A crise e as previsões, segundo Delfim Netto | Fábio Campana

A crise e as previsões, segundo Delfim Netto

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Antonio Delfim Netto, para o Valor:

O mundo está vivendo uma crise econômica com características especiais. No passado as “recessões”, isto é, a redução do ritmo de crescimento da atividade econômica real foram, geralmente, produzidas por manobras deliberadas da política monetária para reduzir a velocidade de fornecimento do oxigênio (a expansão do crédito) que alimentava a atividade. Nas economias relativamente fechadas isso ocorre quando aumenta a taxa de inflação. Nas completamente abertas, quando amplia-se o déficit em conta corrente que acumula dívida externa insustentável. A manobra consiste em controlar o volume de crédito (com um aumento da taxa de juros) de forma a desestimular o aumento do consumo e do investimento e reduzir a demanda global (a do setor privado mais a do governo) ao nível da capacidade produtiva ou do crédito externo disponível. O sucesso da operação, ou seja a velocidade com que ela produz o equilíbrio entre a oferta e a procura globais reduzindo a taxa de inflação (e/ou o déficit em conta corrente) para o nível desejado, depende do conhecimento de como funciona o sistema econômico e da credibilidade da autoridade monetária. Trata-se, em geral, de uma operação extremamente delicada e socialmente custosa. Ela combina 1/5 de “ciência monetária” e 4/5 da “arte” de manipular as expectativas. É por isso que um Banco Central ágil, autônomo e crível é fundamental. Qualquer exagero pode desencadear uma crise que cobrará um alto preço em termos do PIB.


Nas recessões “corretivas” que conhecemos, a constrição de crédito (o famoso “credit crunch”) é feita através do sistema financeiro que está a serviço da economia real. Ele deve ser: 1º ) um órgão auxiliar cumprindo o papel de lubrificante que facilita o melhor uso produtivo dos recursos disponíveis; e 2º ) subordinado a princípios de avaliação de crédito e alavancagem controlados pela autoridade monetária. A que estamos vivendo tem outra natureza. É resultado: 1º ) dos erros da política econômica que tentou corrigir a recessão de 2001 (política monetária laxista dos Bancos Centrais e política fiscal que estimulou o endividamento imobiliário descuidado); 2º ) do comportamento ousado do sistema financeiro que sob o nariz dos supostos controladores (os Bancos Centrais, as agências de risco e os auditores independentes) criou inovações sem controle (algumas boas e muitas incompreensíveis); e 3) da suposta pretensão dos “econofísicos” (da Economia Financeira) que haviam descoberto como precificar qualquer risco. Em uma palavra, ela é resultado da “autonomização” do sistema financeiro que se transformou no fim de si mesmo para obter lucros com “derivativos impalpáveis” que substituíram – enquanto durou a insensatez – os suados lucros produzidos pelo trabalho na economia real.

Nesta recessão não houve uma constrição do crédito produzida por uma manobra corretiva dos Bancos Centrais. Ele sofreu uma morte “súbita”, gerada pela quebra de confiança entre todos os agentes (consumidores, produtores, investidores e instituições financeiras) que interrompeu o circuito econômico. Uma política monetária que forneça liquidez e uma política fiscal que difira o pagamento dos impostos e mantenha os investimentos do governo são condições necessárias, mas não suficientes para ressuscitá-lo. É preciso recriar a confiança, isto é, influir nas expectativas dos agentes para que eles usem a liquidez que lhes está sendo fornecida. É por isso que as “previsões” dos supostos portadores do futuro (os informantes do Boletim Focus, por exemplo) têm importância para o bem e para o mal. No dia 2 de janeiro de 2009 vemos as “previsões” para 2009: 1) crescimento do PIB, 2,4%; e 2) déficit em conta corrente, US$ 25 bilhões. Aceitemos que “prever é preciso”. Todos temos de fazer “previsões”. Não esqueçamos, entretanto, o fato desagradável que elas são para um “futuro”, incerto e opaco, e não podem adivinhar como a política econômica reagirá diante dos acidentes do trajeto.

Afinal, que “precisão” tem tais números? Olhemos os últimos oito anos recolhendo as “previsões” do primeiro Boletim Focus de cada ano e comparando-as com o que aconteceu:

Nada brilhante! Levemos pois as “previsões” para 2009 com uma pitada de desconfiança. Afinal, Cícero nos ensinou que “toda adivinhação é feita de um pouquinho de erro e de superstição e muita enganação…”


9 comentários

  1. André Marques
    sábado, 17 de janeiro de 2009 – 11:16 hs

    Meu caraca!!! Alguém traduz isso aí pra mim, por favor?

  2. CLOVIS PENA
    sábado, 17 de janeiro de 2009 – 13:18 hs

    Excelente !
    O texto é de uma clareza impressionante.

  3. LINEU TOMASS
    sábado, 17 de janeiro de 2009 – 19:03 hs

    FABIO.

    BALELA A “DISCURSEIRA” DO ECONOMISTA DELFIM NETTO.

    BABOSEIRA E TEORIZAÇÃO EM CIMA DE FENÔMENOS QUE JÁ ACONTECERAM, TUDO NÃO PASSA DE “TERGIVERSAÇÃO”, OU “EMBROMAÇÃO” EM PALAVRAS MAIS SIMPLES.

    SE ELE FOSSE ESSE MILAGREIRO DA ECONOMIA, COMO SE APRESENTA, TERIA PREVISTO AS BESTEIRAS QUE OS PAPAS DA ECONOMIA NEO-LIBERAL ESTAVAM FAZENDO NA TERRA DO LOUCO DO BUSH, QUE ENDOSSOU TODA ESTA QUEBRADEIRA DOS BANCOS AMERICANOS.

    DELFIM É UM DOS ADEPTOS DA TEORIA QUE INTRODUZIU O NEO-LIBERALISMO, NA FAMOSA REUNIÃO DO CHAMADO “CONSENSO DE WASHINGTON”, QUE INTRODUZIU A TESE ECONÔMICA DO ESTADO MÍNIMO, E DA TESE DE “BANCOS CENTRAIS INDEPENDENTES” , SEM QUALQUER INTERFERÊNCIA DO ESTADO.

    E FOI ESTA REGRA QUE IMPLANTOU O GURU DESTA LIBERDADE TRESLOUCADA, O Mr. GRESPAN, PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL NORTE AMERICANO POR DÉCADAS.

    HOJE ELE CONFESSA QUE FOI INCOMPETENTE NO CARGO E QUE ELE NÃO DEVIA TER SIDO TÃO LIBERAL QUANTO O FOI. HOJE ACHA QUE O ESTADO DEVE INTERFERIR NOS BANCOS CENTRAIS.

    ALIÁS ESTA INTERFERÊNCIA HOJE, É SUPLICADA PELOS GRANDES BANQUEIROS QUE JÁ QUEBRARAM N”” VEZES, CAUSANDO PREJUIZOS DE TRILHÕES DE DÓLARES.

    CALCULA-SE QUE DESAPARECERAM SÓ DOS VALORES DAS AÇÕES NO MUNDO TODO, A “MICHARIA ” DE 30 TRILHÕES DE DÓLARES.

    ORA, ORA PIPOCAS, DEIXAR UM BANCO CENTRAL LIVRE, LEVE E SOLTO, NAS MÃOS DA INICIATIVA PRIVADA, É O MESMO QUE PEDIR PARA O MACACO CUIDAR DO DEPÓSITO DE BANANAS (REPITO). E FOI ISSO QUE ELES FIZERAM.
    DEITARAM E ROLARAM COM A GRANA DOS TROUXAS DOS INVESTIDORES.

    FABIO, VEJA ESTE BAITA GOLPE DO CHAMADO MERCADO “A FUTURO”. QUE OS “NEO-LIBERAIS” APLICARAM.

    TEVE BANCO, QUE ALAVANCOU, 30 VEZES O VALOR DO SEU CAPITAL NO CHAMADO “MERCADO A FUTURO”, NEGOCIANDO VALORES FICTÍCIOS COM EMISSÃO DE PAPEL FRIO (CHIQUITITAS), E BUSCAVAM NO MERCADO A FUTURO,
    A GRANA DOS IDIOTAS DOS INVESTIDORES QUE ACHAVAM QUE ESTAVAM FAZENDO O MAIOR NEGÓCIO DO MUNDO.

    OS ECONOMISTAS ESTÃO EM BAIXA E DEVEM TEORIZAR SOBRE ESTES FATOS DA ECONOMIA REAL, E DEIXAREM DE SONHAR COM O ESTADO O ESTADO MÍNIMO.

    A MATÉIA, “TEORIA GERAL DO ESTADO”, DA CIÊNCIA DO DIREITO, DIZ QUE O ESTADO FOI CRIADO JUSTAMENTE PARA IMPEDIR QUE MEIO DÚZIA DE MALANDROS, PASSEM PARA TRÁS TODO UM POVÃO INGÊNUO, NESTES ALTOS GOLPES MDA ECONOMIA MUNDIAL.

    ALÔ, ALÔ, DELFIM NETTO.

    VOCÊ JÁ “COLABOROU” E “COLABOROU MUITO, “ENTRE ASPAS” COM O COITADO DE NOSSO BRASIL. ESTÁ NA HORA DE SE APOSENTAR.

    SERÁ QUE ELE VAI LER?

    LINEU TOMASS.

  4. LINEU TOMASS
    sábado, 17 de janeiro de 2009 – 19:15 hs

    AO ANDRÉ MARQUES.

    OLÁANDRÉ.

    ATÉ PARECE QUE O FABIO NÃO TINHA MATERIA MELHOR PARA “BLOGAR”.

    ANDRÉ, NUNCA ACREDITE NAS TEORIAS ECONÔMICAS, ATÉ HOJE ELES QUEBRARAM A CARA.

    OS FENÔMENOS ECONÔMICOS ESTÃO LIGADOS DIRETAMENTE A CIÊNCIA SOCIAL DA PSICOLOGIA, (INDIVIDUAL E SOAICAL), QUE DIZ QUE O HOMEM É UM SER IMPREVISÍVEL, TANTO COMO CONSUMIDOR, QUANTO COMO GOLPISTA DE ALTO COTURNO NO COMANDO DE GRANDES BANCOS DE INVESTIMENTO.

    O CHEFÃO DA BOLSA DE INVESTIMENTO EM ELETRÔNICA DE NOVA IORQUE, A FAMOSA “NASDAQ”, MATOU-SE DEVIDO AO TAMANHO DO GOLPE QUE ELE DEU EM FIGURÕES, ATÉ ARTISTAS E GOVERNANTES FAMOSOS. VOCÊ TEVE NESSA?

    TEM UM DELES PRESO AQUI NO BRASIL.

    LINEU TOMASS.

  5. LINEU TOMASS
    sábado, 17 de janeiro de 2009 – 19:27 hs

    ANDRÉ.

    LEIA: (INDIVIDUAL E SOCIAL).

    AINDA: VIDE QUE O GURÚ DELFIM, FALA A VERDADE SOMENTE NO ITEM FINAL, QUANDO DISSE:

    CÍcero nos ensinou que, “toda a adivinhação é feita de um POUQUINHO DE ERRO e de supertsição E MUITA ENGANAÇÃO”

    (VIVA O GURÚ, VIVO, DELFIM).

    LINEU TOMASS.

  6. OBSERVADOR
    sábado, 17 de janeiro de 2009 – 20:01 hs

    Todos iguais estes economistas. fora do governo – quando é facil deitar doutrina e falação teórica nos jargões inintelegiveis do economes, como disse o André Marques, eles resolvem todos os problemas.
    Porem, quando estão no governo, eles são o que estamos acostumados de ver. Não conseguem fazer o “dever de casa” e foi exatamente o que aconteceu com este puxa saco da ditadura que é o Delfin Neto: deixou a maior divida externa e a economia corroida pela inflação.
    Onde estavam os EONOMISTAS DO MUNDO, que não previram esta crise? Verdadeira ecatombe e nenhum destes “profissionais” -l que ganham fortunas para PALPITAR, conseguiu alertar do desastre.
    Entendem tanto como o Lula, que na sua santa ignorância e ja em pleno tsunami, deitou falação dizendo que seria uma simples MAROLA.
    Vendo do outro lado da situação, como consolo, vai ser esta MAROLA, que vai desmistificar o LULA, salvador dos pobres e reduzi-lo a sua verdadeira dimensão, um audacioso metarlurgico como aquele polaco LEC VALESSA, mais um dos enganadores da história.
    Bem feito pro Lula, que hoje tem “os conselhos do Delfim” eterno agente do sitema financeiro.
    Deu no que deu: Os BANCOS BRSILEIROS continuam se refestalando com incriveis lucros, enquanto a galera ignara do bolsa familia, acha que o Lula é o SALVADOR DA PATRIA, enquanto isso a classe média (a que realmente estrutura e mantem a economia) sifu.
    E viva o PT.

  7. Zé do Coco
    domingo, 18 de janeiro de 2009 – 9:05 hs

    Alan Greenspan disse várias vezes a mesma coisa. Só que ele dizia as coisas ANTES de elas acontecerem. Não lhe deram ouvidos…

  8. Mariana
    segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 – 4:24 hs

    Não sei se o boletim FOCUS tem a credibilidade que o o Delfim acredita que ele tem.. De qualquer forma, ele não pode esquecer que para recriar a confiança e se utilizar a liquidez é necessário algo bem diferente de um pedido lulesco por consumo!

  9. Apocalipse Now
    sábado, 21 de fevereiro de 2009 – 12:25 hs

    Preparem-se pois a crise vai durar bastante.

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