lembrados na região de Toledo porque foi criado na década de 70 nesta cidade. A festa que homenageia a iguaria , em um único dia, serve 350 porcos inteiros e assados. A fama do porco paranaense já chegou a ganhar destaque na Marquês de Sapucaí, quando a Escola Unidos da Ponte homenageou o Paraná em um dos desfiles de samba do Rio de Janeiro – a escola apresentou o prato toledano em uma das alas.

Já em Curitiba, o Disk Costelas de Ricardo Bortolan é um exemplo de como o churrasco é um prato que concorre fortemente com a tradição do barreado. O costelão funciona a todo vapor a partir de quinta-feira à noite até domingo, vendendo no balcão carnes sob encomenda. “Eu não abro mão do churrasco. É estranho dizer: vamos lá em casa fazer uma festa e comer barreado”, explica o produtor de vídeos Marcos Ferreira, cliente do Disk Costelas. Ferreira é paranaense e acredita que o barreado deveria ser o prato típico por causa do regionalismo. Ele não nega, porém, que o churrasco é a preferência geral.

Metade não vai à praia

O litoral paranaense é um mistério para metade da população do interior do Paraná: cerca de 52% destes moradores nunca estiveram nas praias daqui. E os motivos são óbvios, segundo pesquisadores. “Diria que 70% da população de Londrina e Ma­­ringá, quando vai a praia, escolhe Santa Catarina. É um estado de referência para o veraneio. Acredita-se que lá existam mais atrações, ou ainda, porque muitos que vivem no interior cultivam o hábito de sair de férias para um lugar que não tenha tanta gente co­­nhecida. Por isso, fogem para Santa Catarina”, diz o sociólogo e pró-reitor da Uni­versidade Estadual de Londrina (UEL), Paulo Bassani.

Para a historiadora Yonissa Wadi, as condições das estradas favorecem o estado vizinho. “O acesso às praias do litoral paranaense é complicado para quem vive em Toledo. Além disso, a distância entre as praias paranaenses e as catarinenses é muito parecida. Como existe um turismo mais forte lá, eles acabam optando pelas praias do vizinho”, afirma.

Pelo fato de não conhecerem ou porque vieram apenas uma vez ao litoral do Paraná, os habitantes que vivem no interior costumam dar uma nota maior às praias daqui: numa escala de 0 a 10, votaram em uma média de 7,6. Para quem vive na capital, na região metropolitana e no próprio litoral, a nota do litoral cai para 6,4.

Viagem

Poucos têm hábito de vir para a capital

Oito a cada dez moradores do interior do Paraná não visitaram Curitiba no ano passado. Isso significa, em partes, que estes habitantes têm uma vida independente da capital e costumam recorrer, quando necessário, às cidades mais próximas, mesmo que elas estejam em outro estado.

No Norte Pioneiro, por exemplo, existem mais linhas áreas e de ônibus que levam os moradores a São Paulo do que a Curitiba. “A distância e a falta de infraestrutura das estradas fizeram com que o pessoal do interior buscasse alternativas nas proximidades. Temos alunos com mestrado que nunca foram a Curitiba. Eu por exemplo, sou gaúcha, moro no Paraná há dez anos, mas nunca fui à capital curitibana. Vou sempre a Porto Alegre, onde vivem meus familiares”, diz a historiadora historiadora Yonissa Wadi.

Para o sociólogo Paulo Bassani, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Curitiba não é visitada porque não é vista pelo pessoal do interior como local de turismo. “Quem procura a capital, vai em busca de trabalho ou de uma universidade para estudar.”


12 comentários

  1. domingo, 10 de janeiro de 2010 – 17:14 hs

    EU FUI ASSISTIR Á UM TEMPO ATRÁS UMA APRESENTAÇÃO NO TEATRO GUAIRA CHAMADO ( PARANÁ TERRA DE TODAS AS GENTES))) UMA MARAVILHA DE ESPETÁCULO……EU DIGO INESQUECIVEL TAMANHA Á BELEZA DA APRESENTAÇÃO DOS POVOS E RAÇAS QUE HABITAM O ESTADO DO PARANÁ,,,,AGORA QUERER TRAÇAR UM PERFIL DO POVO PARANAENSE?? É MUITO DIFICEL MESMO,,,,,,MAS EU DIRIA É UM POVO BOM, ORDEIRO,TRABALHADOR E AMIGO,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,

  2. FILET MIGNON
    domingo, 10 de janeiro de 2010 – 17:36 hs

    Sem contar que o Jornal mais lido em algumas cidades do Norte Pioneiro é O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo… Os times de futebol com maior torcida são o Conthians Paulista, o Palmeira e o São Paulo.
    As prais mais conhecidas pelos “pés vermelhos”, até 1970 eram as do litoral Paulista e do Rio de Janeiro, havendo, realmente uma explicação para este comportamento… Não havia asfalto ligando Curitiba ao Interior, o que ocorreu somente no Governo de Jayme Canet Junior com os famosos “casca de ovo”, QUANDO TEVE INÍCIO A INTEGRAÇÃO DO ESTADO.
    Aliás, JAYME CANET JÚNIOR foi o primeiro Governador do Paraná originário do interior do Estado (Andirá), ele foi “eleito” pelo Governo Militar.
    O primeiro Governador paranaense do interior do Estado, DO dISTRITO DO corujá, ENTRE jOAQUIM tÁVORA E CARLÓPOLIS, eleito democraticamente pelo voto direto foi JOSÉ RICHA, em 1982.
    o MESMO DEVE TER OCORRIDO COM O SUDOESTE DO ESTADO, COLONIZADO POR CATARINENSES E GAUCHOS.
    Taí uma diversidade de cultura perfeitamente explicável!

  3. MOREIRA
    domingo, 10 de janeiro de 2010 – 20:03 hs

    EU SOU PARANAENSE E GOSTO DE COMER CORDEIRO, GOSTO DO CARNAVAL DE ANTONINA, DO VINHO CAMPOLARGO, DO LARGO DA ORDEM, DO TEATRO GUAIRA, DOS ARTISTAS PARANAENSES, ESCRITORES, ENFIM TODA A SOCIEDADE PENSANTE DE NOSSO ESTADO.O PARANA E LINDO! OS PARANAENSES O MERECEM!

  4. ▄▀▄†Ψ REQUEIJÃOΨ†▄▀▄™
    domingo, 10 de janeiro de 2010 – 22:26 hs

    Identidade cultural do Paraná é a Boca Maldita.

  5. BARNEYBÉ
    segunda-feira, 11 de janeiro de 2010 – 11:54 hs

    SOU CATARINENSE DE NASCIMENTO MAIS PARANAENSE POR ADOÇÃO , NEM POR ISSO DEIXEI DE CONHECER O MINIMO DAS COISAS BOAS DESTE ESTADO TÃO RICO EM CULTURA E POVO , JÁ FUI DO RIO G. DO SUL AO DISTRITO FEDERAL MAIS IGUAL AO PARANÁ NÃO HÁ O QUE FALTA É INTERESSE PÚBLICO E PRIVADO PARA DIVULGAR MAIS NOSSA CULTURA PARA OS PARANAENSE E MEIOS PARA ISTO NÃO FALTAM TODOS SABEMOS ENTÃO.

    QUE TAL TAL UMA CAMPANHA DO TIPO.

    BICHO DO PARANÁ OU PIÁ CURITIBANO OU ESTE É MEU PARANÁ.

    EXEMPLOS TEMOS.

    PAULO LEMINSKI,DALTON TREVISAN,CRISTOVÃO TEZZA ENTRE OUTROS
    GRANDES NOMES DA LITERATURA.
    ARI FONTOURA ( TV )
    ARRIGO BARNABÉ ( MUSICO )
    GERALDO PIOLE ( CINEASTA )
    SILVIO BACK ( CINEASTA ) CATARINENSE + PARANAENSE QUE ESSE.

    A COPA DE 2014 É UMA BOA PARA DARMOS O PONTAPÉ.

  6. segunda-feira, 11 de janeiro de 2010 – 13:20 hs

    O interior do Paraná foi colonizado pelos paulistanos e adotou aquela cultura. Em tudo, do sotaque ao time do coração. Há, portanto, 2 paranás, o dos sulistas ou curitibocas e o dos paulistas. é uma cisão clara: no interior ninguém torce por time curitiboca, não lê jornal (gazeta do povo, por exemplo) curitiboca por ai vai….
    Ah! é bom avisar ao Reto Bicha que no interior também não se vota em candidato curitiboca…

  7. Marcelo Machado
    segunda-feira, 11 de janeiro de 2010 – 18:42 hs

    O chamado Paranismo é uma empulhação que serve apenas a políticos locais, artistas locais, esportistas locais e jornais locais. Eles lucram com isso.
    É por essas e outras que, quando alguém vem falar de identidade cultural, eu saco logo minha pistola d´água.

  8. quarta-feira, 13 de janeiro de 2010 – 22:46 hs

    Por aí se vê que esse negócio de “estados”, cada vez mais, é uma divisão apenas administrativa (e por consequência, política e fiscal). A cultura é do local, ou da região, ou de grupos sociais. E não é só no Paraná.
    E também como divisão administrativa tem que ser repensada, é do tempo em que muitas regiões dos estados eram pouco ou nada habitadas.

  9. Celestino
    terça-feira, 17 de agosto de 2010 – 15:10 hs

    A identidade cultural paranaense, vai aos poucos surgindo vigorosa, graças a pessoas do naipe de Fábio Campana.

  10. Celso Eli da Rocha
    terça-feira, 7 de janeiro de 2014 – 13:22 hs

    Respondendo ao Sr. Marcelo Machado: primeiramente, o termo ¨curitiboca¨ é pejorativo! segundo: o Governador Beto Richa é londrinense e não curitibano; e o interior do Estado foi colonizado sim por paulistanos, mas também por mineiros, nordestinos e grupos vindos da Europa e Ásia (japoneses e árabes.)

    Vemos aqui da Capital, um certo preconceito do paranaense do interior, parece que se ¨orgulham em dizer que preferem SP do que o PR¨, porque não torcem para os times da Capital e porque não visitam Curitiba…que pena, o interior só foi colonizado, e se tornou a potência que é,graças e muito, há elite curitibana que cumpriu seu papel de gestora e forjou a ocupação do interior para fazer do PR um grande Estado .Isso o interior não lembra ou nem sabe. Lastimável.

  11. Sulzbach
    domingo, 20 de março de 2016 – 2:20 hs

    O Paraná simplesmente não tem identidade, não tem expressão cultural, subtraindo Foz do Iguaçu e Curitiba, ninguém vai se lembrar daquele estado, mesmo pertencendo à Região Sul e tendo sido colonizado por europeus (em parte), o povo paranaense não se destaca em nada. O RS é reconhecido por seus vinhos/espumantes, sua dupla de futebol Grêmio e Inter, por suas belas mulheres (as mais lindas do país), seu frio intenso, sua história e por sua região serrana nacionalmente famosa, sem mencionar que existe um sotaque e uma cultura própria, que faz do RS quase um outro país dentro do Brasil. Paraná é só mais um estado sem tradição no futebol, nos índices sociais, não tem figuras públicas importantes no cenário nacional, nada que o destaque como “diferente”, mesmo sendo aquele povo ordeiro e trabalhador!

  12. Aparecido
    quarta-feira, 9 de janeiro de 2019 – 15:47 hs

    Sulzbach, do comentário ai de cima, esqueceu de dizer sobre o Rio Grande do Sul: Que o estado está quebrado, que o indice de crimes é altíssimo, que é a terra da Maria do Rosário, Luciana Genro, e outras figuras da esquerda. Também esqueceu de dizer que estado é tão bom, que os gaúchos não ficam aí, migram para todos os lugares. A próxima vez que eu ver um gaúcho deslumbrado, aqui, com as cidades paranaenses, vou me lembrar de você. Afinal milhares de vocês migram para cá, falo por conhecimento próprio. Quanto a mulheres bonitas, já vi umas gauchonas bem feias por aqui, já a beleza das paranaenses, não preciso nem comentar, não é aconselhável expor os nossos tesouros. Figuras públicas vou falar só do Sergio Moro, pois fiquei com preguiça de escrever. E sabe a nossa fama de não falar com estranhos? É, para não ouvir idiotices, como estas que você escreveu.

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