Os pecados da carne | Fábio Campana

Os pecados da carne

Antes de partir para o churrasco de hoje, leia o texto do deputado e médico Luiz Eduardo Cheida. É um apelo da moçada que acredita que os animais não foram feitos para servir de comida, vestuário, cobaia, tração ou distração.

Como toda a pregação contra os costumes estabelecidos, Cheida procura nos confrontar com a irracionalidade dos hábitos, mesmo sabendo que tem mínimas chances de nos convencer a deixar de ser carnívoros.

O que vale é o texto, ao molho do desespero, suculento como um baby beef antes do ponto. Ideal para intelectuais que gostam de praticar estes e os outros pecados da carne com uma ponta de dúvida na consciência.

Para ler o texto integral do Cheida, clique no

Os Pecados da carne

Luiz Eduardo Cheida
A PeTA oferece 1 milhão de dólares a quem criar, em laboratório, carne com gosto e textura de carne natural de frango, até junho de 2012.

PeTA ou People for the Ethical Treatment of Animals (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais) é a maior organização mundial pelos direitos dos animais. Para seus 800.000 membros, animais não foram feitos para servir de comida, vestuário, cobaia, tração ou distração.

O prêmio, com gosto de desespero, pretende diminuir o sofrimento dos animais e reduzir os efeitos ambientais devastadores da indústria da carne.

Por sofrimento dos animais entende-se o esfolar raposas, ainda vivas, para a produção de casacos; enterrar gansos, deixando o pescoço de fora, despejando milho sem parar, através de um funil, até provocar esteatose hepática (engorduramento do fígado) para se fabricar o patê mais caro do planeta; seccionar as patas de cavalos e deixá-los esvair-se em sangue com o fim de obter-se carne mais enxuta; dilacerar o bico das aves de granja e espremê-las em espaço menor que uma folha de papel ofício, matando-as em um tempo 15 vezes menor do que se vivessem livremente; privar bezerros de esticar as pernas, após separá-los das mães, de sua alimentação natural, de sua liberdade, para abatê-los, com meses de vida, vendendo-os como vitela; dependurar em ganchos e dar choques elétricos em cães, ainda vivos, pois a adrenalina torna a carne mais saborosa…

A sinopse deste circo de horrores sado-masoquista ainda é a essência do resumo da síntese de até onde pode chegar a estupidez humana.

Por efeitos ambientais devastadores entende-se a produção de carne em escala, solapando os recursos naturais.

Produzir 450 gramas de bife de gado confinado gasta 2,26 Kg de grãos, 9.450 litros d´água, energia de 3,8 litros de gasolina e 16 Kg de solo erodido.

Os recursos fósseis são para o transporte, tratores, fertilizantes químicos e pesticidas: os animais já são quase subprodutos do petróleo.

Mas, contrariamente à produção de carne, produzir vegetais para consumo humano é, em geral, 5 vezes mais eficiente em termos energéticos do que criar gado no pasto; 20 vezes mais eficiente que criar galinhas e mais de 50 vezes mais eficiente que criar gado confinado. Se hoje ainda tem sentido fazer o contrário é porque a carne vale mais que o petróleo. Porém, a longo prazo, produzir carne com recursos fósseis não faz o mínimo sentido.

A utilização excessiva da terra para criação de gado resulta na perda de sua camada fértil. Por todo o globo, a terra, que é a base da produção de alimentos, está sendo rapidamente erodida. Os fazendeiros optam por métodos de produção de baixo custo que deixam o solo exposto e submetem terras fracas à produção intensiva levando-as à ruína. A principal causa mortis das grandes civilizações foi o esgotamento do solo.
Na Amazônia, 90% dos criadores de gado abandonam as terras em menos de 8 anos. Na América Central, 25% das florestas foram derrubadas para darem lugar às fazendas de gado. Na América do Norte, 30% das terras são pastagens e 50% das terras cultivadas são de grãos para ração animal (só 2% são para frutas e verduras). Lá, 80% da soja e 90% do milho são para o gado. No Brasil, 44% das terras cultivadas produz alimento para animais. No mundo, a cifra é 50%!

Florestas e animais criados para a carne competem pela mesma terra.

O apetite do mundo banca o agronegócio. E este paga mais para quem come do que para quem preserva ou recupera a floresta.

Fazer carne em escala industrial gera sofrimento aos animais e devastação ao ambiente. Não se devolve a vida a um pedaço de bife. Da mesma forma, o ambiente destruído jamais será o mesmo.

Embora nenhuma diferença faça 1 milhão de dólares no bolso do cientista que criar carne artificial a preços competitivos, se você refletir sobre os pecados da carne, fará toda a diferença.

Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Premiado pela ONU por seus projetos ambientais, foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.


4 comentários

  1. Vegana Militante
    sábado, 26 de abril de 2008 – 11:22 hs

    É verdade. Há tantas razões para se aderir a um estilo de vida vegetariano. O dano ambiental é uma delas. No Brasil, os dois maiores vilões do efeito estufa estão ligados à pecuária, sendo o primeiro o desmatamento. O segundo é a emissão de metano pelos bovinos. Relatório emitido pela FAO alerta que a flatulência desses animais contribui perigosamente para o efeito estufa. O pum da vaca, em bom português, intensifica o aquecimento global e ajuda a manter o Brasil na lista dos maiores poluidores do planeta.

  2. sábado, 26 de abril de 2008 – 12:26 hs

    Fábio,
    Há um desligamento do consumidor com o processo todo que se desenvolveu antes do pedaço de bicho chegar à sua mesa. Textos como este que você publicou ajudam a entender que o buraco é mais embaixo. Sem dúvida, a humanidade precisa urgentemente rever seus valores.
    Um abraço!

  3. cidadão de olho ...
    sábado, 26 de abril de 2008 – 23:03 hs

    nada contra, mas enquanto o deputado “neoecologista” discute isso:

    desmatam-se florestas, cresce o consumo de drogas, poluem-se rios, morrem crianças trucidadas, inocentes continuam presos, municípios recentem-se de bibliotecas, canchas de esportes e escolas, etc e tal…

    E olha que esse deputado é um dos mais dignos da ALEP – PR ?

    Sr. parlamentares, caiamos na real !Vamos agir, mobilizar consciências para casos concretos, vamos visitar as ruas, os bairros, as cidades e ouvir os cidadãos !

    Vamos deixar de fazer mais leis e sim fazer funcionar as que já existem !

    Menos títulos de utilidade pública e homenagens inóqüas a “celebridades”.

    Chega de futilidades e mais seriedade com a “coisa pública” e respeito ao cidadão !

  4. lefama
    sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 – 1:06 hs

    Penso que: assim como um pouco de ócio seja capaz de gerar ideias brilhantes na nossa vida, a reflexão sobre a abstinência de produtos de origem animal, com a conscientização humana do que isso gera e significa, trará inúmeros benefícios ao planeta, à natureza, seus componentes como água, solo, ar, matas e as diversas espécies de flores, insetos polimizadores, animais diversos que conosco desfrutam e sobretudo, benéfico maior ainda à saude humana, a sua longevidade e bem estar. è um pouco de preguiça não pensar sobre o assunto e fazer outro tipo de alimento.grata.

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