Aniversário do Marcos Prado: parabéns para nós | Fábio Campana

Aniversário do Marcos Prado: parabéns para nós

Por Roberto Prado

marcos-prado

Ontem, o poeta Marcos Prado completou seus 47 anos. Mas, quiseram os deuses e as musas da poesia que ele nos deixasse órfãos do seu incontrolável talento e contagiante alegria de viver na passagem do ano novo de 1996, não sem antes nos legar uma obra que resiste ao tempo sem perder aroma e sabor. Marcos Prado foi uma personalidade inquieta e um talento múltiplo que, mesmo com sua breve passagem entre nós, imprimiu sangue e vida no tantas vezes triste, oficialesco e provinciano ambiente cultural curitibano. Gregário por natureza, cercado de fiéis parceiros, ele fez parte de uma geração que, reunindo poetas, músicos, artistas gráficos e plásticos, cineastas, atores e afins, vem tentando, com as naturais dificuldades, tirar Curitiba de sua mórbida timidez, dando-lhe um ar mais moderno, alegre e cosmopolita. Para comprovar – e se deliciar – basta dar uma experimentada no belíssimo livro Ultralyrics, publicado pela Travessa dos Editores, que traz uma generosa seleção de diversas fases do poeta feita pelo diretor teatral e dramaturgo Felipe Hirsch. Além do livro, Ultralyrics permite ainda a luxuosa possibilidade de ler os textos enquanto escutamos o CD Aquelas canções do Marcos Prado, em performances estonteantes das bandas Beijo AA Força e Maxixe Machine. Parabéns para o Marcos Prado e, principalmente, para nós, que sobrevivemos para velar pelas boas energias deste mundo.

Clique no “Leia Mais” para ver dois presentes de aniversário do poeta.

(Presente 1)

passarinhos
piem na minha janela
façam uma serenata para mim esta noite
eu preparo as pipocas
e a mesa com frutas
vocês cantam e comem
eu bebo e danço

se a canção for triste
choramos todos juntos
se for alegre, barulho!
os vizinhos que se fodam

caso eles dindon
eu abro a porta: “entrem”
se não quiserem
cagamos na cabeça deles
e recomeçamos
na mesma nota

quando amanhecer, eu sei,
vocês têm trabalho
podem ir, mas já estão convidados
para a noite que vem
e podem trazer o resto da turma

(Presente 2)
Homem Remoto

a televisão carcomeu meu cérebro
assim como a vodca em outro episódio
por ela, espelho, virei vídeo
com ódio e áudio de mim mesmo

minha imagem paralisada, em foco
não tem controle pelo controle remoto
(só o bar Peixoto me faz sair da cama
curitibano tomando pinga com mel em copacabana)

vejo a tv como ela vê a mim, desconhecidos
enfim, como se vêem os íntimos antigos amigos
que não se falam, não se encontram e, sem pressa,
esperam, preferência, a ausência de si como festa


9 comentários

  1. Iara Teixeira
    quarta-feira, 17 de dezembro de 2008 – 7:29 hs

    Que beleza. Um dos meus preferidos esse
    poema dos passarinhos.

  2. Guardalupe
    quarta-feira, 17 de dezembro de 2008 – 12:17 hs

    Olha só, Iara Teixeira!!!

  3. Renato Hoern
    quarta-feira, 17 de dezembro de 2008 – 13:45 hs

    Viva Marcos Prado! Estudei e trabalhei durante uns anos em Curitiba e tive o prazer de conviver com o poeta, ou melhor, o POETÃO. Digo isso porque testemunhei a autenticidade dele, a profunda coerência entre a sua obra e a sua vida. Não estava mais aí quando ele se foi… mas guardo a lembrança dele com muito carinho. Poesia, música, integridade intelectual (e alguns arranca rabos, é claro, que ninguém é de ferro e o homem não era fácil).
    Saudades e abraços a todos os que foram e que ficaram.
    Renato, de Porto Alegre

  4. Zé do Belo
    quarta-feira, 17 de dezembro de 2008 – 14:02 hs

    Um cara que sendo uma lenda viva do urderground tinha a coragem de cantar sambas do Nelson Cavaquinho e Cartola em festa punk merece essas e muitas outras homenagens. Tive a satisfação de musicar algumas de suas poesias, em parceria com o Edson Vulcanis…. Viva Marcos Prado e parabéns a quem merece aí de cwb.

    Zé do Belo

  5. Roberto Prado
    quarta-feira, 17 de dezembro de 2008 – 16:23 hs

    Obrigado, Fábio, pela grande emoção. E já que você continua sendo o único herói da cultura nativa, com essa sua mania de que livro, para ser editado, tem que ser livro mesmo, que tal a Travessa publicar um do Sérgio Viralobos, o melhor poeta vivo do Brasil?

    Grande abraço
    Roberto, o Beco

  6. Araiê Prado
    quinta-feira, 18 de dezembro de 2008 – 10:24 hs

    Obrigado pelo carinho Fábio. Ano que vem vamos fazer um belo evento para o relançamento. Beijos

  7. Marcos Brandão
    sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 – 17:19 hs

    Minha admiração por este homem que deixou belas flores neste mundo. Uma em especial.

    Parabéns Marcos Prado.

  8. elizete klempe deavila
    domingo, 25 de setembro de 2011 – 2:16 hs

    Quando adolecente ,conhecia ele do busão!!ele era ilário …com suas caretas,nem fabia que tinha ficado famoso!!!carismatico,querido…quando morreu fiquei chocada,era um amigo que fazia a gente rir…bjus. querido…

  9. Paulo Josué Malanski
    sábado, 3 de outubro de 2020 – 1:29 hs

    2020… Quem vai ler isso? Marcos… 1074 ou 75, No Maria Montessori lá no Tingui, rodando em “estêncil” a maior e única edição do “Raposa em pele de Ovelha” Nome pretencioso para um jornal… E ainda tenho por aqui, em algum lugar, a edição do Sala 17, assinada por quase todos os poetas que estavam na noite de lançamento do livro… E eu nem gostava de poesia !!!!

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