O Brasil e o mundo, segundo Delfim Netto | Fábio Campana

O Brasil e o mundo, segundo Delfim Netto

Por Delfim Netto na Carta Capital

O desejo de todos os brasileiros (e, de fato, de todos os cidadãos do mundo) é tentar entender o que está acontecendo à economia e quais as conseqüências sobre a sua vida. Diante da diversidade das situações e das múltiplas possibilidades de desdobramento das políticas econômicas descoordenadas de cada país, o que se pode obter como resposta é muito pouco. Deve-se afastar, de um lado, o sentimento catastrófico de que, se “o mundo afundar, afundaremos com ele” e, de outro, a ilusão ingênua de que “estamos tão bem blindados e nada nos acontecerá”.

Fazemos parte do mundo e temos (para nosso benefício) procurado desesperadamente nele nos integrar. Os canais de transmissão entre nós e nossos parceiros estão cada vez mais abertos e, portanto, somos mais sensíveis aos estímulos (positivos e negativos) que eles produzem. É um fato óbvio que soubemos aproveitar o bônus que nos ofereceu o desenvolvimento recente da economia mundial com a ampliação do comércio mundial.


A desvalorização do dólar (que ajudou a aumentar os preços das exportações e das importações) não teve efeito sobre nossa dívida externa, que foi beneficiada, ainda, pela baixa taxa de juro externa. Por isso a relação Dívida Externa Líquida/Exportação, que era igual a 3 no fim de 2002 e é hoje nula. Com um colchão razoável de 200 bilhões de dólares de reservas e um regime de câmbio flutuante, é pouco provável que tenhamos problemas de financiamento externo com os inevitáveis déficits em conta corrente que teremos nos próximos anos.

Soubemos aproveitar o primeiro bônus que o mundo nos ofereceu. Estamos agora diante de um segundo bônus, este presente da natureza. Confirmam-se as importantes reservas de petróleo no pré-sal, que haviam sido apontadas nos U.S. Geological Survey, de 2000. A situação externa confortável em que estamos se deve, também, e de forma importante, à expansão da produção de petróleo no Brasil, que nos poupou do tremendo aumento dos preços do produto. Apesar de alguns percalços, devemos atingir a auto-suficiência (em valor) no fim deste ano.

Temos todas as instituições para utilizar com inteligência esse segundo bônus: uma empresa robusta e eficiente, a Petrobras, com ampla credibilidade internacional e rating de crédito melhor que o do País. Uma Agência Nacional do Petróleo que pode ser tecnicamente reforçada e um Fundo Soberano em criação no Congresso Nacional. Adequadamente coordenadas, elas permitirão regular o uso das reservas de petróleo em benefício da geração presente e das futuras, sem prejudicar as outras atividades econômicas com uma supervalorização do real e sem pôr em risco a importante conquista da estabilidade monetária conseguida com muito sacrifício, depois de meia dúzia de tentativas fracassadas. Se formos capazes (e não há razão alguma para não sê-lo) de utilizá-la corretamente, cooptaremos com segurança e rapidez o capital privado nacional e estrangeiro (dentro de condições que interessam a eles e a nós) para transformar o bônus da natureza em um importante instrumento de solução dos problemas que sempre abortaram o crescimento do Brasil: as crises de energia e as crises de financiamento dos déficits em conta corrente.

Esses fatos mostram que nossa dependência física do exterior está razoavelmente protegida. Podemos ter algum problema de financiamento com as correntes de comércio (exportação e importação), mas este é o setor (pela segurança que oferece ao credor) menos sensível às restrições de crédito, como provaram as nossas próprias crises anteriores. Haverá, certamente, alguma dificuldade com os investimentos diretos, mas para estes também oferecemos boas oportunidades: demanda interna crescente, taxa de retorno remuneradora e liberdade de transferência de lucro.

Somos uma economia que se globaliza velozmente, com vantagens e inconvenientes e, portanto, nossa Bolsa refletirá esse fato. A diferença é que estamos crescendo, o espírito animal dos empresários está solto e absorvemos tecnologia inovando. E estamos financiando dois terços dos novos investimentos privados com lucros retidos. Em outras palavras, os fundamentos estão corretos e isso sugere que, no prazo médio, nossa Bolsa se recuperará melhor do que a maioria.

Há, portanto, boas razões para acreditar que, a não ser por uma catástrofe universal, sofreremos menos do que a maioria das outras economias. A tardia mas fundamental iniciativa de cooperação entre os bancos centrais e os Tesouros do mundo para enfrentar a crise aumenta a esperança de que ele se afastará do cenário catastrófico.


6 comentários

  1. domingo, 28 de setembro de 2008 – 2:18 hs

    O delfin ainda existe?

  2. Vigilante do Portão
    domingo, 28 de setembro de 2008 – 20:00 hs

    Pior, existe e é chamado constantemente para dar conselhos à equipe econômica do governo Lula. Pode?

  3. Catarinense
    domingo, 28 de setembro de 2008 – 20:17 hs

    O Delfim Neto foi dar conselhos no Governo Collor e deu no que deu.
    Ele que mandou a Zélia meter a mão na poupança. Agora tá querendo fazer a cabeça do Lula?

  4. Gilberto
    segunda-feira, 29 de setembro de 2008 – 10:54 hs

    Alguém ainda consegue dar crédito a esse cidadão? Ah! sei o Molusco vive a aconselhar-se com essa anta.

  5. Cajuru
    segunda-feira, 29 de setembro de 2008 – 11:06 hs

    Como pode um governo q se diz diferente dos outros, manter contato e acreditar num cara que foi um dos mais responsáveis pela falencia brasileira na decada de 60, 70 e 80. Delfim acho que vc ta no fim!!!

  6. sábado, 8 de novembro de 2008 – 14:34 hs

    Penso que mediante a formação academica do Delfim, a sua posiçao foi bem subjetiva em relçao ao Brasil. Que Pena !

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