Mussa José Assis dá férias para o jornalismo | Fábio Campana

Mussa José Assis dá férias para o jornalismo

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Mussa José Assis entrou em férias no jornal O Estado do Paraná e avisa que não volta ao posto de diretor de redação. É difícil de imaginar o jornalismo nativo sem a presença de Mussa na redação. O homem diz que vai para casa, cuidar dos netos, da horta e do pomar. Agüentará ficar longe? Na cabeça, um esboço de memórias do jornalismo nativo, o que significa a memória da própria vida neste canto do planeta.

Aqui, você vai ler a última entrevista do Mussa, concedida à revista Idéias. Clique em Leia Mais.

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O melhor jornal possível

Por Rubens Campana

Fotos: Paola De Orte

Em outros tempos o jornalismo era visto quase como um sacerdócio, um ofício monástico de busca pela verdade. A pós-modernidade mudou o jornalismo, mas não todos os jornalistas. Mussa José Assis viu essa profissão a partir de todos os ângulos. Da juventude à experiência plena. Da investigação da reportagem às máquinas de impressão. Anos de liberdade e anos de chumbo. Talvez a única coisa que não mudou nesses anos todos é que Mussa continua tentando fazer todos os dias o melhor jornal possível.

Como começou?
Sempre fui jornalista, a vida toda. Comecei na minha infância, quando ajudava o dono de uma tipografia. Chamava-se Delmar Ramos, era um jogador de futebol. Mas ele tinha também uma tipografia, onde fazia notas fiscais, impressos, e onde inventou um jornalzinho semanal, marrom e imparcial. Eu era molecão, de uns 14 anos, e morava na frente da tipografia. Eu ia lá ajudar a revisar texto e até a compor tipograficamente, letra por letra. Quando vim para Curitiba para fazer o científico no Colégio Estadual do Paraná, a primeira coisa que fiz foi um jornalzinho do Centro Estudantil do Colégio Estadual do Paraná, junto com o Nilton Finzetto, filho do Aluízio Finzetto, que foi o precursor da televisão e da rádio no Paraná. Eu não tinha terminado o científico ainda e já arrumei emprego de revisor em um jornal, sem nem ter 18 anos ainda. Fiz 18 anos em abril de 1961 e em junho eu já era jornalista profissional. Em julho peguei o meu registro de jornalista, e aí nunca mais deixei.

Como foi a experiência em São Paulo no Última Hora?
No final de 1961 e durante 1962 eu fiquei no jornal Última Hora do Paraná. Aqui eu era repórter, mas também acumulava a secretaria do jornal. No começo de 1963 o rapaz que era o secretário de redação em São Paulo ia entrar de férias. E no Última Hora acontecia uma coisa interessante, todo mundo que saía de férias nunca voltava para o mesmo lugar. Eu toquei o jornal por um mês em São Paulo, cobrindo as férias do outro secretário, e continuei lá, e fui continuando. Com exatamente 20 anos de idade eu já era secretário de redação do Última Hora de São Paulo. Em 1964 veio o golpe, que me pegou na secretaria do jornal. A redação foi invadida por soldados da polícia militar de São Paulo, que interromperam a edição que já tinha ido em parte para a rua. A manchete anunciava que o governador de São Paulo, Ademar de Barros, estava aderindo ao golpe. Era madrugada de primeiro de abril, um meio de semana. Fui preso no primeiro domingo depois do golpe, me levaram para o DOPS. Fiquei preso 36 horas, e então houve interferência, pois a notícia da minha prisão chegou a Curitiba. O governador Ney Braga pessoalmente pediu para me soltar, pois eu havia sido repórter do Palácio do Iguaçu, com ele governador. Fiquei na redação até o final de 64, mas o Última Hora passou por uma crise muito grande e foi fechado em vários locais. Em 65 voltei para Curitiba, para a chefia de redação d’O Estado do Paraná, onde fiquei durante um período muito grande, de 18 anos.

E o Correio de Notícias?
Eu tive uma briga interna e saí d’O Estado do Paraná e fui reabrir o Correio de Notícias, com um time grande, caracterizado em grande parte por ser formado por todos os desempregados e marginalizados da cidade. Ninguém que foi trabalhar lá tinha emprego. Foi uma época excelente! O Luiz Geraldo Mazza estava lá, o Fábio Campana estava lá, e tudo o que é louco da praça estava lá. Todo maluco que não conseguia emprego em lugar nenhum. Fizemos um jornal revolucionário. Marcou presença. Fiquei lá por três anos e meio. Só saí do Correio de Notícias quando ele foi transferido de grupo. Então voltei para O Estado do Paraná, e fiquei até 90, quando fui ser secretário de Comunicação do governo do Álvaro Dias. Fiquei durante um ano no governo do Álvaro e voltei para O Estado do Paraná, onde estou até agora.

Como é fazer jornalismo nos períodos adversos, de pouca liberdade ou de enfrentamento com o poder?
Eu peguei todas as fases possíveis, da democracia plena do Jânio até depois da revolução. Existem momentos em que o profissional tem de se adaptar e resistir, com certo jogo de cintura, porque mesmo sob censura é preciso tentar fazer o melhor jornal possível. Por mais que houvesse censura prévia, conseguiu-se manter a imprensa funcionando. Tanto que não houve a repressão que se viu na Argentina, por exemplo. Sem falar em Espanha e Portugal, onde foi ainda pior. Quando acabou a censura em Portugal nenhum português sabia mais fazer jornal, porque se passaram gerações sem imprensa livre. Eu trabalhei antes da censura, atravessei a censura e ainda estou aqui, em uma fase democrática.

Durante esse tempo, o que mais mudou no jornalismo?
Tudo. A evolução que ocorreu é muito grande, principalmente nos últimos 20 anos. Pensando bem, tudo foi feito da mesma forma desde 1400, com Gutenberg, até os anos 60, pois ainda se fazia imprensa com os tipos móveis de Gutenberg. A partir de 60 houve uma explosão. O jornal deixou de ser feito em chumbo. Hoje se faz jornalismo com a internet, telefone celular e a fotografia digital. Aí no meio disso tudo você pega um camelo como eu, que começou escrevendo em máquina Olivetti, com uma fita de algodão que enroscava, e que depois passou para a máquina de escrever elétrica. No meio ainda veio um computador que não era bem computador, era só uma máquina que compunha a partir de uma fita perfurada. Depois começou o computador de verdade. Em seguida fui obrigado a aprender a operar na internet, e de repente aparece o celular, o laptop e a foto digital. Um profissional velho tem que aprender tudo isso. Posso não saber usar um computador como um garoto novo sabe, mas sei usar os programas que eu jornalista precisa para mandar uma matéria para frente.

Mas em certo período você era capaz de fazer tudo, da reportagem até a impressão, não?
Eu aprendi tudo. Aprendi porque peguei uma época muito boa, tive muita sorte e muita gente me ajudando. No Última Hora, com 20 anos de idades, era secretário de redação. Jornalista nessa época não podia entrar na oficina, era proibido. Só tinha um elemento que podia entrar na oficina, era o secretário, que também fazia a ponte entre a oficina e a redação. Então eu freqüentava a oficina. E por que não aprender a operar linotipo? Então achei um cara que me ensinou. O sujeito tinha vindo da Turquia, e era um bom tipista, que me ensinou a trabalhar com linotipia. Aí passei a freqüentar a clicheria, que é a gravação da fotografia em zinco. Ajudava a preparar chapas. Eu tinha 20 anos de idade, estava solteiro e sozinho em São Paulo, trabalhando em tempo integral. Aprendi muito com a curiosidade. Eu ia ver a máquina funcionar e batia papo com o impressor, e aí ele me deixava apertar os botões. Acabou que eu estive presente em toda compra de maquinário n’O Estado do Paraná. Fiz o desenho dessa última rotativa inteira, sozinho. Muitas vezes operei máquinas na ausência de alguém.

Existiu uma idade de ouro do jornalismo nativo?
Houve uma fase que eu não digo que era de ouro, mas era de romantismo. Se com esse romantismo era melhor ou pior do que agora, não sei. O jornalista era jornalista em tempo integral, todos apaixonados por jornal e por cerveja. A gente saía da redação e ia pro boteco, muitas vezes amanhecia lá. E quem teve formação escolar na época pegou uma escola bem melhor do que a de hoje, pois quem fizesse ginásio naquela época tinha um bom português e uma formação boa. Os cursos universitários também eram melhores do que os de agora. Eu sou totalmente favorável à faculdade de jornalismo, é preciso existir essa formação acadêmica. Mas o jornalismo exige mesmo uma passagem por redação, televisão ou rádio, que é onde se aprende.

O que é essencial para um jornalista?
Tudo começa no que há de mais elementar, que é ter o domínio da língua. Todo jornalista que quiser ser bom precisa antes dominar o português, pois é o instrumento de trabalho dele. Escrever bem e sem erros. Segundo, tem que ler muito. Só se aprende a escrever lendo, e se o jornalista não ler não vai adquirir estilo. Fora aquilo são os pressupostos de tudo: ter ética, ser verdadeiro e um pouco corajoso.

E o episódio da única entrevista com Dalton Trevisan?
Dalton Trevisan nunca deu entrevista. Eu era muito amigo do Dalton, e eu digo que era apenas porque faz tempo que não o vejo. Tínhamos amigos em comum e passávamos noites conversando na marquise da Boca Maldita ou em um ponto qualquer da Rua XV. Aramis Millarch, Mauri Furtado, Sílvio Bach, ficávamos todos batendo papo. Até que um dia O Estado de São Paulo estava prestes a relançar o seu Suplemento de Cultura. Eu trabalhava no Estadão me pedem uma entrevista com o já famoso Dalton Trevisan. Fazia sucesso, mas era inacessível. Encontrei-me com o Dalton e disse: “amanhã vou te entrevistar lá no seu escritório”. E o Dalton: “Que?! Não vou dar entrevista!”. Eu: “Pô Dalton! Eu preciso, eles querem que eu faça uma entrevista com você e querem um conto seu pra publicar”. Dalton: “O conto eu forneço, mas a entrevista eu não dou”. No dia seguinte eu fui ao escritório dele, que ficava na fábrica de vidro da família, na Rua Emiliano Perneta. Sentei e falei: “Dalton, dá uma entrevista”. E ele: “Não dou entrevista, Mussa. Vou contar o que da minha vida? Que eu tentei ser saltador de vara no Colégio Estadual?”. E assim, aos poucos, ele foi contando a história dele, e dizendo frases: “O autor não é importante, o importante é a obra”. Eu não estava anotando, já que ele não falaria mais, e gravador naquela época pesava uns cinco quilos. Fui memorizando, correndo o risco, mas escrevi a matéria. Encontrei com ele e disse: “Dalton, escrevi sobre você”. E o Dalton: “Isso é traição!”. Eu: “Não. Escrevi mesmo”. Ele: “Então eu quero ler”. Mandei uma cópia, que ele devolveu depois de uns três dias, cheia de correções. Acontece que o original já estava em São Paulo, e tudo aquilo que ele pediu para consertar eu não consertei. Levei o cheque d’O Estado de São Paulo para ele, que era o pagamento dos direitos autorais do conto. Ele assinou o recibo. Dessa assinatura dele, no recibo, saiu a assinatura que o jornal publicou. Daí ele ficou louco! Dizia: “A minha assinatura aqui! Como que você conseguiu minha assinatura?” Mas no fim ele gostou da matéria, que foi primeira página do Suplemento Literário. Eu sei que até hoje ele guarda o xérox dessa página, e para todo mundo que pede para entrevistá-lo ele puxa uma cópia e diz: “Tá tudo aqui”.

Como é fazer jornal hoje?
Tudo continua igual, e o negócio ainda é tentar fazer o jornal mais verdadeiro possível. Não forçar a barra. Tudo o que aconteceu você dá, e ponto final. Já existe uma pressão enorme na relação entre a quantidade de matérias e o pouco espaço. Já é obrigado a selecionar. Mas você não pode selecionar jogando fora o que é bom. Hoje toco o jornal com extrema independência, extremo jornalismo. Jornalismo até a última conseqüência. E tomara que continue sempre assim. Sem assumir posições que radicalizem ou impeçam de dar notícia, pois ninguém em jornal tem o direito de sonegar nada.


5 comentários

  1. J. A. REZZARDI
    quarta-feira, 26 de março de 2008 – 14:39 hs

    É difícil de acreditar. Não consigo imaginar o velho Mussa longe de uma redação de jornal. Tomara que seja verdade, pois gostaria muito de ler um livro de memórias dele.
    Fábio, gostei da entrevista. Porém, confesso que jamais pensei em ler um título assim, apostava antes em uma manchete de finitude (não já, lá por 2040): Mussa cai sobre o teclado! Ponto final. Abraço do Rezzardi

  2. Anônimo
    terça-feira, 6 de maio de 2008 – 15:28 hs

    Fábio, você acha que Mussa saiu de livre e espontânea vontade? Será que não está na hora de aparecer um outro Correio de Notícias para que fique provovado que quem é rei nunca perde a majestadade? Não consigo imaginar Mussa feliz longe de uma redação de jornal. Horta? Pomar? Netos? Tudo é muito bom, para para de vez em quando não acha? Feriados, fim de semana.. Mussa foi, é e sempre será nossa referência de profissional de linha. Ieda Matias, também, ex- O Estado do Paraná

  3. sexta-feira, 20 de novembro de 2009 – 21:13 hs

    ler todo o blog, muito bom

  4. ROBERTO TADEU MACHADO
    quarta-feira, 23 de dezembro de 2009 – 21:57 hs

    Conheci o Mussa em 1965, quando foi feita a reformulação gráfica do Jornal O Estado do Paraná, pela senhora Clara Conti. Na época eu era ofice boy e como sempre fui curioso, Dona Clara notou meu interesse e sugeriu que eu aprendesse diagramação. Trabalhei muitos anos nessa função. O Mussa sempre foi uma pessoa muito competente e dedicada, renunciando a tudo pelo amora à profissão. Muito respeitado entre todos os colegas e pela sociedade em geral. Agradeço ao querido colega o apoio que me deu na juventude e por ter servido de exemplo de companheirismo sempre pronto a auxiliar as pessoas com quem convive. Um forte abraço.

  5. ROBERTO TADEU MACHADO
    quarta-feira, 23 de dezembro de 2009 – 22:01 hs

    Conheci o Mussa em 1965, quando foi feita a reformulação gráfica do Jornal O Estado do Paraná, pela senhora Clara Conti. Na época eu era ofice boy e como sempre fui curioso, Dona Clara notou meu interesse e sugeriu que eu aprendesse diagramação. Trabalhei muitos anos nessa função. O Mussa sempre foi uma pessoa muito competente e dedicada, renunciando a tudo pelo amor à profissão. Muito respeitado entre todos os colegas e pela sociedade em geral. Agradeço ao querido colega o apoio que me deu na juventude e por ter servido de exemplo de companheirismo sempre pronto a auxiliar as pessoas com quem convive. Um forte abraço.

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