245. Demitido por justíssima causa | Fábio Campana

245. Demitido por justíssima causa

Eu deixara os Diários Associados e ainda não arranjara emprego novo. Fazia um biscate aqui, outro acolá, ia vivendo – até que me apareceu pela frente um senhor bem-falante que se dizia empresário de vários negócios, mas cujo sonho, há muito acalentado, era ser dono de um jornal. Eu podia me encarregar da coisa? Insolvente como me encontrava, não pensei mais que um segundo:

– “Topo!”

O cavalheiro alugou um conjunto de quatro salas na rua México, mobiliou-as, comprou meia dúzia de máquinas de escrever, disse-me que eu tinha carta branca: que escolhesse para me ajudar na empreitada quem eu achasse melhor.

De jornal não entendo nada. Mas preciso de um para defender certas idéias.

E acrescentou:

Só imponho uma condição: você não pode falar mal de Fulano, Sicrano e Beltrano, gente boa e meus amigos! (Na verdade, eram três notórios sicofantas, manjadíssimos na praça.) E tem mais: o pessoal a ser recrutado não pode ser muito grande, somente o essencial, que por enquanto o dinheiro não dá para mais.
O jornal saiu uns vinte dias depois, chamava-se Folha do Rio, não mais que oito páginas.

Então aconteceu o que eu não esperava: antes de completar um mês, o jornal teve de fazer a cobertura de um enorme incêndio que estava acontecendo na Cinelândia, na área dos cinemas. Fizemos o possível. Mas houve um instante em que faltou repórter, faltou fotógrafo, faltou tudo. E o fogaréu ali bem perto, cada vez mais aceso.

Hora de fechar o jornal, antes do meio-dia (era vespertino, tinha de estar na banca às duas), eu só tinha nas mãos duas fotos tiradas ainda no início do desastre e mais umas duas laudas escritas apressadamente por um repórter freelancer.

Que fazer?

Frustrado até a medula, não vacilei. Dei uma copidescada na matéria, escolhi a foto menos ruim, arrumei tudo na primeira página. E, no pé da matéria, na segunda página, escrevi: “Esta reportagem continua em O Globo”.

Se fui demitido? Perguntinha boba… Demitidíssimo. E por justa causa. Justíssima.

Excerto do livro
Diário do último dinossauro, de Joel Silveira.


Deixe seu comentário:

Campos obrigatórios estão marcados com *

*

*