Na Colômbia, o duelo de intransigências | Fábio Campana

Na Colômbia, o duelo de intransigências

O presidente e o líder da guerrilha têm histórias pessoais que moldaram convicções duras e arraigadas

O duelo na Colômbia, agora, é entre dois homens da mesma geração, ambos nascidos e criados no meio urbano, ambos com formação universitária. Álvaro Uribe Vélez, que hoje completa 56 anos, é filho de fazendeiro e seguiu o caminho óbvio em seu meio social: estudou em Harvard e Oxford, integrou-se à elite política, no Partido Liberal, governou Medellín e o departamento de Antióquia e hoje é presidente da Colômbia.

Alfonso Cano, que completa 60 dentro de duas semanas, é filho de um agrônomo e uma educadora e escolheu um caminho típico da “geração 68”: estudou antropologia, militou na Juventude Comunista (Juco) e há um mês foi anunciado oficialmente como comandante-em-chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), substituindo o lendário Manuel Marulanda, o “Tirofijo”.
Os dois respiram política desde cedo e têm nas veias a vocação para o poder, assim como a disposição para conquistá-lo e exercê-lo com a energia que for exigida. E, de certa maneira, ambos acertam contas com o passado.
Para saber mais, leia a matéria de Sílvio Queiroz da equipe do Correio Braziliense. Clique no

O duelo das intransigências
O presidente, por vingança: sua vida foi marcada pela morte do pai, em 1983, em uma tentativa de seqüestro pelas Farc. O líder das Farc, por rebeldia: o pai, entusiasta do Partido Conservador, deu ao quinto filho o nome de Guillermo León Sáenz, em homenagem a Guillermo León Valencia. Este, em 1964, como presidente, ordenou a operação militar contra um assentamento de camponeses sob influência do Partido Comunista — o episódio que deu origem às Farc.
O combate à guerrilha é o fio condutor da carreira de Varito (forma afetuosa do diminutivo Alvarito), em especial no período (1995-1997) em que governou Antióquia e criou cooperativas de segurança comunitária chamadas Convivir. Os opositores o acusam de ter legalizado os esquadrões paramilitares de direita, agrupados sob a sigla de Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). O pai, Álvaro Uribe Sierra, apontado como financiador do paramilitarismo, aparece em um episódio obscuro envolvendo um helicóptero registrado em seu nome e confiscado com o traficante Gonzalo Rodríguez Gacha, um dos homens fortes do Cartel de Medellín (que vivia o apogeu quando Varito era prefeito).
Desmobilizar os paramilitares foi o primeiro grande êxito do governo Uribe. Questão de honra, afirmam seus correligionários, ou de conveniência, do ponto de vista da oposição. Mas as AUC são também determinantes na transformação de Guillermo Sáenz em Alfonso Cano. Nas últimas entrevistas publicadas, no início da década, ele explicou a opção pela luta armada com um dado que, exato ou não, é revelador de sua disposição psicológica: 90% dos companheiros de militância estudantil foram assassinados pelos esquadrões, justamente por não o terem acompanhado rumo às montanhas. “Mataram a todos”, disse a mim duas vezes, com a voz amargurada e algo de nostalgia nos olhos.
Emoções à parte, o duelo se trava entre dois seres racionais e pragmáticos, dois organizadores metódicos. Colaboradores íntimos de Uribe assimilaram seu estilo gerencial, emprestado do setor privado: no governo, todos têm planos, metas, prazos e contas a prestar. Os veteranos da Juco que militaram com Guillermo Sáenz são unânimes em ressaltar seus dotes de organizador meticuloso, fiel à escola mais ortodoxa do marxismo-leninismo. Uma faceta menos conhecida que a do intelectual ávido e polemista afiado, reconhecida por quantos o tenham conhecido pessoalmente. “Enquanto outros comandantes das Farc estariam discutindo sobre bombas, Cano estaria de lado lendo um livro”, definiu Carlos Lozano, dirigente do Partido Comunista, que rompeu com as Farc nos anos 1990.

Fantasmas
Tenazes e convictos ambos, o líder das Farc e o presidente enfrentam cada qual os próprios fantasmas nesta fase decisiva do longo conflito colombiano. Uribe, como relatou ao Correio um funcionário de Estado que o conhece de alguns anos, “é duro no combate, mas sabe ser generoso em uma negociação”. A ambição de passar à história como o governante que pacificou o país depois de meio século supera o instinto de vingança contra os assassinos do pai.
Quanto ao chefe rebelde, pondera o analista León Valencia, ex-combatente do grupo M-19, “não pode simplesmente depor as armas sem ter nada nas mãos para exibir”. Entre 1991 e 1992, no mesmo processo de paz que resultou na desmobilização do M-19, Cano chefiou a delegação das Farc, que se retirou. Em 2000, falava com certo desprezo dos guerrilheiros desmobilizados “em troca de cargos no governo, embaixadas ou bolsas para estudar fora”, e garantia: “Com as Farc, o acordo tem que ser sobre os problemas de fundo do país, começando pela questão do poder político”.
Guillermo Sáenz, que se foi de Bogotá prometendo voltar à frente de colunas guerrilheiras vitoriosas, se debate em um dilema entrevisto por León Valencia. A razão lhe diz que a guerra está perdida. Mas na cidade o esperam os mesmos que aceitaram “cargos, embaixadas e bolsas”. Inclusive o irmão caçula, Roberto Sáenz, vereador na capital pelo partido de esquerda Pólo Democrático. “Ele tem necessidade psicológica de mostrar a todos eles que os 30 anos na selva não foram totalmente vãos”, diz o ex-guerrilheiro


2 comentários

  1. Rafael Mueller
    sábado, 5 de julho de 2008 – 14:48 hs

    Confesso que não entendi o título do post. Seria um convite a que o governo da Colômbia negociasse com os narco-terroristas das FARC? Uma democracia não pode transigir com aqueles que pretendem solapá-la. Do contrário, seria possível até mesmo decidir democraticamente se queremos uma ditadura… Não, não faz sentido mesmo. Há no título uma sugestão muito sutil de algo absoutamente descabido: transigir com terroristas proto-ditadores o futuro de uma democracia.

  2. Jose Carlos
    sábado, 5 de julho de 2008 – 20:48 hs

    Por mais críticas que se possam fazer ao presidente Uribe, ele está lá pela via democrática, há um congresso em funcionamento, um judiciário atuante e liberdades civis respeitadas. O grupo terrorista FARC é formados por bandidos, traficantes de drogas, inda que alguns deles sejam letrados, bem criados e com unhas e barbas bem aparadas. Mesmo assim são criminosos e devem ser presos e julgados. Nào se negocia com criminosos.

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