Haj Mussi | Fábio Campana

Haj Mussi

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Os melhores de minha geração estão desaparecendo muito cedo. Agora se foi o Mussi. Luiz Felipe Haj Mussi. Apenas 64 anos e tanto conhecimento, tanta sabedoria, tanto ainda por fazer.

Na terça ele se mostrava indignado, pronto para entrar com uma ação contra a indicação do advogado José Antonio Dias Toffolli para o STF, o escolhido pelo presidente Lula.

O indicado de Lula é dotado de “notável saber jurídico”? Toffolli exibe “reputação ilibada”? Perguntava o Mussi com a mesma combatividade de 45 anos atrás, quando saíamos às ruas para protestar contra o regime fardado.

Foi naquele tempo que eu conheci o Mussi. Estudava Direito. Militávamos no movimento estudantil e tínhamos absoluta convicção de que a ditadura iria ruir pela força de nossos gritos, tão rápido quanto derrubamos o busto do reitor e o arrastamos pelas ruas.

Tudo estava impregnado de história. Existíamos para mudar o mundo. Fazíamos teatro para ampliar a consciência social sobre as mazelas que a falta de liberdade provoca. Eu, Mussi, João Elias e Alfredo Garcindo no palco, dirigidos por Walmor Marcelino, o paciente Marcelino a tentar nos transformar em atores brechtianos em infindáveis ensaios nos porões da Igreja de São Francisco de Paula.

Quando fui preso e levado para a ilha das Flores, no Rio, quem me achou foi o Mussi, desde então meu advogado e protetor. Arrancou-me daquele inferno. Devo-lhe, talvez, a vida.

A redemocratização tardou, mas veio. No Paraná, as oposições elegeram José Richa e o Haj Mussi, jovem, foi dirigir a Secretaria de Segurança Pública, até então dominada pelos milicos e pelo espírito do regime de exceção. Deu duro. Enquadrou coronéis, proibiu que andassem armados, exigiu respeito à população.

No governo seguinte, do Alvaro Dias, foi secretário Especial da Reforma Agrária por menos de cinco meses. Não era ouvido e o governo tinha um secretário de Agricultura, Osmar Dias, que dominava o setor e não admitia contestações, ancorado no irmão governador.

Mussi não tinha apego aos cargos. Saiu, foi advogar, passou pela Petrobras, acabou desembargador federal do Trabalho, novamente advogado e sempre na liça. Pronto para encarar o debate, para denunciar a falcatrua. Esse espírito o levou a presidência do Conselho Nacional de Ética do PPS.

Dia desses escreveu um belíssimo texto contra o nepotismo que pode ser lido no site do partido. E preparava a ação para expor as limitações do futuro ministro do STF, o Toffolli, que de saber jurídico ou passado ilibado não chegaria aos pés do Haj Mussi. O bravo Mussi.

Leia aqui a notícia sobre a morte de Mussi.


15 comentários

  1. Carlos C Mares
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 20:36 hs

    É lamentável o Brasil, o Paraná, Curitiba, perder um cidadão como esse. Porque o povo não elege pessoas como essa? Como nosso mundo seria melhor! Imaginem!!

  2. JOAO elias de Oliveira
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 20:40 hs

    Amigo Fábio,

    Choro. A proximidade da vida cria um vinculo incapaz de ser rompido. É difícil tentar o entendimento da distancia. Você, Fábio, é o exemplo da desconexão entre a proximidade e a ausência de tempo da convivência. Desperdiçamos quase quarenta anos da nossa vida abusando do silencio. Puta que pariu, voce pode imaginar quantos filmes o Alfredo poderia fazer uma resenha. O Canoinhas é bom ate hoje nisso. Conhece tudo que eh filme. E o Paulao? Deve estar na quinta mulher mas o seu papo continua agradável. Olha o absurdo: o Antenor Bonfim aprendeu a ser simpático. Provavelmente, este cachorro de elefante tenha conseguido manger a unison entre esta turma. Mas você tem que fazer parte disso. Não se joga fora um passado tão precioso como o nosso. Um beijo do seu sempre amigo cachorro de elefante

  3. Claudia Wasilewski
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 20:45 hs

    Que bonito, texto. Hoje precisamos de gente que chegue pelo menos a 1/5 do que ele foi. É muito triste ver os que estão indo embora. Nos meus tempos de UPE sempre tivemos as portas abertas da Secretaria e jamais, levamos borrachada. Já depois…..

  4. CLOVIS PENA -
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 20:47 hs

    Parabéns pelo texto, Fábio. Valeu, Mussi !

  5. Jaime Lechinski
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 20:50 hs

    Caro Fábio.
    Tocante o teu texto sobre o Haj Mussi. Tocante e exato.

  6. Jorge Ventura
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 21:44 hs

    Creio que o mais importante desta dor que vivemos nos dias de hoje, seja o exemplo cordial do Mussi, que soube levar a sua vida com os seus mais louvávei objetivos, deixando para todos nós a sua saudade e levando consigo a nossa amizade.

  7. terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 22:07 hs

    Ética e Moral, palavras milenares, que descrevem o dr Haj Mussi.
    Perdemos um amigo. Guardamos todos suas atitudes durante sua passagem em nossas vidas.

  8. Pé Vermelho
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 22:41 hs

    Fábio… conseguiu remexer com minhas lembranças de tempos antigos. Muito boa a homenagem que fez ao amigo Mussi…
    Foi-se cedo e está dificil forjar na luta homens como ele. O Paraná está de Luto!

  9. Ivo Ericsson Camargo de Lima
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 22:44 hs

    A tristeza da perda irreparável se ampara na grande figura que sempre nos representou o nosso querido Dr Mussi.

    Fonte de inspiração pela sabedoria, integridade e companheirismo o mundo fica um pouco menor com sua partida.

  10. Carlos Molina
    terça-feira, 22 de setembro de 2009 – 23:09 hs

    Todos nós temos ao menos uma história para elevar ainda mais a memória deste que foi um grande cidadão e amigo leal!

  11. Loacir Túlio
    quarta-feira, 23 de setembro de 2009 – 1:21 hs

    Perdemos um grande amigo que passou por esse mundo e fez a diferença,
    quem com êle conviveu, não esquece. Reunia muitas virtudes que não há necessidade de citar.
    Tivemos orgulho de trabalhar ao seu lado e juntos na Petrobrás. Pudemos conhecer a pessoa especial
    que sempre deixou saudades por onde passou.O nosso mundo ficou menos humano, menos justo,
    e infelizmente mais triste. E agora está deixado-nos para com certeza colorir o céu
    com um imenso arco-iris.
    ADEUS AMIGO MUSSI

  12. sapo barbudo
    quarta-feira, 23 de setembro de 2009 – 12:09 hs

    Perdemos um grande homem e o PPS o ÚNICO homem de moral naquele partido, agora só restou lixo….

  13. Gibraltar O. Neves
    quarta-feira, 23 de setembro de 2009 – 13:55 hs

    Quanto ao caráter e competência do Mussi não há o que questionar; tanto caráter e ética que jamais usaria, Sr Campana, termos jocosos como o “milicos” que vc usou em seu texto. Jamais tratou assim os policiais militares que chefiou e nunca, Sr Campana, proibiu ninguém de usar armas; não sei de onde vc tirou isso. Deve ser dessa sua cabeça meio ….. Viva Zapata!

  14. SOLANGE LOPES
    quarta-feira, 23 de setembro de 2009 – 14:26 hs

    Como é bonito ver um homem prantear a perda de um amigo.

  15. Luiz Mauro Lebelem
    quarta-feira, 23 de setembro de 2009 – 18:15 hs

    Pessoa especial e que em todos os aspectos sempre desempenhou muitissimo bem seu papel: Como Pai de Familia, como amigo, como profisisonal, como homem público e como cidadão brasileiro. Uma grande perda para o Paraná e Brasil !

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