Delazari contesta Dimenstein | Fábio Campana

Delazari contesta Dimenstein

O secretário de Segurança, Luís Fernando Delazari, contesta a crônica do jornalista Gilberto Dimenstein “Curitiba dá pena”. Diz que a violência em Curitiba nem de longe se compara ao que se vê no Rio ou em São Paulo. O equívoco, diz o secretário, está na manipulação do número de mortes sem causa definida, o que aliviaria a estatística de violência em outras cidades. Resumindo, garante ele que Curitiba aparece em péssima situação porque tem melhor estatística.

Leia a seguir a carta enviada pelo secretário ao jornalista. O texto continua no link “Leia Mais”.

Sr. Gilberto Dimenstein

Sobre seu artigo publicado na Folha de S.Paulo, deste domingo (03), faço algumas observações:

Curitiba não chega nem de longe a beirar realidades como as do Rio de Janeiro e São Paulo. Analisando com mais demora e detalhamento a pesquisa da Ritla percebe-se que muitas cidades do país contam com um altíssimo número de mortes sem causa definida. Isto significa que este número indefinido – seja por conta de falta de investigação ou de falhas nos IMLs locais (não pretendo aqui entrar neste mérito) – pode estar mascarando o número de assassinatos nestas capitais e em milhares de outras cidades do país e assim, distorcendo realidades.

A quantidade de mortes sem causa definida nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, na pesquisa da Ritla, é bastante alta, o que pode ser observado na matéria divulgada pela Folha de São Paulo neste domingo (3), no caderno Cotidiano. No estado de São Paulo, em 2005 foram registradas 4.729 mortes com causas indeterminadas e um total de 3.096 homicídios só na capital. No estado do Rio de Janeiro, foram registradas 2.043 mortes por causas indeterminadas e 2.552 homicídios na capital. Portanto, estas mortes – se investigadas – poderiam elevar consideravelmente a quantidade de assassinatos nestes locais. Já o Paraná, por exemplo, apresenta um dos índices mais baixos do país de mortes sem causa definida, são apenas 163 casos não definidos em 2005. Isto significa que nossos números realmente estão próximos da realidade. Em contrapartida, será que os registros de assassinatos de outras cidades – com este alto índice de mortes ainda sem definição de causa – condizem ou pelo menos se aproximam da realidade local?

Veja, não estou aqui querendo acusar qualquer estado de não notificar homicídios para melhorar sua posição no “ranking” ou dizer então que a situação paranaense é mais confortável – até porque estamos perdendo vidas e mesmo que registremos um único homicídio ainda será lamentável. Mas, posiciono-me contrário ao estabelecimento de rankings de violência no Brasil. Definitivamente – e isto está comprovado em uma pesquisa feita em meados de outubro do ano passado pelo Colégio Nacional dos Secretários de Segurança Pública do Brasil – cada unidade da federação tem a sua maneira própria de coleta de dados e pasme: muitos estados ainda “produzem” suas estatísticas manualmente, muitos ainda não contabilizam os dados criminais de 100% de suas cidades ou então não unificam os números das polícias Civil e Militar (apresentam um ou outro dado).

Portanto, como podemos pegar números absolutos enviados de formas diferentes pelos estados e colocá-los num mesmo bolo para avaliar a situação da violência no país? A análise da segurança pública vai muito além do que é feito hoje em pesquisas como essa. Temos que aprofundar esta discussão para melhorar e unificar a maneira de coleta de estatísticas. O Brasil precisa urgentemente escapar do amadorismo para conseguir combater a criminalidade. Enquanto o crime organizado usa das mais avançadas tecnologias, o país ainda não conseguiu sequer unificar seus dados criminais.

No Paraná, por exemplo, implantamos o Geoprocessamento – Mapa do Crime. É o único estado do país que realmente unificou o boletim de ocorrência das polícias Civil e Militar no Brasil para colocar fim a duplicidade de registros de ocorrência e dar mais confiabilidade aos números. Até porque, são com estes números que montamos estratégias de combate ao crime. No Paraná sabemos os dias, os horários e os locais onde acontece cada crime, graças a essa ferramenta de avançada tecnologia. Mais que isso: nós não apenas produzimos os mapas como avaliamos semanalmente a atuação policial. Em uma reunião semanal, estes dados são avaliados com a presença do secretário da Segurança, comandante geral da PM e delegado geral da Polícia Civil, além dos chefes de polícia de cada área avaliada. Unificamos os dados e unificamos o trabalho policial com um acompanhamento intenso do resultado deste trabalho.

É este sistema eficaz de produção de dados que auxilia na definição de estratégias policiais e ainda na cobrança de resultados da polícia que faz com que o Paraná se destaque “negativamente” nestes rankings que ignoram as características de cada unidade da federação. O Paraná paga hoje o preço de aparecer em posições desconfortáveis não porque é o mais violento necessariamente, mas porque possui sim um sistema mais eficaz de coleta de seus dados e que não deixa de contabilizar seus homicídios, assim como outros crimes.

Enfim, existe no Brasil uma necessidade maior do que simplesmente estabelecer rankings. Há primeiro a necessidade de qualificar e unificar a maneira de se coletar dados para que possamos definir estratégias sérias de combate à violência. Enquanto a segurança pública no Brasil for amadora, o crime irá continuar vencendo, infelizmente.

Em anexo encaminho um ofício que enviamos ao secretário nacional de Segurança Pública e mais dois documentos com o resultado de um workshop realizado em agosto de 2007 pelo Colégio Nacional dos Secretários da Segurança Pública (Consesp) e demonstra as enormes divergências nos sistemas e métodos de coleta de dados estatísticos do país. O workshop aconteceu para definir novas estratégias de reunião dos números em cada estado para termos mais uniformidade nas estatísticas que são enviadas à Secretaria Nacional da Segurança Pública.

Encaminho também os dados de homicídios de Curitiba e a taxa a cada 100mil habitantes para que possa fazer sua análise. Estes dados são os únicos que a Sesp Paraná considera corretos, já que é a Polícia Civil quem define o que é homicídio de forma técnica. Os dados utilizados pela Ritla são fornecidos pelo Ministério da Saúde, que tem outras preocupações e não tem a capacidade técnica para definir o crime de homicídio e de outras circunstâncias que levam a mortes violentas, como por exemplo o suicídio, o latrocínio, a lesão corporal seguida de morte e até mesmo a própria legítima defesa, excludente da criminalidade.

Obrigado pela atenção. Caso tenha alguma dúvida, estou à disposição para conversarmos mais detalhadamente sobre os assuntos pontuados neste documento pessoalmente ou pelos telefones abaixo. Gostaria, quando sua agenda permitir, que fizesse uma visita ao nosso sistema de coleta de dados para verificar in loco o trabalho que realizamos com as estatísticas.

Luiz Fernando Delazari

Secretário da Segurança Pública do Paraná

Presidente do Colégio Nacional dos Secretários da Segurança Pública


8 comentários

  1. Roleta Russa
    sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008 – 13:42 hs

    E os R$180.000,00 mensais do bicho, heim?

    Entram nessa conta?

    Heim?

    Alguém aí sabe ou viu?

  2. Sérgio Meyer
    sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008 – 14:50 hs

    Que tal comparar com os Estados que possuem o mesmo índice de IND(intenção não descoberta)? Que tal comparar a curva paranaense com as curvas similares de outros Estados? Vamos melhorar o jornalismo, minha gente. Não há desculpas para esse absurdo que vivemos na Segurança Pública do Paraná.

  3. El Kabong
    sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008 – 15:20 hs

    Meu Senhor…. Se esta criatura abominável é o presidente do colégio dos secretários, imagine o que acontecerá com a segurança pública no resto do país… ele não tem credenciais para ser nem presidente do jardim de infância dos secretários, quanto mais do colégio….

  4. Eduardo
    sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008 – 15:50 hs

    El Kabong seus argumentos são muito pobres !!!!

  5. El Kabong
    sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008 – 19:27 hs

    Ora, Eduardo… Pouco importa que meus argumentos são pobres, eu sou rico… Os políticos sempre me procuram na hora do arrocho…

  6. Bruce
    sábado, 9 de fevereiro de 2008 – 13:57 hs

    Absurdamente ridícula a resposta do secretário…tão fraco como ele é, logo estará em alguma direção da Sanepar…

  7. Cleusa Ferreira
    quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008 – 0:47 hs

    O secretário tem toda razão, quem não conhece ou não lê ai sim pode falar algo da segurança no PR, som os exemplos, para outros estados, nosso Governador é realmente um exemplo de politico e o nosso secretário é nota 1000.

  8. Bruce
    quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008 – 22:02 hs

    Um exemplo de hipocrisia,demagogia e populismo baratos.

    Ordenou que a Sanepar reajustasse a tarifa, já considerando que bancaria o justiceiro, posteriormente, vetando o reajuste.

    Tudo armado, puro teatro. Quem conhece os integrantes da cúpula da Sanepar sabe que isso é jogo de cena. A passagem do Sr. Stênio por Blumenau não é vista com saudosismo pelos moradores daqui…

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