Presidente vitalício | Fábio Campana

Presidente vitalício

De Kenneth Maxwell, na Folha de São Paulo. Tradução de Paulo Migliacci:

hugo-chavez

Em dezembro de 2007, Hugo Chávez foi derrotado em um referendo no qual propunha manter-se no poder por prazo indefinido. Mas o coronel Chávez não aceita um não como resposta.

Por isso, no último domingo, ele tentou de novo. Por 54,9% a 45,1%, o eleitorado venezuelano votou em favor da possibilidade de reeleição ilimitada para Chávez e para todos os outros detentores de cargos eletivos no país.

Chávez é um estranho fenômeno. Militar, ele desfruta do apoio dos pobres, mas é odiado pela elite. Ataca os Estados Unidos sempre que pode, mas a Venezuela continua a fornecer petróleo ao mercado norte-americano.

De muitas maneiras, ele pode ser considerado um populista à moda antiga, mas proclama um novo socialismo do século 21. Sua filosofia é uma mistura de retórica bombástica e exortação, mas ele propicia benefícios reais às camadas mais baixas da sociedade venezuelana.

Acima de tudo, Chávez é um sobrevivente. Desde que chegou ao poder pela via eleitoral, com 56% dos votos, dez anos atrás, ele vem conseguindo se reeleger sem dificuldade. Utilizando os oportunos superávits que os altos preços do petróleo propiciaram, ele conseguiu expandir a influência venezuelana na América Latina e mais além. E, como consequência, expandiu também sua influência desde Cuba até o Irã -e também dentro da Opep.

Desde que reafirmou o seu controle sobre a companhia estatal de petróleo, em 2003, a economia venezuelana cresceu em mais de 90%, ou mais de 13% ao ano. Mas há sinais de alerta. A despeito da derrota sofrida domingo, a oposição ao seu domínio ganhou força. E o impacto da crise financeira mundial não pode ser controlado indefinidamente. A disparidade entre consumo e produção se alargou de maneira exponencial.

A Venezuela continua a importar 70% de seus alimentos e roupas, e o país se tornou mais dependente que nunca da receita propiciada pelo petróleo. A inflação anual atingiu a marca dos 30%. Na terça-feira desta semana, um barril de petróleo estava sendo negociado a US$ 34 em Nova York. Um ano atrás, o preço era de US$ 100.
Os observadores críticos a Chávez alegam que isso significa que a Venezuela se tornou um país dotado de recursos, mas desprovido da capacidade de criar riqueza. A maneira pela qual Chávez interpretará sua vitória eleitoral esta semana é incerta, e sua decisão quanto à necessidade urgente de reforma não pode demorar demais.
Mas, dado seu retrospecto, não é certo, de maneira nenhuma, que Chávez optará pelo caminho da moderação.


6 comentários

  1. CLOVIS PENA
    sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 – 8:38 hs

    O veneno está matando a cobra.
    Poder vitalício: um sonho que passou pelo Atlético.
    O que é meu é só meu e o que é dos outros é nosso!
    A esperteza quando é muito grande pode comer o dono !!

  2. Zé Ninguém
    sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 – 8:39 hs

    Eu acho que tem uma semelhança bem acentuada com o governo estadual aqui do Paraná, o que me faz pensar na semelhança do povo , pois dizem que o governante e o reflexo de seu povo, será ?

  3. sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 – 11:31 hs

    Eleição ilimitada não garante vitaliedade no cargo. Exemplo? FHC, se tivesse reeleição indefinida, não ganhava de lula em 2002. Se é bom, tem que ficar. Se é ruim, não fica! Chaves é bom para o povo? fica! Lula é bom para o povo? deveria ficar, não fica por que não quer! A grita contra chavez é por que a direita está em baixa! Se tivesse em alta, tudo bem, pois eles ficariam no mínimo dois mandatos, como fhc, fogimori, menen! Aliás, esta coisa de reeleição foi inventada por eles!

    js

  4. Fernandes
    sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 – 12:20 hs

    Enquanto o Brasil e quase toda América Latina mergulhava em ditaduras patrocinadas por golpes militares a serviço dos interesses do “tio Sam” o Exército venezuelano continuou em defesa da Constituição e a favor do Estado de Direito.

    Na Venezuela, ao contrário de outros países latinos, no alto comando do Exército e das demais setores das FA sempre tiveram presentes os militares oriundos das camadas mais populares.

  5. Alessandro
    sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 – 16:20 hs

    A votação tem explicação.
    Como a estatização é o lema há dez anos, difícil quem não dependa do Governo na Venezuela. Porém, o voto não é secreto (é segredo entre os eleitores, mas não entre o eleitor e o governo).
    Quem se abstem ou vota contra, ganha as contas, simples assim.
    Os que votam contra também tem o passaporte cassado, pra aprender que não há lugar melhor do que o lar.
    Seria engraçado se não fosse trágico para um povo que, aparentemente, tem muito mais atitude que o brasileiro.

  6. Alessandro
    sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 – 16:34 hs

    Em tempo: aliás, querem saber para onde vão os votos legítimos na Venezuela?
    El fuego:
    http://notalatina.blogspot.com/
    (Com direito a fotos)

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