Preços dos alimentos vão subir, avisa Stephanes | Fábio Campana

Preços dos alimentos vão subir, avisa Stephanes

Depois da crise de oferta que dobrou o preço de alguns alimentos no mercado internacional e provocou manifestações em vários países, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, alerta para a possibilidade de uma nova alta de preços nos próximos anos.

“Como há um desequilíbrio mundial entre demanda e oferta, dentro de dois ou três anos pode ter um novo salto de preço”, afirma em entrevistas à revista Dinheiro. Ele também acha que a mudança de um mundo de oferta de produtos agrícolas para um mundo de demanda vai levar a uma redução do protecionismo nos países desenvolvidos. “Não por Doha, mas pelas necessidades mundiais”, afirma.

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Reinhold Stephanes
“Preços dos alimentos podem voltar a subir”
POR DENIZE BACOCCINA

DINHEIRO – O Brasil se prepara para uma safra recorde de grãos, mas os produtores reclamam do aumento do preço dos insumos e dizem que isso pode atrapalhar a produtividade. O governo prepara alguma medida para compensar essa alta?
REINHOLD STEPHANES – O aumento de custos está restringindo a possibilidade de o produtor ter uma renda maior. Somos o País que mais cresce na produção de excedentes para exportação. Como a demanda por produtos agrícolas é maior do que a oferta, houve alta dos preços. Esta alta foi superior aos efeitos do câmbio e da alta de insumos. O Brasil importa 80% do potássio e quase 60% do fósforo que consome. No caso dos nitrogenados, a médio prazo podemos ser auto-suficientes, se a Petrobras voltar ao mercado. O Brasil tem minas de fósforo. Falta alterar a legislação e resolver os problemas ambientais. Já em potássio, o Brasil só tem uma jazida, que corresponde a no máximo 20% do mercado. Não se pode ser uma agricultura extremamente forte, como é a do Brasil, e ficar dependente desses insumos.

DINHEIRO – Esta é a principal restrição ao crescimento do agronegócio brasileiro?
STEPHANES – Eu diria que é a restrição mais difícil. Porque as demais dependem de decisões mais fáceis.
DINHEIRO – O governo anunciou o refinanciamento das dívidas agrícolas. Outros refinanciamentos já foram feitos antes. Desta vez o problema será resolvido em definitivo?
STEPHANES – A Medida Provisória contempla 80% dos casos. Há casos pontuais nos Estados de Santa Catarina, do Paraná e do Mato Grosso do Sul que já estão sendo avaliados. A dívida rural dos anos 80 e 90 foi debatida exaustivamente por dez meses e tratada com critérios técnicos, ao mesmo tempo que o governo mostrou preocupação em dar garantias a quem produz alimentos neste país.
DINHEIRO – O Brasil é mais ganhador ou perdedor nesta crise de alimentos?
STEPHANES – Acho que o Brasil ganha mais. Se você visitar os 5,6 mil municípios brasileiros, nos 4 mil que mais dependem de agricultura não vai encontrar desemprego. Isso mostra que o ganho de renda da agricultura ativa a economia.
DINHEIRO – A perspectiva para o agronegócio para os próximos anos é boa? As safras continuarão crescendo?
STEPHANES – As perspectivas são muito boas. O preço atual vai se manter, e em alguns produtos como arroz, trigo e feijão deve cair e se estabilizar. O impacto sobre a inflação já foi. Mas, como há um desequilíbrio mundial entre demanda e oferta, em dois ou três anos pode haver um novo salto de preço. Para este período, ainda temos estoques, a não ser que aconteça um problema climático, o que não esperamos.
DINHEIRO – O Brasil ainda está empenhado numa conclusão da Rodada de Doha. Até que ponto Doha é importante para a agricultura brasileira?
STEPHANES – A diminuição de barreiras é importante porque podemos colocar nossos produtos em outros mercados, principalmente União Européia e Estados Unidos, a preços maiores e com mais renda aos nossos produtores. Acho que a inversão de um mundo de oferta para um mundo de demanda vai obrigar esses países a repensar as suas posições. Vamos chegar à queda de barreiras e à diminuição de subsídios, não pelo tratado de Doha, mas pelas necessidades mundiais.
DINHEIRO – Apesar das barreiras, o Brasil está exportando etanol para os Estados Unidos.
STEPHANES – Está exportando, mas com sobretaxa extremamente elevada e exportando via Caribe e América Central. Estão nos tirando parte do que poderíamos ganhar.
DINHEIRO – O sr. acha que esta sobretaxa pode cair?
STEPHANES – Vai cair um dia, mas em quanto tempo não sei.
DINHEIRO – Algum dos pré-candidatos à Presidência dos Estados Unidos pode mudar isso?
STEPHANES – Não acho. Nada que transpareça nos discursos. A não ser a Hillary Clinton, que está mais preocupada com o custo da energia nos Estados Unidos e com a alta do petróleo e vê o Brasil como um exemplo.
DINHEIRO – Até o ano passado, o Brasil era o salvador do mundo no aquecimento global, com um discurso muito bem recebido lá fora. Isso mudou nos últimos meses, com a crise dos alimentos. O sr. acha que o Brasil tem condição de retomar esse discurso?
STEPHANES – O que observo nas últimas conversas com ministros, o último foi o do Japão, é que os países colocaram um pouco o pé no freio. O Japão já tinha decidido entrar em biocombustíveis, e tem que transformar essa decisão em lei. Eles decidiram esperar. O Brasil está um pouco solitário, mas temos o discurso correto.
DINHEIRO – Quais são as conseqüências das medidas anunciadas pela União Européia, de reformar a Política Agrícola Comum (PAC) e acabar com os subsídios ao etanol?
STEPHANES – É uma boa indicação, mostra que a União Européia está preocupada com as distorções que os subsídios trazem. Mas ainda é uma proposta que terá de ser aprovada por todos os países-membros.
DINHEIRO – Ficou claro com a saída da ministra Marina Silva que não havia uma unidade dentro do governo em relação ao meio ambiente. Com o novo ministro, Carlos Minc, há mais chances de uma coordenação maior nesta área?
STEPHANES – Eu acho que visões diferentes existem e vão persistir. Mas unidade de governo eu acredito que houve com a Marina, assim como deve haver com o próximo. Eu nunca tive nenhum problema com a Marina Silva. Isso não significa que não tivéssemos divergências. Mas o governo tomou uma decisão e todos a seguimos.
DINHEIRO – E qual é a decisão do governo em relação à Amazônia?
STEPHANES – É não derrubar. É chegar à meta zero de derrubada da floresta. Não precisamos derrubar uma única árvore para aumentar a produção agrícola brasileira. O que nós temos de ver melhor é quem está derrubando árvore e por que está derrubando.
DINHEIRO – E isso é tarefa de quem?
STEPHANES – Isso é tarefa do governo como um todo. Eu não consigo enxergar com bons olhos que um fazendeiro de tamanho médio e grande derrube floresta para produzir boi.
DINHEIRO – O sr. acha que se a lei ambiental for de fato cumprida a agricultura não vai sofrer?
STEPHANES – É possível que algumas questões tenham de ser revistas. Existem atos hoje que restringem a atividade, por exemplo, em Diamantina, perto de Cuiabá. E lá tem a Sadia, a Perdigão, o Bertin. É uma área consolidada de produção. Temos que ser racionais na aplicação da lei ambiental.
DINHEIRO – A reserva Raposa Serra do Sol é um bom exemplo de falta de unidade dentro do governo. Qual é a opinião do Ministério da Agricultura sobre os arrozeiros instalados lá?
STEPHANES – Para a região Norte, a produção de arroz é importante, porque eles abastecem hoje essa região. Se eles deixarem de produzir, o arroz terá que vir do Sul do Brasil. Mas essa é uma decisão de governo.
DINHEIRO – O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, prometeu duras ações contra os brasiguaios, que transformaram o Paraguai no quarto maior exportador de soja do mundo. Há planos de impedi-lo?
STEPHANES – Primeiro, eu não acredito que o Lugo faça isso. Os brasiguaios são basicamente paranaenses. E todos nós sabemos que o governador Roberto Requião é amigo do Lugo.
DINHEIRO – Era só discurso?
STEPHANES – Acho que sim. Os brasileiros fizeram uma revolução agrícola no Paraguai. Coisa que os outros países não tiveram o privilégio de ter. Acho que se Bolívia ou Venezuela tivessem isso estariam felizes.
DINHEIRO – O Ministério da Agricultura foi muito criticado por aceitar a exigência da União Européia e não ter sido capaz de cumprir as condições, o que acabou levando à suspensão das importações.
STEPHANES – Aceitamos as regras da União Européia, há oito anos, baixamos normas e depois não cumprimos e ainda fraudamos essas normas.
DINHEIRO – O governo brasileiro errou ao aceitar uma exigência além do que deveria ou errou em não cumprir?
STEPHANES – Errou ao aceitar uma exigência que poderia ter normas diferentes, atendendo ao objetivo de sanidade, errou em não cumprir e errou muito mais em fraudar.
DINHEIRO – E que prejuízo isso causou à imagem do Brasil lá fora?
STEPHANES – Não causou prejuízo nenhum, porque eu agi de forma rigorosamente correta. Reconheci o erro, trabalhei para reabrir imediatamente e não para contestar. Nosso esforço foi para manter o mercado aberto e não contaminar os 150 países que importam carne do Brasil. Aí o mundo todo se acalmou e ninguém mais discutiu o assunto. Não teve reflexo econômico para o Brasil porque essa demanda da União Européia foi rapidamente absorvida. O maior importador brasileiro é a Rússia. Eu chamei imediatamente o ministro russo, fizemos aquele almoço. Agora vamos trabalhar para cumprir as normas e negociar a sua reformulação.
DINHEIRO – O sr. acha que falta ao Brasil fazer uma campanha de marketing, para contrapor às campanhas negativas que fazem do País?
STEPHANES – A desinformação na Europa é extraordinária. Quando eu dei palestras na Holanda e disse que no Brasil só se produz soja em 3% do País, acabou a discussão, porque eles pensavam que se produzia soja no Brasil inteiro. Assim como a ministra da União Européia achou que a Amazônia era colada a São Paulo. Eles não têm noção do que é o Brasil.
DINHEIRO – Não falta ao Brasil mostrar isso melhor?
STEPHANES – Falta, evidentemente que falta. Eles não têm essa idéia.


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