Niemeyer por Leminski | Fábio Campana

Niemeyer por Leminski

Nos cem anos de Oscar Niemeyer, o olhar de um paranaense crítico e sua crítica feita em poesia. Paulo Leminski esteve em Brasília e deixou este testemunho que não é de deslumbramento com a obra do centenário Niemeyer e que é próxima de quem tem outra visão do mundo e da vida entre os homens.

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CLARO CALAR SOBRE UMA CIDADE SEM RUÍNAS

(RUINOGRAMAS)
Paulo Leminski (Anos 1980)

Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
a vida das pessoas
penetrando nos esquemas
como a tinta sangue
no mata borrão,
crescendo o vermelho gente,
entre pedra e pedra,
pela terra a dentro.

Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
criminoso por estar
fora da quadra permitida.
Sim, Brasília.
Admirei o tempo
que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.

Adeus, Cidade.
O erro, claro, não a lei.
Muito me admirastes,
muito te admirei.


Um comentário

  1. jango
    quarta-feira, 19 de dezembro de 2007 – 16:20 hs

    “…crescendo o vermelho gente…” Esta a grande verdade do entorno de Brasilia, como o entorno das grandes e medias cidades do Brasil. Lucio Costa, pouco lembrado, grande urbanista, quis talvez deixar um marco de como as cidades poderiam ser administradas nas suas diversas facetas. Poucos percebem a lição do renascimento artístico e urbanístico promovido em Brasilia por Juscelino. As obras de Niemeyer e outros grandes artistas nacionais não são vistas em sua integração e significado, assim como também não foi assimilada a lição de Lucio Costa. As nossas cidades (com algumas exceções) se degradam a olhos vistos, devido à picaretagem dos gestores públicos posto à frente dos governos pelo povo inculto politicamente. O poeta é a antena da raça. Leminski acertou na mosca.

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