O mundo respirou história nesta semana | Fábio Campana

O mundo respirou história nesta semana

De Renato Janine Ribeiro na Folha de São Paulo

“A mudança chegou aos Estados Unidos”? (Barack Obama, no 1º discurso após ser eleito)

SIM

A MUDANÇA chegou aos Estados Unidos, disse Obama, na primeira frase de efeito de um discurso repleto de expressões bem escolhidas para entusiasmar o povo.

Quer dizer, a mudança veio de fora.

Quer dizer, os Estados Unidos estavam atrasados. Bush representava o atraso. A Europa, outros países, inclusive o nosso, escolheram a mudança antes deles. No século 19, a liberdade estendia seus braços para acolher no porto de Nova York os mal-amados do velho mundo. A “América” era pioneira. Hoje, com a eleição de seu primeiro presidente negro, os Estados Unidos recebem uma mudança cujos ventos já sopravam em outras partes.

Mais para o fim do discurso, porém, Obama retoma a crença norte-americana de que seu país é líder do mundo, um “povo eleito” moderno: “Esse é o verdadeiro talento da América -a América é capaz de mudar”. Sim, a mudança tardou, mas, quando chega lá, o mundo todo muda. A mudança começou em outros países, mas é quando vence na “América” que ela ganha escala e se torna mundial.

Bush, após o 11 de Setembro, para vencer a guerra “contra o terror”, rogou a seu povo que consumisse mais, não menos. O usual nas guerras é pedir poupança e sacrifícios, canhões em vez de manteiga. Bush prometeu um Eldorado, só que feito de consumo, e não de valores. Como disse Michael Mandelbaum, seu governo foi um caso único de transferência de riqueza do futuro para o presente. Bush negou tudo o que é positivo nos próprios valores conservadores -austeridade, comedimento, poupança. Dilapidou dinheiro, sangue, fé e esperança. Gastou o futuro. Hipotecou até as vidas de quem ainda não nasceu.

Não sabemos como serão os próximos anos. Obama não prometeu maravilhas. Alertou que haverá atrasos e fracassos. Implicitamente, pregou a poupança, não a dilapidação. E foi depois dessa advertência que desenvolveu sua utopia, sua esperança num país de valores.

Há algo espantoso nisso. Com o avanço da campanha, a oposição entre valores da mudança e da esperança e valores da conservação e do medo foi se convertendo numa oposição entre o candidato dos valores e aquele que herdava a falta de valores.

McCain era o único candidato possível para o Partido Republicano justamente por ser o menos bushista dos republicanos. Mesmo assim, não conseguiu encarnar valores em que, seguramente, acredita. Não convenceu.

É curioso que o partido mais liberal, o dos nova-iorquinos afrescalhados que tomam “capuccino” (que George W. Bush condenou quatro anos atrás, porque não seria o da “verdadeira América”), acabasse sendo o único que sustenta valores. Porque o termo “valores” soa, com freqüência, conservador. Mas esse conservadorismo básico, que representa um compromisso com o país, com sua história, nenhum presidente dos Estados Unidos pode dispensar.

A diferença é que justamente o novo, o negro, o jovem, o candidato da internet (não a internet dos negócios, mas a da cidadania), tenha sido quem expressou os valores -e não o herói de guerra, o prisioneiro torturado no Vietnã, a derradeira reserva moral do Partido Republicano.

O simbolismo dessa vitória é duplo.

Está no fato de que os progressistas conquistaram o legado de uma preocupação ética que muitas vezes foi conservadora. As repercussões disso para a ética pública serão importantes. E também está na esperança despertada, na mobilização dos jovens, dos que votaram pela primeira vez, dos excluídos das urnas. Já em 2004 o governador Howard Dean mobilizara os jovens e usara a internet -mas não conseguiu a indicação democrata.

Dessa vez, a estratégia das “grassroots”, da base mobilizada, deu certo.

Ora, quem se mexeu pela mudança não ficará parado em casa. Vai continuar participando. Vai exigir de Obama que ele aja. Não é casual a referência do novo presidente a Martin Luther King, e de seus eleitores à grande marcha dos negros em Washington, há 40 anos. É como se, finalmente, eles chegassem lá.

As pessoas respiraram a história.

Podem até se enganar, mas essa sensação se tem poucas vezes na vida -quando se tem. E ela estava presente nos Estados Unidos -e no mundo- nesta semana. Respiremos fundo. Ela pode não durar. Mas, também, pode.


4 comentários

  1. tô de olho
    sábado, 8 de novembro de 2008 – 12:14 hs

    a eleição de Obama, um negro,
    nos EUA é fato notável e histórico, assim como a eleição de Lula em 2002, um operário.

    Com esses fatos históricos comprava-se que a humanidade avança pra melhor e sempre, apesar de as vêzes pairar um sentimento coletivo de mesmice e até retrocesso.

    Parabéns ao povão americano ! Irmãos da américa, estamos torcendo por vocês …

  2. Zé do Coco
    domingo, 9 de novembro de 2008 – 10:32 hs

    Renato Janine Ribeiro? Nunca ouvi falar. Só falta agora aparecer quem diga que os Estados Unidos mudaram porque o Lula mandou uma ordem explícita para tanto.

  3. segunda-feira, 10 de novembro de 2008 – 0:13 hs

    Sorte tua Zé do Coco!! Eu já ouvi falar e já li uns textos dele, e assim como hoje sempre me arrependo de ter perdido meu tempo lendo!!!! Ele é mais um destes esquerdoides uspianos que lutam para aprofundar o subdesenvolvimento no Brasil e no mundo!!! Um babaca!!!!

  4. anti-patrícios (as)
    terça-feira, 3 de março de 2009 – 10:06 hs

    Renato Janine Ribero, “esquerdóide”? Sei não, mas me parece que você está sendo influenciada por algum discurso que não o da análise que você mesma poderia ter feito das obras dele. Mas nem sempre entendemos aquilo que lemos.

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