Clientes americanos cortam pedidos de exportador brasileiro | Fábio Campana

Clientes americanos cortam pedidos de exportador brasileiro

De Raquel Landim, Valor Econômico, de São Paulo

A desaceleração da economia dos Estados Unidos provocou queda nas encomendas para os exportadores brasileiros de manufaturados. Para a União Européia (UE), os embarques seguem fortes, mas o clima é de apreensão, a medida que o bloco é contaminado pela crise americana.

O enfraquecimento da demanda nos países ricos é mais um fator negativo para as exportações, que sofriam com a valorização do real, que reduz a competitividade dos produtos nacionais, e com o aquecimento da economia local, que limita o excedente disponível para vender no mercado externo.

As encomendas de clientes americanos recuaram entre 5% e 10%, dependendo do produto, para a fabricante de autopeças Robert Bosch, relata o vice-presidente, Besaliel Botelho. “Com a queda de venda de veículos nos EUA, já experimentamos efetivamente redução no volume exportado de autopeças”, disse o executivo. “Também estamos avaliando com preocupação o mercado europeu, mas a redução da demanda ainda não é visível”., afirma.

Botelho conta que a empresa perdeu contratos na Europa para fornecedores dos países do Leste Europeu, como República Tcheca e Eslovênia, mas o motivo foi a falta de competitividade por conta do câmbio valorizado e não a redução da demanda. De acordo com o executivo, as exportações da filial brasileira da Bosch devem representar entre 32% e 34% do faturamento este ano, um percentual inferior ao recorde de 45% em 2005.

As vendas brasileiras de manufaturados para os Estados Unidos recuaram 3% no primeiro semestre comparado a igual período de 2007, atingindo US$ 7,7 bilhões. Para a União Européia, as exportações de manufaturados tiveram bom desempenho, com alta de 15% de janeiro a junho. “A desaceleração da economia americana certamente está influenciando. Em conjunto com a desvalorização do dólar, esta é uma receita complicada para a exportação brasileira”, disse Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

O desempenho só não foi pior por conta dos reajustes promovidos pelas empresas. Enquanto o preço subiu 19%, a quantidade embarcada para os EUA caiu 13% de janeiro a março em relação ao primeiro trimestre de 2007, conforme os dados mais recentes da Funcex. O volume exportado para o maior mercado do mundo recuou em quase todos os setores no período, com destaque para máquinas e tratores (-17%), material elétrico (-18%), calçados (-24%) e automóveis (-60%). Na Europa, o volume cedeu quase 10% no primeiro trimestre, mas o preço avançou 23%.

O diretor comercial da fabricante catarinense de cerâmica Portobello, Mauro do Valle Pereira, diz que nos últimos 18 meses houve queda de 40% no volume exportado para os Estados Unidos, que representavam 50% das exportações da empresa até 2006. Neste ano, representará 30%.

Uma das estratégias para combater a queda nas vendas é direcionar o foco no segmento comercial americano. “Os grandes projetos não foram afetados. Acabamos de fazer uma entrega para um resort em Las Vegas”, exemplifica o executivo. A empresa começou a reestruturar as operações nos Estados Unidos, onde mantém uma subsidiária, diminuindo a participação do segmento de residências no seu mercado de atuação e ampliando a fatia de empreendimentos de maior porte da área comercial. Essa área representava até 2006 cerca de 20% das vendas e deve passar a 60% no fim de 2008.

Segundo Julio Callegari, economista do JP Morgan, estão evidentes os sinais de desaceleração da economia dos Estados Unidos, provocado pela explosão da bolha do mercado imobiliário e pela crise financeira. O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA deve crescer apenas 1% no terceiro trimestre anualizado, voltando para o fraco ritmo do início do ano. No segundo semestre, o PIB chegou a subir 2,2%, graças ao pacote de estímulo fiscal do governo Bush e aos cortes de juros promovidos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

“O fato novo é que a crise começa a se espalhar para Europa e Japão”, disse Callegari. No primeiro trimestre, essas economias pareciam imunes ao contágio. O PIB anualizado chegou a subir 2,9% na zona euro e 4% no Japão nesse período. Com o fraco desempenho da Alemanha e o enfraquecimento da produção industrial japonesa, as projeções ficaram sombrias. Segundo o JP Morgan, o PIB europeu deve recuar 0,8% no segundo trimestre e estagnar no terceiro trimestre. No Japão, a queda pode chegar a 3% ainda no segundo trimestre.

A desaceleração da economia mundial, especialmente a dos Estados Unidos, foi uma surpresa desagradável para os produtores de gesso do Nordeste. “Conquistar o mercado americano demora. Quando nos preparamos, chegou a recessão”, contou Hilberto Pereira Alencar, diretor da Brazilian Gypsum, um consórcio de 26 fabricantes de gesso que se uniram para exportar e abriram uma filial nos EUA. O empresário conta que os embarques para os americanos caíram pela metade. A construção civil é um dos setores mais atingidos pela crise.

De acordo com Alencar, as empresas brasileiras encontraram uma maneira de amenizar o problema e manter o investimento nos Estados Unidos. Em parceria com construtoras americanas, que fugiram da crise e partiram para o exterior, os fabricantes brasileiros de gesso começaram a exportar para Aruba e Costa Rica. No próximo mês, devem fechar um contrato de exportação de mais de US$ 10 milhões para uma construtora americana que realiza uma obra na Nicarágua. (Colaborou Vanessa Jurgenfeld, de Florianópolis)


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