Alice somos nós | Fábio Campana

Alice somos nós

Ao dizer que no País das Maravilhas de Lewis Carrol Requião seria Alice, a promotora Maria Teresa Uille Gomes não percebeu que a personagem não corresponde ao governador.

A ingênua Alice somos nós, o povo. Ao deslizar pela abertura da toca do Coelho Branco, numa descida que parecia não parar nunca, Alice medita: “ou este poço não tem fundo, ou esta queda não tem fim.”.

Alice caiu, de repente, sobre um monte de folhas secas. A descida tinha terminado. Ela estava no País das Maravilhas, Terra do Chapeleiro Louco, da Lebre de Março, do Gato Caçoador.

Não é necessário grande esforço de imaginação para encontrar nas figurinhas do governo os correspondentes a esses personagens. A Rainha de Copas, por exemplo, que pretendia cortar a cabeça de todos aqueles que se insurgiam, lembra muito o comportamento de soturnas personagens que rodeiam o governador.

Mas basta de fantasia. A realidade política do Paraná de hoje concorre com o realismo fantástico. Imaginem um escritor europeu. Cartesiano. Racional. Teria que mourejar anos para construir um personagem como o Duce, que está aí, pronto, com seus desatinos, à altura do ensandecido rei do Haiti que serviu de modelo a Carpentier.

Por aqui, a maioria, para não sofrer, faz de conta que é normal o governador chamar de canalha a todos que dele discordam, que é justificável prender a Elma Romanó, mesmo acreditando que ela é inocente; que é justo e correto tentar calar o Ministério Público, subordinar o legislativo e alardear que tem o Judiciário na mão.

Voltemos a Alice e ao nosso destino. Resta ver em que latitude e longitude cairemos nós todos, neste longo mergulho, buraco adentro. Insuportavelmente longo, uma agonia sem fim.


3 comentários

  1. jango
    sábado, 1 de dezembro de 2007 – 16:54 hs

    O que precisamos, nós o povo, Alice que somos – conforme diagnosticado acima – e que pagamos, graças ao voto dado na última eleição, esta encenação governamental instalada no Estado, é seguir a estória. Que fez Alice ? Comeu o cogumelo, cresceu e quando a Rainha de Copas estava para sentencia-la à morte (“Cortem-lhe a cabeça”), Alice chamou-os todos um pacote de cartas de baralho (“just a pack of cards”), com o que rodopiaram em volta dela e caíram como folhas mortas. Então, a irmã de Alice acordou-a e ela percebeu que tudo era um estranho sonho. O que a midia está fazendo com a divulgação e o debate de todos estes desmandos governamentais é justamente fazer com que o povo cresça e desperte na sua consciência política para chamar à ordem estes gestores públicos pelo que realmente estão sendo neste pesadelo administrativo em que vive o Estado – um pacote de cartas de baralho, e baralho marcado, inclusive em outros poderes do Estado. Folhas mortas para o interesse público, no geral. E tendo consciência do que realmente são os gestores que aí estão, o povo pelos seus meios e pelos seus representantes (já que as autoridades ditas de controle público, cheias de prerrogativas, régios salários e calhamaços de leis e normas se encontram anêmicas, insossas e inodoras frente aos fatos) exija um paradeiro e uma punição aos desmandos cometidos por esta gestão governamental de cartas de baralho marcado e folhas mortas. Se o povo, seus representantes e autoridades de controle público continuarem pequenininhos como estão terão suas cabeças cortadas. Mas o fim de Alice não é este. Sigamos a estória.

  2. Rodrigo
    domingo, 2 de dezembro de 2007 – 14:08 hs

    Requião, além de rei dos micos, é rei dos factóides. Tem o factóide do ferreirinha, do pedágio, da imprensa canalha, do conselheiro do tribunal de contas, do ministério público.
    Ninguém agüenta mais isso.
    Quanto ao factóide Ministério Público, repito o comentário que fiz em outro blog:
    Será que ele acha que alguém acredita que a culpa pela sua má gestão frente ao Executivo, o endividamento do estado, o baixo salário dos servidores públicos, e tantas mazelas, é de uma instituição que detém apenas 3,9 do orçamento do Estado?
    Em vez de criticar um orçamento limitado como o do MP por que ele não demonstra o que tem feito com os mais de 80% que ele administra? Por que está tanto querendo aumentar impostos? Por que está contra a emenda constitucional que aumenta o repasse de recursos para a saúde?
    Por que ele não faz outra coisa na vida que não seja xingar, ameaçar, retaliar e tentar destruir aqueles que lhes fazem oposição ou que de alguma forma vão contra seus interesses?
    Que tal rever seus conceitos sobre legalidade e democracia?
    Governador, chega de bravatas. Um ano de seu mandato já se foi. É hora de trabalhar.
    O senhor fala dos altos salários dos outros, mas e o seu? Além de ser o maior do país entre os governadores, o Sr. e sua família ainda tem casa, comida, roupa lavada, motorista, segurança, etc, etc, tudo as nossas custas.
    Pagamos suas mordomias para o Sr. trabalhar. Chega de suas neuras e guerrinhas pessoais.

  3. Jose Carlos
    domingo, 2 de dezembro de 2007 – 21:41 hs

    Ora, por certo, o arquiduque de Mello e Silva é muito mais inspirado pelo Chapeleiro Louco do que por qualquer outro personagem… A diferença básica é que o arquiloucoduque não toma chá, prefere vinhos argentinos e chilenos, como os Catenas doados por um baixinho amigo seu, parecido com a Lebre do conto…

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